Agro
Agricultura Regenerativa impulsiona controle biológico no Cerrado brasileiro
Publicado
1 dia atrásem
Por
Claudio P. Filla
Em meio às transformações do agronegócio brasileiro, o Cerrado volta a ocupar posição de destaque ao demonstrar que produtividade e equilíbrio ecológico podem caminhar lado a lado. A identificação do fungo Metarhizium rileyi em áreas comerciais de soja e milho no sudoeste de Goiás confirma um movimento que ganha força nos últimos anos: o uso estratégico do controle biológico dentro dos princípios da Agricultura Regenerativa.
O diagnóstico, conduzido por pesquisadores da Embrapa no âmbito do Projeto Regenera Cerrado, evidencia que sistemas agrícolas bem manejados favorecem o restabelecimento de processos naturais que ajudam a manter as lavouras sob controle, mesmo diante de pressões crescentes de pragas e instabilidades climáticas.
O papel do Metarhizium rileyi no manejo das lavouras
Detectado de forma disseminada em propriedades do Cerrado goiano, o fungo Metarhizium rileyi atua como inimigo natural de lagartas do grupo dos lepidópteros noctuídeos, historicamente responsáveis por perdas expressivas nas culturas de soja e milho. Ao infectar os insetos ainda na fase larval, o microrganismo interrompe seu ciclo de desenvolvimento e reduz o potencial de dano econômico.
Entretanto, o destaque não está apenas na presença do fungo, mas nas condições que permitem sua atuação eficiente. Sistemas que preservam a biologia do solo, evitam desequilíbrios microbiológicos e priorizam o manejo integrado de pragas criam um ambiente propício para que agentes naturais se estabeleçam.
Segundo o pesquisador da Embrapa e doutor em Entomologia, Rogério Biaggioni Lopes, a descoberta vai além de um simples registro científico. “Esse fungo já ocorre naturalmente no Cerrado. O diferencial está no manejo adotado. Sistemas conduzidos sob princípios regenerativos criam condições para que esses agentes biológicos se estabeleçam e atuem nos momentos de maior pressão de pragas”, explica.
Agricultura Regenerativa como base do equilíbrio ecológico
A Agricultura Regenerativa propõe práticas que priorizam cobertura permanente do solo, diversidade de culturas, redução do revolvimento e estímulo à microbiota. Assim, além de favorecer o controle natural de pragas, o sistema contribui para a melhoria da estrutura física e biológica do solo.
Na prática, a presença do Metarhizium rileyi funciona como um indicador de equilíbrio. Em áreas monitoradas pelo projeto, observou-se que o aumento populacional das lagartas é acompanhado, naturalmente, pelo crescimento da incidência do fungo, mantendo a praga abaixo do nível de dano econômico.
Lopes reforça esse princípio ao afirmar: “A ausência de prejuízo econômico não significa ausência de pragas, mas sim que elas estão sob controle. Esse é o princípio do manejo integrado aliado à agricultura regenerativa”.
Esse entendimento amplia a visão tradicional de controle, deslocando o foco da erradicação total para o manejo equilibrado do sistema produtivo.
Redução de custos e maior resiliência climática
Além do impacto direto sobre as pragas, os sistemas regenerativos apresentam ganhos adicionais relevantes. A redução gradual do uso de defensivos químicos, aliás, tende a diminuir custos operacionais ao longo do tempo. Além disso, solos biologicamente ativos demonstram maior capacidade de retenção de água e melhor estrutura física, o que contribui para enfrentar tanto veranicos quanto períodos de excesso hídrico.
Esse cenário desperta atenção inclusive de empresas de gestão de risco e seguradoras agrícolas, já que sistemas mais equilibrados tendem a apresentar menor volatilidade produtiva. Assim, eficiência econômica e sustentabilidade deixam de ser conceitos antagônicos.
Para Flávia Tayama, diretora de Responsabilidade Corporativa Latam da Cargill, os resultados reforçam essa convergência. “A identificação de agentes naturais de controle biológico comprova que sistemas bem manejados restauram o equilíbrio ecológico das lavouras, gerando eficiência produtiva, redução de riscos e maior preparo para desafios climáticos e econômicos”, afirma.
Experiência prática confirma resultados no campo
Na Fazenda Boa Vista, em Paraúna (GO), uma das áreas acompanhadas pelo projeto, os efeitos do manejo regenerativo já são perceptíveis. O produtor Paulo Roberto Buffon relata aumento significativo da presença de fungos benéficos e da micro e macrofauna do solo, além de maior estabilidade produtiva ao longo das safras.
“Costumo chamar esses organismos de amigos naturais. Eles trabalham em parceria com a lavoura para manter o sistema equilibrado”, destaca. Segundo ele, houve redução no uso de defensivos e maior previsibilidade nos resultados, mesmo em condições climáticas desafiadoras.
Esses relatos reforçam que o controle biológico, quando integrado a práticas regenerativas, deixa de ser uma ferramenta isolada e passa a compor uma estratégia sistêmica de produção.
Ciência aplicada e expansão do modelo
Criado em 2022 pelo Instituto Fórum do Futuro, o Projeto Regenera Cerrado busca transformar princípios regenerativos em protocolos aplicáveis à realidade da soja e do milho no Brasil. Com coordenação técnico-científica da Embrapa e execução operacional do Instituto BioSistêmico, o projeto reúne instituições de pesquisa e produtores do sudoeste goiano para validar práticas em escala comercial.
A segunda fase da iniciativa amplia o monitoramento e consolida o Cerrado como laboratório vivo de inovação agrícola. Ao integrar ciência, gestão e prática no campo, o modelo aponta caminhos para um sistema produtivo mais resiliente, economicamente viável e ambientalmente equilibrado.
Assim, o avanço do controle biológico no Cerrado não representa apenas uma descoberta pontual, mas sinaliza uma mudança estrutural na forma de produzir grãos no Brasil, onde tecnologia, biodiversidade e manejo consciente passam a atuar em sinergia dentro das lavouras.

Comunicador Social com especialização em Mídias Digitais e quase uma década de experiência na curadoria de conteúdos para setores estratégicos. No Agronamidia, Cláudio atua como Redator-chefe, liderando uma equipe multidisciplinar de especialistas em agronomia, veterinária e desenvolvimento rural para garantir o rigor técnico das informações do campo. É também o idealizador do portal Enfeite Decora, onde aplica sua expertise em paisagismo e arquitetura para conectar o universo da produção natural ao design de interiores. Sua atuação multiplataforma reflete o compromisso em traduzir temas complexos em conteúdos acessíveis, precisos e com alto valor informativo para o público brasileiro.
E-mail: [email protected]


