O Brasil abriga a segunda maior área de manguezal do planeta — cerca de 1,4 milhão de hectares distribuídos ao longo de toda a faixa costeira — e ainda assim carecia de uma ferramenta prática para medir, com precisão científica, se esses ecossistemas estão funcionando como deveriam. Esse vazio começa a ser preenchido por um índice desenvolvido por pesquisadores brasileiros capaz de traduzir a complexidade bioquímica do solo de manguezais em um único número, acessível e utilizável por gestores ambientais.
O Índice de Saúde do Solo (ISS), descrito em artigo publicado na revista Scientific Reports, varia numa escala de 0 a 1, onde os valores mais próximos de 1 indicam solos em plena capacidade funcional. A proposta é direta: transformar processos físicos, químicos e biológicos altamente específicos em uma métrica compreensível, capaz de orientar decisões de conservação, restauração e monitoramento ambiental.
O que o índice mede — e por que isso importa
O ISS não foi construído a partir de uma variável isolada. Ele integra atributos ligados à dinâmica do carbono orgânico no solo, à fixação de substâncias contaminantes por meio de diferentes formas de minerais de ferro e à ciclagem de nutrientes, incluindo indicadores biológicos baseados na atividade enzimática de microrganismos presentes no solo. Juntos, esses elementos representam o estado funcional do ecossistema e sua capacidade real de prover serviços ambientais.
Quando aplicado no estuário do rio Cocó, no Ceará, o índice revelou contrastes expressivos entre áreas com históricos distintos de uso. Manguezais maduros e preservados alcançaram ISS médio de 0,99, enquanto áreas degradadas registraram apenas 0,25. Áreas replantadas há nove e 13 anos apresentaram valores intermediários de 0,37 e 0,52, respectivamente, o que indica recuperação gradual e mensurável ao longo do tempo.
“A pesquisa buscou traduzir em números alguns aspectos importantes relacionados à saúde de solos dos manguezais e à provisão de seus serviços ecossistêmicos, tais como sequestro de carbono, imobilização de contaminantes e ciclagem de nutrientes. Montamos a escala de 0 a 1 para acompanhar o restabelecimento ecossistêmico frente ao processo de recuperação”, explica a gestora ambiental Laís Coutinho Zayas Jimenez, autora da pesquisa e chefe do setor de manguezais na Diretoria de Biodiversidade da Fundação Florestal de São Paulo.
Para Jimenez, o passo seguinte é levar o índice para a prática da gestão pública. “Meu sonho agora é usar o índice de saúde do solo em uma aplicação prática. Mostrar aos meus pares, os gestores, que é possível analisar se o manguezal que passou por recuperação está produzindo plenamente ou não os serviços ecossistêmicos e em quanto tempo isso acontece.”
Recuperação rápida não justifica degradação
Um dos resultados mais relevantes da pesquisa está na desmistificação de uma ideia que, por vezes, serve de argumento para minimizar os impactos do desmatamento: a de que os manguezais são resilientes o suficiente para se recuperar sozinhos, independentemente da intervenção humana.
O professor Hermano Melo Queiroz, do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e um dos autores correspondentes do estudo, é direto ao avaliar os resultados. “Como o estudo foi desenvolvido em uma área de recuperação, os resultados desmistificam a ideia de que o ecossistema é resiliente frente a intervenções antrópicas. Mostramos que pode ser degradado em uma velocidade muito rápida. Mas a boa notícia é que o sistema também se recupera rapidamente, desde que a restauração seja feita de maneira assistida e elaborada, respeitando as condições locais do ambiente em que ele está inserido.”
Jimenez reforça o mesmo ponto sob a ótica da gestão: “Mesmo que o restabelecimento das funções do manguezal seja rápido, isso não pode ser usado como argumento para não proteger esse ambiente da degradação. Observada a retomada de alguns serviços ecossistêmicos, entre eles sequestro de carbono e ciclagem de nutrientes, outros, como a contenção de erosão costeira, demoram mais.”
Ou seja, a recuperação existe, é gradual e depende de condições técnicas específicas — e não exime nenhuma área de proteção prévia.
Florestas de carbono azul sob pressão
Os manguezais são chamados de florestas de carbono azul pela capacidade de absorver CO₂ da atmosfera e armazená-lo no solo por décadas, com eficiência superior à de florestas tropicais convencionais. De acordo com a iniciativa global Mangrove Breakthrough, esses ecossistemas concentram o equivalente a mais de 22 gigatoneladas de CO₂. A perda de apenas 1% dos manguezais remanescentes poderia gerar emissões equivalentes às de 50 milhões de automóveis por ano.
Contudo, estimativas indicam que entre 30% e 50% dos manguezais do mundo foram perdidos nos últimos 50 anos, pressionados pelo desmatamento, expansão urbana, poluição e, mais recentemente, pelas mudanças climáticas — com elevação do nível do mar e maior frequência de eventos extremos. O Brasil, que detém o mais extenso trecho contínuo de manguezal do mundo, localizado entre o Amapá e o Maranhão, concentra uma responsabilidade proporcional à sua extensão. Mais de 770 espécies de fauna e flora dependem diretamente desses ambientes, que sustentam comunidades pesqueiras ao longo de todo o litoral.
Um índice aberto, adaptável e com próximos passos definidos
Entre os diferenciais do ISS está sua arquitetura flexível. O índice pode incorporar informações específicas de cada ecossistema e região, como dados geoquímicos adicionais — a quantidade de fósforo no solo, por exemplo, que em excesso pode indicar contaminação ou desencadear processos de eutrofização, com proliferação de algas, consumo de oxigênio e perda de biodiversidade aquática.
Essa adaptabilidade posiciona o ISS como uma ferramenta com potencial de aplicação nacional, não restrita ao contexto do Ceará onde foi originalmente testado. O próximo passo dos pesquisadores é entender qual tipo de carbono está retornando aos solos restaurados — se mais estável ou de menor duração — o que amplia o valor da ferramenta para o monitoramento de metas climáticas.
Além disso, o estudo originou um novo projeto financiado pela FAPESP, intitulado “Desvendando a saúde do solo de manguezais brasileiros”, que combinará análises laboratoriais de solo, sensoriamento remoto e modelagem espacial para mapear a saúde dos manguezais em diferentes regiões do país e quantificar seu potencial real de sequestro de carbono.
O trabalho é resultado da tese de doutorado de Jimenez no Programa de Pós-Graduação em Solos e Nutrição de Plantas da Esalq-USP, desenvolvida sob orientação do professor Tiago Osório Ferreira, pesquisador com mais de 25 anos de atuação em manguezais e diretor de disseminação do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), da mesma instituição. O grupo ainda conta com a participação do professor Maurício Roberto Cherubin, especialista em saúde dos solos, e do pesquisador Francisco Ruiz.



