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Agro

Safra recorde pressiona arábica: café perde R$ 311 por saca em fevereiro e interrompe reação positiva de janeiro

Cepea-Esalq aponta queda de 14,3% no preço médio da saca em fevereiro; projeção de 66,2 milhões de sacas pela Conab é o principal vetor da pressão sobre as cotações domésticas

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Safra recorde pressiona arábica: café perde R$ 311 por saca em fevereiro e interrompe reação positiva de janeiro

O mercado do café arábica no Brasil abriu 2026 com dois movimentos distintos e reveladores. Em janeiro, as cotações reagiram com força após um período de baixa liquidez. Em fevereiro, o cenário reverteu: o preço médio da saca de 60 quilos na capital paulista recuou 14,3%, chegando ao menor patamar desde julho de 2025, segundo análise do Centro de Estudos em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Cepea-Esalq), da USP em Piracicaba, divulgada com base em dados levantados pelo G1 Piracicaba e Região.

O Indicador Cepea/Esalq do arábica posto em São Paulo fechou fevereiro com média de R$ 1.864,51 por saca, o que representa uma queda de R$ 311,31 em relação ao mês anterior. O principal vetor dessa correção veio de fora do campo, antes mesmo de a colheita começar: as projeções de uma safra recorde em 2026/27.

Projeção de recorde pressiona antes da colheita

“A pressão veio, sobretudo, de projeções indicando possibilidade de colheita recorde no Brasil na safra 2026/27, fato que não ocorre desde 2021. O patamar de fevereiro ficou R$ 66,32 acima do preço da saca registrado em julho de 2025, em termos reais deflacionados pelo IGP-DI, período em que o Brasil passava pelo pico da colheita da safra 2025/26”, detalhou o boletim do Cepea-Esalq.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) publicou, no início de fevereiro, sua primeira estimativa para a produção de café em 2026: 66,2 milhões de sacas, o que representa crescimento de 17,1% em relação ao ciclo anterior. O número projetado sustenta a expectativa de recorde histórico para o setor.

“Em ano de bienalidade positiva, o crescimento previsto é influenciado pelo incremento de 4,1% na área em produção em relação a 2025, estimada em 1,9 milhão de hectares na atual temporada, algo esperado para o ciclo”, detalhou a Conab em nota técnica.

No estado de São Paulo, um dos principais produtores de arábica do país, a estimativa aponta para uma safra de 5,5 milhões de sacas, impulsionada tanto pela bienalidade positiva quanto pela recuperação de áreas que sofreram perdas no ciclo anterior. Dessa forma, o mercado antecipou o movimento de ajuste nas cotações antes mesmo de a colheita ganhar volume.

O recuo não apaga o patamar histórico favorável

A queda de fevereiro é real, mas o contexto histórico coloca o momento em perspectiva. O Cepea-Esalq analisou que, apesar das recentes desvalorizações, o atual patamar de negociação do arábica ainda é relativamente elevado dentro da série histórica do indicador, iniciada em setembro de 1996.

A média de fevereiro de 2026 é a terceira maior já registrada para o mês, em termos reais, perdendo apenas para o mesmo período de 2025 e para fevereiro de 1997. Ou seja, o produtor que olha apenas para a variação mensal enxerga um recuo expressivo. O que olha para a série histórica, encontra um produto ainda bem precificado.

Aliás, esse contexto favorável vinha sendo construído ao longo de 2025. Em outubro, a saca do arábica operava em torno de R$ 2,2 mil, e a do robusta fechava próximo dos R$ 1.350. Com esses preços, o produtor paulista precisava de apenas 1,16 saca de arábica para adquirir uma tonelada de fertilizante, enquanto em outubro de 2024 eram necessárias 1,44 sacas para o mesmo volume. A média histórica do levantamento, iniciado pelo Cepea em 2011, exige 2,6 sacas para essa mesma compra.

“O poder de compra dos agricultores frente a importantes fertilizantes é considerado bom neste ano. Pesquisadores ressaltam que a retomada das chuvas nas regiões produtoras de café tende a viabilizar a realização de adubações nas lavouras, visando um bom desenvolvimento da safra 2025/26”, destacaram os analistas do Cepea.

Janeiro aqueceu o mercado antes da virada

Antes de o cenário de oferta pressionar o mercado em fevereiro, janeiro trouxe um movimento contrário. Após um fim de ano com negociações restritas e tanto vendedores quanto compradores afastados do mercado doméstico, as vendas do setor cafeeiro voltaram a aquecer na primeira quinzena do mês.

Agentes consultados pelo Cepea indicaram que a virada do ano criou necessidade de caixa para parte dos agricultores, o que aumentou a liquidez das transações. As cotações do arábica e do robusta fecharam, respectivamente, em torno de R$ 2,2 mil e R$ 1,2 mil a saca, valores considerados positivos e dentro dos patamares desejáveis pelos produtores.

O movimento de alta se intensificou a partir de 6 de janeiro, quando os contratos futuros de março de 2026 registraram aumento de 1.450 pontos na Bolsa de Nova York (ICE Futures), o que expandiu o volume comercializado no mercado brasileiro. Contudo, o impulso de curto prazo cedeu espaço ao peso das expectativas de safra ao longo do mês seguinte.

Chuvas escassas acendem alerta para a safra 2026/27

Por outro lado, o cenário de oferta abundante projetado para 2026/27 carrega uma variável de risco que o mercado ainda não precificou por completo. O Cepea registrou preocupação entre agentes do setor em relação às condições climáticas em importantes regiões produtoras do Brasil durante a formação dos frutos.

“Dezembro foi marcado por temperaturas elevadas e baixa umidade, condição que pode comprometer a formação dos grãos, resultando em cafés chochos”, analisou o Cepea em seu boletim.

A formação adequada dos grãos nesta fase do ciclo é determinante para a qualidade e o peso final da produção. Lavouras submetidas a estresse hídrico durante o período de granação tendem a produzir sacas com menor densidade, o que impacta diretamente no rendimento e, por consequência, na receita do produtor por hectare. O monitoramento climático nas próximas semanas, portanto, vai definir se a safra recorde projetada pela Conab se concretiza com a qualidade esperada ou se sofre correções nas estimativas ao longo do primeiro semestre.

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