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Home Natureza

Fungo que arrasou estufas de Holambra tem genoma decifrado pela Embrapa

by Derick Machado
24 de fevereiro de 2026
in Natureza
Fungo que arrasou estufas de Holambra tem genoma decifrado pela Embrapa

Em 2023, produtores de ciclâmen em Holambra assistiram a mais de quatro mil plantas murcharem dentro das estufas. Folhas amareladas, bulbos mortos, descoloração vascular. O prejuízo foi rápido e severo: mais de 70% da produção de Cyclamen persicum comprometida em um dos maiores polos de flores e plantas ornamentais das Américas.

O agente causador era o fungo Fusarium oxysporum f. sp. cyclaminis. Agora, pela primeira vez no Brasil, a Embrapa sequenciou completamente o genoma desse patógeno.

O surto que forçou a ciência a agir

Holambra não é apenas uma cidade com sotaque holandês no interior paulista. O município e seus vizinhos concentram produtores altamente tecnificados e respondem por fatia expressiva de um mercado que movimenta cerca de US$ 3,5 bilhões por ano no Brasil. As flores em vasos, sozinhas, representam aproximadamente 40% desse faturamento. O ciclâmen está no centro desse negócio: valorizado pelas flores coloridas e pelo longo período de floração, é presença constante em jardins, varandas e ambientes internos.

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O surto de 2023 não foi apenas uma quebra de safra localizada. Foi o gatilho que colocou pesquisadores da Embrapa em campo para identificar, isolar e estudar a fundo o patógeno responsável. A cepa obtida naquele episódio recebeu o código CMAA 1919 e foi depositada na Coleção de Culturas de Microrganismos de Importância Ambiental e Agrícola da Embrapa Meio Ambiente, em São Paulo. A partir daí, começou o trabalho que resultou no sequenciamento genômico completo.

O que o DNA do fungo revela

Para o pesquisador Bernardo Halfeld-Vieira, o significado do resultado vai além do registro científico. “A sequência genética permite fornecer informações fundamentais sobre sua biologia, patogenicidade e história evolutiva. Na prática, esse progresso abre caminho para o desenvolvimento de estratégias mais precisas de identificação, monitoramento e controle da doença nas áreas de produção”, explica.

Dito de forma direta: saber o DNA do fungo é saber onde ele é vulnerável. A análise genômica identifica genes associados à virulência, à especificidade do hospedeiro e à capacidade de adaptação ambiental. Com essas informações em mãos, fica possível direcionar melhoramento genético para variedades resistentes, definir fungicidas com alvo mais preciso e desenvolver sondas moleculares para diagnóstico precoce, antes que o fungo se espalhe pela estufa.

O pesquisador André May reforça o alcance do sequenciamento. “Além de identificar o patógeno com precisão, a análise genômica amplia a compreensão sobre genes associados à virulência, à especificidade do hospedeiro e à adaptação ambiental. Isso permite direcionar melhor as estratégias de manejo e acelerar o desenvolvimento de soluções mais eficazes para o setor”, afirma.

Fusarium já foi vencido antes — e a lição serve para o ciclâmen

O setor agrícola tem um precedente relevante nessa frente. O Fusarium oxysporum responsável pelo mal-do-Panamá na bananicultura passou por processo similar de mapeamento genômico. Os dados obtidos permitiram identificar genes-chave, acelerar o desenvolvimento de variedades resistentes e estruturar métodos de controle mais eficientes. O caminho traçado para o ciclâmen segue a mesma lógica.

Aliás, vale lembrar que a murcha do ciclâmen não é novidade no Brasil. A pesquisadora Kátia Nechet aponta que a doença é relatada no país desde a década de 1970. Contudo, por décadas, o diagnóstico se baseou apenas em sintomas visuais e testes de patogenicidade. Sem a descrição genômica, o manejo era essencialmente reativo. “A descrição genômica da cepa CMAA 1919 não apenas confirma a presença do patógeno, mas também estabelece um ponto de partida para pesquisas colaborativas voltadas à compreensão da epidemiologia da doença e dos fatores que influenciam sua disseminação”, destaca Nechet.

Cinquenta anos de convivência com o problema. Agora, pela primeira vez, há uma base científica sólida para enfrentá-lo de forma estruturada.

Sustentabilidade produtiva como vantagem competitiva

O mercado de plantas ornamentais brasileiro tem projeção de crescimento de cerca de 7% nos próximos anos. Esse ritmo exige que a produção seja sustentável porteira para dentro, com menor dependência de tratamentos fitossanitários intensivos e maior capacidade de resposta a novos surtos. O sequenciamento da cepa CMAA 1919 entrega exatamente isso: instrumentos técnicos para antecipar riscos, reduzir perdas e aumentar a previsibilidade da produção.

Além disso, a articulação entre instituições de pesquisa como a Embrapa e os produtores de Holambra se consolida como ativo estratégico do setor. O produtor que hoje sofre com a murcha de Fusarium passa a ter, no horizonte próximo, variedades com resistência genética comprovada e protocolos de diagnóstico rápido que podem ser aplicados diretamente nas estufas. O caminho foi aberto. O próximo passo é transformar o dado genômico em solução comercial disponível no campo.

Fonte: Embrapa

  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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