Natureza
Ciclo reprodutivo do Cerrado encolhe com as mudanças climáticas, e as abelhas são as primeiras a sentir Monitoramento de 15 anos realizado pela
Unesp mostra que espécies nativas estão florescendo e frutificando por menos tempo, com impacto direto sobre polinizadores e a cadeia alimentar do bioma
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Quinze anos de observações mensais em campo renderam uma conclusão que preocupa pesquisadores e gestores ambientais: as plantas do Cerrado estão completando seu ciclo reprodutivo em menos tempo. O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), acompanhou 31 espécies de árvores e arbustos em área de vegetação nativa em Itirapina, no centro-leste paulista, entre 2005 e 2019, e registrou redução significativa na duração da floração e da frutificação ao longo do período.
O trabalho integra o Programa de Monitoramento Fenológico de Longa Duração do Cerrado, do Laboratório de Fenologia da Unesp de Rio Claro, e os dados apontam para uma relação direta entre as alterações climáticas observadas no período — queda na precipitação, aumento da temperatura média e redução da umidade relativa do ar — e o encurtamento dos ciclos reprodutivos das espécies monitoradas.
A pesquisadora Amanda Eburneo Martins, primeira autora do estudo, explica que o impacto não foi uniforme entre as espécies. “As espécies que dependem de animais para a polinização apresentaram redução no tempo de duração da floração ao longo dos 15 anos, em resposta à diminuição da precipitação. Já na frutificação, a duração diminuiu tanto em espécies dependentes quanto independentes de polinizadores, sendo afetada pelo aumento da temperatura média e pela redução da umidade relativa do ar”, detalha Martins.
O fim antecipado que muda tudo
Um dado particularmente relevante apurado pelo estudo é que as datas de início e de pico da floração e frutificação permaneceram estáveis ao longo dos 15 anos. Ou seja, as plantas continuam começando seu ciclo reprodutivo nas mesmas épocas do ano. O que mudou foi o encerramento desse ciclo, que passou a ocorrer mais cedo, comprimindo a janela em que flores e frutos estão disponíveis no ambiente.
Essa compressão no final do período reprodutivo tem consequências práticas que vão além da biologia das plantas. Com menos tempo de floração disponível, os polinizadores — especialmente as abelhas, responsáveis pela reprodução da maioria das espécies estudadas — encontram recursos florais por um intervalo menor. Consequentemente, a nutrição das colônias fica comprometida nos períodos de maior escassez, o que fragiliza populações inteiras de polinizadores nativos.
A cadeia não para aí. A redução na duração da frutificação afeta diretamente os animais frugívoros, que se alimentam de frutos e atuam como dispersores de sementes. Com menos frutos disponíveis por menos tempo, a regeneração natural das espécies vegetais do Cerrado perde força, comprometendo o recrutamento de novos indivíduos e, por extensão, a estrutura do bioma ao longo das próximas décadas.
Cofloração em declínio e competição crescente entre espécies
Além do encurtamento individual dos ciclos, o estudo registrou outro fenômeno preocupante: o declínio da cofloração, que é a sobreposição dos períodos de floração entre espécies diferentes. Esse padrão foi observado tanto em plantas dependentes quanto independentes de polinizadores, e o efeito é amplificado justamente porque a grande maioria das espécies estudadas depende de abelhas para se reproduzir.
Quando menos espécies florescem simultaneamente, a disputa por polinizadores se intensifica. Plantas concorrem entre si para atrair os mesmos visitantes florais, ao mesmo tempo em que abelhas e outros insetos precisam buscar mais longe para garantir a diversidade nutricional necessária ao desenvolvimento das colônias. Sob essa ótica, o declínio da cofloração não é apenas um evento fenológico isolado, mas um reorganizador das interações ecológicas dentro do Cerrado.
Uma metodologia que o hemisfério Norte ainda não alcançou
A profundidade dos dados obtidos pelo grupo da Unesp reflete uma abordagem metodológica que difere substancialmente do que é praticado em estudos fenológicos no hemisfério Norte. Patricia Morellato, coordenadora do Laboratório de Fenologia e diretora do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) da FAPESP, explica a diferença com precisão.
“A metodologia que usamos nos trópicos é diferente daquela aplicada no hemisfério Norte. Lá, eles utilizam o que chamam de first flower e first leaf bud — simplesmente anotam essas ocorrências pontualmente, não se tratando, na maioria dos casos, de indivíduos marcados. É apenas uma observação cronológica ao longo do ano”, compara Morellato.
No modelo adotado pela equipe brasileira, pesquisadores vão ao campo pelo menos uma vez por mês e acompanham continuamente indivíduos marcados, registrando todas as fases: primeiro botão, flor aberta, fruto verde, fruto maduro, brotação foliar, proporção de folhas novas e queda de folhas. “Isso traz um detalhamento e uma sofisticação maior aos dados. Esse tipo de acompanhamento permite uma análise mais consistente ao longo dos anos”, afirma a pesquisadora.
O Cerrado resiste, mas por quanto tempo?
Apesar das mudanças registradas, o estudo constatou que o sucesso reprodutivo da comunidade vegetal permaneceu estável ao longo dos 15 anos analisados. Esse dado sugere que as espécies do Cerrado ainda mantêm capacidade adaptativa diante das transformações climáticas recentes, possivelmente devido a adaptações evolutivas consolidadas durante períodos de instabilidade climática intensa no passado, como as oscilações do Pleistoceno.
Contudo, o Cerrado já é hoje um dos biomas mais pressionados do país. A expansão agrícola avança continuamente em direção ao norte, formando o chamado arco da devastação, fronteira entre o Cerrado e a Floresta Amazônica. Para Morellato, compreender o que está acontecendo com a fenologia do bioma em toda a sua extensão é urgente. “É essencial compreender o que está acontecendo com o Cerrado e reconhecer sua importância em toda a sua área de distribuição”, reforça a pesquisadora.
O grupo da Unesp já trabalha em análises semelhantes para outros biomas. Dados de longa duração da Floresta Amazônica estão em fase de análise, e um novo artigo com informações climáticas mais detalhadas, integradas a dados de comunidades vegetais e animais, deve ser publicado em breve. Para Morellato, esse conjunto de informações será decisivo para quantificar os efeitos das mudanças climáticas em diferentes biomas brasileiros e orientar políticas de conservação baseadas em evidências de campo.
Fonte: Gabriela Andrietta | Agência FAPESP
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