O Paraná atravessa um dos momentos mais delicados da safra 2024/25 com um problema que vai além das lavouras: o abastecimento de diesel começa a dar sinais de fragilidade em várias regiões do Estado, pressionando custos, travando entregas e acendendo o alerta das entidades do agronegócio. Produtores rurais relatam dificuldades para garantir o combustível nos postos, restrições no volume de compra e incerteza sobre os preços — tudo isso em plena operação de colheita e escoamento da soja.
A Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) já monitora os desdobramentos em tempo real e classifica a situação como sinal vermelho para o setor. O pano de fundo é o conflito no Oriente Médio, que compromete a estabilidade do fornecimento de petróleo e derivados no mercado internacional, com efeitos diretos sobre o diesel consumido no campo brasileiro.
Fila na bomba e prazo de dois dias para entrega
No extremo Oeste paranaense, o cenário já é concreto. Edio Luiz Chapla, presidente do Sindicato Rural de Marechal Cândido Rondon, relata que as transportadoras revendedoras — conhecidas como TRR — estão com dificuldades nas entregas, e os postos passaram a limitar o volume disponível por cliente.
“Se eu quiser diesel, tenho que entrar na fila, com prazo médio de dois dias para entrega, e não sei o preço que vou pagar”, afirma Chapla, que também é produtor rural na região.
A falta do produto ainda não foi confirmada oficialmente na área, mas a combinação de restrições no abastecimento e imprevisibilidade nos preços já altera o planejamento das propriedades. A preocupação de Chapla se concentra nas cadeias produtivas que operam de forma contínua — suinocultura, avicultura e piscicultura —, atividades que dependem de combustível em várias etapas e não têm a mesma flexibilidade operacional das culturas agrícolas sazonais.
“O preço do diesel impacta no custo de produção e na gôndola, com o produto final”, pondera o dirigente sindical, reforçando que o efeito não fica restrito à porteira da fazenda.
Momento crítico para a logística da safra
A situação se agrava porque o Paraná está em plena operação de escoamento da soja. Com cerca de 50% da oleaginosa já colhida, o Estado mobiliza uma cadeia logística intensa, que envolve caminhões, armazéns, terminais e portos — e toda essa estrutura roda a diesel.
Luiz Eliezer Ferreira, técnico do Departamento Técnico, Econômico e Legal (DTEL) do Sistema Faep, reforça a gravidade do momento. “Estamos em um momento crucial da safra, com quase 50% da soja colhida, o que resulta numa operação que envolve o transporte de caminhão do grão para armazéns e para o porto, além de navios. Toda essa cadeia é permeada pelo uso do diesel”, pontua.
O técnico acompanha os desdobramentos internacionais com atenção redobrada, especialmente a situação no Estreito de Hormuz, rota por onde circulam cerca de 20% do petróleo e do gás natural negociados no mundo. Qualquer instabilidade nesse corredor marítimo se traduz, rapidamente, em pressão sobre os preços dos combustíveis no Brasil. “Com o conflito, a dinâmica muda a todo momento, de forma muito rápida”, alerta Ferreira.
73% da energia do agro vem de combustíveis fósseis
Os números explicam por que a dependência do diesel é estrutural no agronegócio brasileiro. Levantamento do DTEL aponta que 73% da energia utilizada na agropecuária nacional é proveniente de combustíveis fósseis, com o diesel ocupando posição central no abastecimento de máquinas agrícolas e na logística de transporte da produção.
No Paraná, esse cenário é ainda mais sensível pelo elevado nível de mecanização. Culturas como soja, milho, trigo e cana-de-açúcar consomem diesel em praticamente todas as etapas — do preparo do solo à colheita. Além disso, o transporte rodoviário responde por mais de 60% da movimentação de cargas no país, incluindo grãos, fertilizantes e ração. Para sustentar essa frota, o Brasil importa 29% do diesel que consome, o que amplia a exposição às oscilações do mercado externo.
Ações para conter os danos
Diante do quadro, o Sistema Faep prepara uma frente de ações para mitigar os impactos sobre o setor. Entre as medidas em avaliação estão o acionamento do Procon para fiscalizar postos de combustíveis e coibir práticas abusivas de preço, além de uma solicitação formal à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) pelo aumento da mistura de biodiesel no diesel fóssil — medida que pode ampliar a oferta disponível no curto prazo.
A entidade também avalia pressionar pela liberação de estoques estratégicos como forma de regular o mercado e atuar junto aos governos estadual e federal na busca por respostas ao problema. A preocupação se estende, ainda, ao campo comercial: o Irã e outros países do Oriente Médio figuram entre os maiores importadores mundiais de milho e carne de frango brasileiros, o que coloca as negociações de exportação também sob observação.
A combinação de escassez no abastecimento, preços imprevisíveis e dependência estrutural do combustível fóssil projeta um período de pressão sobre os custos do agronegócio paranaense. Para os produtores que ainda estão no campo colhendo e escoando a safra, a conta pode chegar antes do fechamento da lavoura.



