Em 2013, o agroextrativista Osmarino Lagos Souza precisou de muita insistência para convencer sua comunidade e o poder público de que o murumuru valia a pena. A palmeira era vista como estorvo nos açaizais da região de Nova Cintra, no Pará, e o governo estadual carregava a memória de uma tentativa frustrada de usá-la para produção de biodiesel. Ninguém queria ouvir falar no assunto.
“Na época, o governo do Estado não me deu muita atenção, mas insisti dizendo que, se a gente continuasse, daria para empregar algumas pessoas que estavam vivendo só de Bolsa Família, e era interesse da gente ajudar essas famílias e também preservar o patrimônio do Estado”, relata Souza, que assumia naquele ano a presidência da Cooperativa dos Produtores de Agricultura Familiar e Economia Solidária de Nova Cintra, a Coopercintra.
A teimosia deu resultado. Com recursos captados para reativar uma usina de óleo vegetal abandonada, a cooperativa processou cerca de 25,8 toneladas de caroço de murumuru naquele primeiro ciclo, vendidas a aproximadamente R$ 15 o quilo. Mais de uma década depois, o preço chegou a R$ 40 o quilo e o volume adquirido dos cooperados saltou para 258 toneladas por safra, que ocorre entre abril e julho, quando os frutos se desprendem naturalmente da árvore.
Uma cesta de produtos que sustenta a floresta em pé
Atualmente, cerca de 200 coletores fornecem sementes de murumuru para a Coopercintra, obtendo uma renda média de R$ 3 mil por safra. O valor se soma a outras cadeias da sociobiodiversidade já consolidadas na região, como o açaí, a borracha e o buriti, compondo uma cesta diversificada que reduz a dependência de um único produto e distribui melhor os riscos ao longo do ano.
A Embrapa Amapá estima que cada árvore de murumuru produza, em média, de 12 a 21 litros de manteiga. Considerando o preço atual praticado pela Coopercintra, esse volume representa uma receita de até R$ 840 por palmeira manejada, o que torna a espécie competitiva frente a outras culturas da região sem exigir desmatamento ou conversão de área.
A chefe de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Amapá, Valéria Bezerra, aponta que a valorização do murumuru vai além do aspecto financeiro. “Teve um processo aqui de tirar praticamente tudo, deixar apenas o açaí porque é o que dá mais dinheiro. E o que aconteceu? As abelhas foram embora. As abelhas indo embora, não tem fertilização dos frutos, não existe fruto”, afirma a pesquisadora.
A lógica é direta: a monocultura do açaí em detrimento de outras espécies nativas desequilibra o ambiente e, paradoxalmente, compromete a própria produção do açaí ao longo do tempo. O murumuru, por oferecer floração em período distinto, contribui para manter os polinizadores ativos e a biodiversidade funcional nos sistemas produtivos da Amazônia.
“O murumuru dá uma renda muito boa, assim como todos os óleos obtidos da floresta”, acrescenta Bezerra.
Da floresta para a prateleira de cosméticos
A manteiga de murumuru conquistou espaço na indústria cosmética por suas propriedades emolientes e de fixação de ativos, sendo usada em produtos para cabelo e pele. A Natura foi uma das primeiras empresas a incluir o ingrediente em sua linha, ainda em 2003, depois de um processo sistemático de pesquisa para mapear potenciais matérias-primas amazônicas.
“Existem registros de que na década de 1940 o murumuru já era uma espécie utilizada pelas comunidades tradicionais para fazer sabão em barra”, relata Mauro Costa, gerente-sênior de abastecimento das cadeias da sociobiodiversidade na Natura.
A empresa mantém hoje uma rede que soma mais de três mil famílias extrativistas e parcerias com 52 comunidades amazônicas, das quais pelo menos 13 trabalham diretamente com o murumuru. Ainda assim, a inclusão da palmeira na cadeia produtiva não foi simples no início. Costa descreve a resistência que encontrou nas comunidades: “Muitos diziam que não fazia sentido ter o murumuru dentro do sistema de produção, optavam pela queima e a derrubada do murumuru para ampliar áreas de açaizais. Mas depois de todos esses anos, podemos dizer que temos uma cadeia sólida e robusta, com muitas famílias ganhando inclusive mais do que o que ganham com o açaí”.
Novas cooperativas entram na cadeia
A expansão do murumuru como ativo econômico da Amazônia não se limita às cooperativas já consolidadas. Em Santarém do Oeste, também no Pará, a Cooperativa dos Trabalhadores Agroextrativistas do Oeste do Pará, a Ascoper, está em fase de preparação para se tornar mais uma fornecedora da Natura. A expectativa é colher 1,5 tonelada de frutos neste ano para uma produção-teste que avaliará a qualidade da manteiga gerada na região. Se os resultados forem positivos, a cooperativa projeta chegar a 15 toneladas por temporada, com rendimento médio de 20% de manteiga após o processamento.
O presidente da Ascoper, Manoel Edivaldo Santos Matos, conta que a decisão veio depois de intercâmbios com outras cooperativas paraenses. “A gente sabe que o murumuru tem mercado porque fizemos intercâmbio com outras cooperativas daqui do Estado. A partir daí, nós partimos então para essa atividade para ampliar nossa cesta de produtos”, explica.
Para Matos, o impacto vai além da geração de renda. “Era uma palmeira que a gente não tinha conhecimento, então pegava para derrubar. Com o conhecimento desse potencial para gerar renda, ela se torna mais uma atividade e aquilo que seria derrubado não será mais. Então, é muito importante, tanto do ponto de vista ambiental quanto social”, afirma.
A trajetória do murumuru resume bem a lógica que sustenta a bioeconomia amazônica: o que tem valor econômico mensurável dificilmente é derrubado. Quando o produtor enxerga renda na floresta em pé, a floresta permanece de pé. Osmarino Lagos Souza entendeu isso em 2013, antes de qualquer política pública reconhecer. A região de Nova Cintra, que hoje conta com energia elétrica, internet e famílias saídas do Bolsa Família, é o resultado prático dessa aposta.



