Natureza
Com menos floresta, Amazônia aquece e perde chuva na estação seca
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Por
Claudio P. Filla
A Amazônia sempre exerceu um papel central na regulação do clima regional, funcionando como um gigantesco sistema natural de resfriamento e reciclagem de umidade. Entretanto, à medida que a cobertura florestal é substituída por pastagens, lavouras e áreas de mineração, esse equilíbrio começa a se romper. O resultado é um ambiente mais quente, mais seco e progressivamente menos resiliente, sobretudo durante a estação seca.
Pesquisas recentes baseadas em dados de satélite indicam que áreas da Amazônia com menos de 60% de cobertura florestal apresentam mudanças climáticas significativas quando comparadas a regiões preservadas, onde a vegetação nativa ultrapassa 80%. Nessas zonas degradadas, a temperatura da superfície pode ser, em média, até 3 °C mais alta no período seco, ao mesmo tempo em que se observa queda expressiva na evapotranspiração e na quantidade de chuvas.
Esse comportamento aproxima essas regiões de um clima típico de áreas de transição entre floresta úmida e savana, o que acende um alerta sobre o avanço silencioso de processos de degradação ambiental no coração do bioma.
Menos árvores, menos chuva e mais calor
A redução da cobertura vegetal interfere diretamente no funcionamento do ciclo da água. Com menos árvores, há menor liberação de vapor d’água para a atmosfera, processo conhecido como evapotranspiração, essencial para a formação de nuvens e precipitações. Assim, regiões mais desmatadas passam a registrar não apenas menos chuva ao longo do ano, mas também uma distribuição irregular das precipitações.
Dados analisados mostram que áreas com cobertura florestal inferior a 60% apresentam, em média, 12% menos evapotranspiração e até 25% menos chuvas durante a estação seca, além de cerca de 11 dias a menos de ocorrência de precipitação ao longo do ano. Esse encurtamento do período chuvoso intensifica o estresse hídrico da vegetação remanescente, tornando a floresta mais vulnerável a incêndios e mortalidade de árvores.
Como consequência, espécies mais sensíveis ao calor e à seca tendem a desaparecer, abrindo espaço para plantas oportunistas e gramíneas exóticas, o que compromete a biodiversidade e altera profundamente a estrutura da floresta.
Impactos que ultrapassam o limite ambiental
As mudanças climáticas locais provocadas pelo desmatamento não afetam apenas a floresta em si. Elas também impactam diretamente atividades econômicas dependentes do clima, como a agricultura. Ambientes mais quentes e secos reduzem a produtividade agrícola, aumentam a necessidade de irrigação e elevam o risco de perdas em períodos de estiagem prolongada.
Estudos conduzidos no Brasil reforçam que manter altos níveis de cobertura florestal não é apenas uma estratégia ambiental, mas também econômica. A legislação brasileira, por meio do Código Florestal, estabelece a preservação de pelo menos 80% da vegetação nativa em propriedades localizadas na floresta amazônica, justamente para garantir a estabilidade climática e hídrica da região.
Nesse contexto, pesquisas desenvolvidas no âmbito do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais indicam que áreas que respeitam esse limite mínimo de preservação apresentam condições climáticas mais estáveis e menos suscetíveis a extremos de temperatura e seca.
Mudanças no uso do solo e avanço da degradação
A Amazônia brasileira já perdeu cerca de 13% de sua vegetação nativa entre 1985 e 2024, o equivalente a aproximadamente 520 mil quilômetros quadrados — uma área maior que países inteiros. Dados do MapBiomas mostram que, nesse período, as pastagens avançaram de forma acelerada, assim como as áreas agrícolas e, mais recentemente, a mineração.
Mesmo com a desaceleração do desmatamento nos últimos anos, a remoção de mais de 6 mil quilômetros quadrados de floresta apenas em 2024 demonstra que o problema segue longe de ser resolvido. Esse ritmo mantém a pressão sobre o clima regional e amplia o risco de a Amazônia atingir pontos de não retorno ecológico.
Restaurar para resfriar: o papel da recomposição florestal
As análises indicam que regiões com menos de 40% de cobertura florestal remanescente enfrentam os impactos mais severos. Nesses locais, a temperatura da superfície pode chegar a ser até 4 °C mais alta durante a estação seca, enquanto a evapotranspiração cai drasticamente. Ainda assim, os estudos apontam que a restauração da vegetação nativa pode reverter parte desses efeitos ao longo do tempo.
A recomposição da floresta favorece a recuperação de serviços ecossistêmicos fundamentais, como a regulação térmica, o aumento da umidade atmosférica e o armazenamento de carbono. Além disso, contribui para maior segurança hídrica, alimentar e econômica, não apenas na Amazônia, mas em outras regiões do país que dependem das chuvas geradas pelo bioma.
Pesquisas apoiadas por instituições como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo reforçam que conter o desmatamento e investir na restauração florestal são medidas essenciais para preservar a resiliência climática da Amazônia em um cenário global de aquecimento acelerado.
Fonte: Luciana Constantino | Agência FAPESP

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