Natureza
80 anos de ausência, 4 mil indivíduos de volta: o guará reconquista a Baía de Guaratuba
Ave símbolo do município paranaense virou termômetro ambiental e atrai turistas dispostos a pagar para ver a revoada ao entardecer
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Quem passa pelo fim de tarde na Baía de Guaratuba, no litoral do Paraná, sabe reconhecer o momento. O céu começa a ganhar manchas vermelhas que não vêm do sol. São os guarás — centenas deles — retornando ao dormitório antes do escuro. O espetáculo dura minutos. O impacto, uma vida inteira.
A espécie que deu nome ao município ficou ausente da região por cerca de 80 anos. Voltou em 2008, quase em silêncio. Desde então, a população cresceu, o monitoramento se organizou e o ecoturismo começou a enxergar nessa ave vermelha uma oportunidade real de negócio — e de conservação.
Indicador vivo da saúde dos manguezais
O guará (Eudocimus ruber) não é apenas bonito. É exigente. A espécie pertence à família Threskiornithidae, parente do colhereiro (Platalea ajaja) e da curicaca (Theristicus caudatus), e depende diretamente de manguezais e estuários bem preservados para se alimentar, descansar e se abrigar. Onde o guará aparece, o ambiente está funcionando. Onde ele some, alguma coisa quebrou.

“O retorno do guará à Baía de Guaratuba representa um indicativo positivo da qualidade ambiental dos manguezais e áreas estuarinas. A presença dos guarás é um importante indicador ecológico”, afirma Edgar Fernandez, pesquisador do Laboratório de Ecologia e Conservação (LEC).
O censo mais recente do Projeto Guará registrou mais de 4 mil indivíduos na baía. O número coloca Guaratuba entre os principais sítios da espécie no litoral Sul do Brasil. Desde 2017 e 2018, quando o monitoramento sistemático da ilha dormitório ganhou regularidade, o Instituto Guaju passou a coordenar ações integradas de pesquisa e educação ambiental, adotando o guará como espécie guarda-chuva para a conservação dos ecossistemas da região.
A revoada que virou produto turístico
A ilha onde os guarás se concentram ao entardecer se tornou o epicentro do turismo de observação na baía. O passeio funciona de forma simples: um barco, um guia habilitado e a paciência de esperar a luz certa. O que acontece depois dispensa descrição longa.
Para estruturar esse mercado, o Instituto Guaju, junto a outros órgãos, realizou um curso de formação de condutores locais, qualificando guias para o ecoturismo, a pesca esportiva e a observação de aves. A ideia vai além do treinamento técnico — é construir uma cadeia local que entenda que a proteção do manguezal é, também, proteção do próprio sustento.
O fotógrafo de natureza Bruno Carlesse participou da formação. Para ele, o roteiro deixou de ser uma atração e passou a ser ferramenta. “A experiência da revoada no fim de tarde emociona e, ao mesmo tempo, permite contextualizar a importância dos manguezais e da preservação da Baía de Guaratuba”, observa.
Além disso, Edgar Fernandez reforça a dimensão econômica da iniciativa: “Valorizar a cultura caiçara, o turismo de base comunitária e promover o turismo sustentável é uma maneira de gerar renda e fortalecer as atividades que incentivam a proteção dos guarás e dos manguezais, que são ecossistemas fundamentais para o equilíbrio ambiental da Baía de Guaratuba.”
O mistério que a ciência ainda não resolveu
Com toda a movimentação científica em torno da espécie, uma pergunta permanece sem resposta: onde os guarás de Guaratuba se reproduzem? Até hoje, nenhuma colônia reprodutiva consolidada foi registrada no litoral do Paraná. Os indivíduos aparecem, dormem na ilha, alimentam-se nos manguezais — e somem quando chega a hora de criar os filhotes.

“A ausência de reprodução local constitui uma das principais lacunas ecológicas relacionadas à dinâmica populacional da ave na região”, explica Fernandez. As áreas reprodutivas mais próximas identificadas pela ciência ficam na Baía da Babitonga, em Santa Catarina, e em estuários do litoral paulista. Parte da população deixa Guaratuba entre novembro e fevereiro justamente para isso. O bando reduz. O mistério permanece.
Quando ir e como observar
O período de maior concentração dos guarás em Guaratuba vai de abril a outubro. É a janela ideal para quem quer ver o espetáculo completo, com o bando em seu tamanho máximo. Nos meses de verão, parte dos indivíduos migra para se reproduzir em outras regiões, mas a observação ainda é possível.
Para fazer o passeio com responsabilidade, é necessário buscar guias e instituições especializadas em turismo de observação. O manejo adequado protege a ave — e garante que a experiência continue existindo para quem vier depois.
Fonte: G1/globo | Fotos: Edgar Fernandez
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