O Grupo 3corações, líder no segmento de cafés no Brasil, fechou a compra das operações da norte-americana General Mills no país por R$ 800 milhões. O negócio, anunciado nesta terça-feira (17), inclui as marcas Yoki e Kitano, dois dos nomes mais reconhecidos nas prateleiras do varejo nacional, e representa o maior movimento de expansão da companhia fora do seu core business histórico.
As operações adquiridas responderam por US$ 350 milhões em vendas líquidas da General Mills no ano fiscal de 2025, o que dá a dimensão do ativo que entra no portfólio da empresa brasileira. A Yoki carrega um catálogo consolidado de produtos como farofa, pipoca de micro-ondas, batata palha e farináceos, enquanto a Kitano é referência nacional em temperos naturais. Juntas, as marcas ocupam um espaço relevante na mesa do consumidor brasileiro em momentos de consumo que a 3corações, até então, não alcançava.
Para o grupo fundado em 1959, a transação não é apenas uma aquisição de portfólio. É uma declaração de intenção: a companhia quer estar presente em todas as refeições do dia, e não só na xícara da manhã. “A integração dos novos produtos permite que a companhia atenda a todas as ocasiões de consumo do brasileiro, do café da manhã ao jantar”, informou o grupo em comunicado oficial.
General Mills recua no Brasil após 13 anos com a Yoki
A venda encerra um ciclo para a General Mills no Brasil. A multinacional norte-americana havia comprado a Yoki em 2012 por cerca de R$ 2 bilhões, da família Matsunaga, em um negócio que ganhou visibilidade também pela repercussão do caso envolvendo Marcos Kitano Matsunaga, neto do fundador da empresa.
Treze anos depois, o desinvestimento reflete a reorientação estratégica da companhia em escala global. Desde 2018, a General Mills vem reestruturando seu portfólio, priorizando categorias como sorvetes premium, culinária mexicana, snacks e alimentos para pets, segmentos que apresentam margens mais elevadas e maior aderência às tendências de consumo nos Estados Unidos e Europa. “A operação reforça a prioridade da companhia de remodelar seu portfólio para gerar crescimento lucrativo de longo prazo”, declarou a empresa. Após a conclusão da venda, cerca de um terço do portfólio global da multinacional terá sido renovado desde o início desse processo de reestruturação.
O deságio em relação ao valor pago em 2012 é expressivo. Os R$ 800 milhões da transação atual representam menos da metade dos R$ 2 bilhões investidos na aquisição original da Yoki, o que evidencia tanto as dificuldades enfrentadas pela multinacional no mercado brasileiro ao longo da última década quanto a janela de oportunidade que se abriu para a 3corações.
Uma aposta calculada em marcas com raízes profundas no varejo
Do lado comprador, o movimento é lido como estratégico e bem estruturado. A 3corações já detém mais de 30 marcas e está presente em mais de 600 mil pontos de venda no Brasil, com produtos que vão de cafés torrados e moídos a cápsulas, solúveis, cappuccinos e bebidas prontas. A capilaridade logística e comercial da empresa é, nesse contexto, um dos ativos mais relevantes para absorver marcas com o alcance nacional de Yoki e Kitano.
A escolha por marcas populares e com décadas de presença nas gôndolas do varejo brasileiro não é casual. Yoki e Kitano não precisam de apresentação ao consumidor, o que reduz significativamente o custo de construção de awareness e permite que a 3corações foque os esforços em distribuição, inovação de produto e eficiência operacional. Segundo o comunicado do grupo, as marcas serão mantidas após a conclusão da operação, preservando o vínculo já estabelecido com o consumidor.
Estrutura financeira e próximos passos regulatórios
A operação contou com assessoria financeira do Goldman Sachs para a General Mills e do Deutsche Bank para o Grupo 3corações. No campo jurídico, o KLA Advogados representou a empresa norte-americana, enquanto o Miguel Neto Advogados atuou ao lado da brasileira.
A transação ainda depende de aprovação dos órgãos reguladores competentes e tem conclusão prevista para até o final de 2026. A análise pelo Cade, o órgão antitruste brasileiro, será um passo natural dado o porte das empresas envolvidas e a concentração de mercado que a operação pode gerar em algumas categorias de alimentos processados.
O desfecho do processo regulatório vai determinar os detalhes da integração operacional entre as marcas adquiridas e a estrutura já existente da 3corações, mas o sinal enviado ao mercado é claro: o grupo brasileiro está em expansão ativa e enxerga no setor de alimentos processados uma fronteira de crescimento que o segmento de cafés, por mais robusto que seja, não consegue suprir sozinho.



