O Estado de São Paulo estruturou um mecanismo financeiro direto para valorizar quem mantém araucárias em pé. O edital “Pagamento por Serviços Ambientais Araucária” (PSA Araucária), lançado pela Fundação Florestal durante a 16ª Exposição do Pinheiro Brasileiro em Cunha, no Vale do Paraíba, destina até R$ 36 mil por produtor rural e R$ 250 mil para organizações que atuam na conservação dessa espécie nativa da Mata Atlântica.
A araucária, árvore símbolo que produz o pinhão e estrutura ecossistemas inteiros, enfrenta um cenário crítico. Projeções científicas indicam que a espécie pode perder seu habitat até 2070 em razão da extração ilegal de madeira e dos impactos das mudanças climáticas sobre as condições de temperatura e umidade necessárias para sua sobrevivência.
Dessa forma, o programa não funciona apenas como um incentivo ambiental, mas como uma estratégia econômica que reconhece o papel do produtor rural na manutenção de serviços ecossistêmicos essenciais. A medida integra uma política mais ampla da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil) para reverter a pressão sobre espécies ameaçadas por meio de compensação financeira direta.
Quem pode acessar o programa
Organizações provedoras de serviços ambientais, como associações, cooperativas, ONGs e outras entidades do terceiro setor, estão aptas a participar desde que comprovem atuação há pelo menos 12 meses antes da publicação do edital e desenvolvam ações voltadas à conservação da araucária especificamente no município de Cunha.
Para os produtores rurais, o acesso ao benefício exige a apresentação de documentação que comprove vínculo formal com a área. Entre os requisitos estão manifestação de interesse preenchida, documentos pessoais (RG e CPF), conta no Banco do Brasil em nome do inscrito, declaração da Gestão do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM) Núcleo Cunha, inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e comprovação de vínculo documental com o imóvel por meio de contrato, escritura ou matrícula.
Além disso, produtores enquadrados na agricultura familiar podem apresentar o Cadastro na Agricultura Familiar (CAF), o que facilita a validação do perfil e agiliza a análise do processo. “O pagamento por serviços ambientais reconhece que a conservação tem valor econômico mensurável e que o produtor que mantém a floresta em pé presta um serviço à sociedade”, explica a engenheira florestal Renata Evangelista, consultora em restauração ecológica e gestão de unidades de conservação.
Valor econômico da conservação
A araucária desempenha funções ecológicas que vão além da produção de pinhão. A espécie regula o ciclo hidrológico, mantém a estabilidade do solo em encostas e serve de abrigo e alimento para diversas espécies da fauna nativa, incluindo aves e mamíferos que dependem de suas sementes para sobrevivência. Contudo, a exploração madeireira histórica e a conversão de áreas florestais em pastagens e lavouras reduziram drasticamente sua ocorrência.
Por outro lado, o programa estadual alinha conservação com viabilidade econômica ao oferecer uma fonte de renda que não exige a supressão da vegetação. Essa abordagem tem sido validada em diferentes biomas brasileiros como forma eficaz de conter o desmatamento e estimular a recuperação de áreas degradadas.
“Programas de PSA demonstram que é possível conciliar produção rural e conservação ambiental quando há incentivo financeiro direto e critérios técnicos bem definidos. A chave está em desenhar modelos que caibam no bolso do produtor e que sejam sustentáveis a longo prazo”, afirma o biólogo e pesquisador Marcelo Tabarelli, especialista em ecologia de fragmentos florestais.
Araucária sob pressão climática
A degradação do habitat da araucária não é resultado apenas da ação humana direta. As mudanças climáticas alteram padrões de temperatura e precipitação nas regiões de ocorrência natural da espécie, afetando sua capacidade de regeneração e competição com outras plantas. Em áreas fragmentadas, onde a conectividade entre remanescentes florestais é baixa, a variabilidade genética também diminui, o que compromete a resiliência da espécie.
Assim, iniciativas de conservação in situ, ou seja, na própria paisagem onde a araucária ocorre naturalmente, tornam-se estratégicas para garantir a manutenção de populações viáveis. O programa paulista se insere nesse contexto ao focar em áreas com presença confirmada da espécie e ao exigir documentação que ateste a regularidade ambiental do imóvel.
Próximos passos para interessados
Produtores e organizações interessadas em aderir ao PSA Araucária devem reunir a documentação exigida e acompanhar os prazos estabelecidos no edital oficial divulgado pela Fundação Florestal. A análise dos cadastros será feita com base em critérios técnicos que avaliam a área de cobertura de araucária, o estado de conservação do remanescente e a localização estratégica dentro do território de Cunha.
A expectativa é que o programa sirva de modelo para futuras edições em outros municípios paulistas onde a araucária ainda resiste, ampliando o alcance da política pública de valorização econômica da conservação. O monitoramento das áreas beneficiadas será realizado periodicamente para garantir que os recursos sejam aplicados de forma efetiva na proteção da espécie.



