Produzir cebola sem o uso de defensivos sintéticos exige mais do que boa vontade. Exige conhecimento técnico sobre cultivares, manejo do solo, controle fitossanitário e, principalmente, sobre como transformar essa produção em renda. Para preencher essa lacuna de capacitação, a Epagri disponibilizou gratuitamente um curso on-line de manejo da cebola em sistema agroecológico e orgânico, ministrado por Paulo Antônio de Souza Gonçalves, pesquisador da Estação Experimental de Ituporanga, referência nacional na cultura da cebola.
Com 52 minutos de conteúdo técnico estruturado, a capacitação percorre todas as etapas do ciclo produtivo, desde a escolha do cultivar até as possibilidades de certificação e comercialização. O material é voltado a agricultores familiares, técnicos agrícolas e extensionistas que atuam no Sul do Brasil, região onde a cebola ocupa papel central na renda de milhares de famílias rurais.
Cultivares certos para o sistema orgânico
O ponto de partida do curso é a seleção de cultivares adaptados ao cultivo sem insumos sintéticos, aspecto que define boa parte do resultado final no campo. O pesquisador apresenta materiais desenvolvidos pela própria Epagri e por outras empresas, comparando as vantagens e limitações das variedades precoces e tardias, o que permite ao produtor alinhar a escolha ao calendário agrícola da sua região e à janela de mercado que pretende acessar.
Essa decisão tem impacto direto na rentabilidade. Cultivares precoces permitem antecipar a oferta em períodos de preços mais elevados, mas exigem atenção redobrada ao manejo fitossanitário. As tardias, por outro lado, oferecem maior rusticidade e melhor adaptação a condições climáticas adversas, característica relevante para quem produz em áreas de altitude no planalto catarinense.
Canteiro orgânico: adubação, cobertura e controle de patógenos
A formação adequada do canteiro é um dos pontos mais detalhados no curso, e por boas razões. É nessa fase que se define a qualidade do estande de plantas e a sanidade inicial da lavoura. O pesquisador apresenta uma metodologia prática de preparo utilizando esterco, composto orgânico e papel como camadas estruturantes, detalhando as quantidades necessárias para a adubação de base.
Além disso, o curso recomenda a cobertura do canteiro com plástico transparente, técnica que cumpre dupla função: contribui para o controle de ervas daninhas e atua na supressão de patógenos presentes no solo por meio da solarização. Consequentemente, o produtor reduz a pressão de doenças ainda antes do transplante, sem recorrer a fungicidas ou herbicidas.
Sapeco, míldio e tripes: o manejo fitossanitário sem químicos
O controle de pragas e doenças é, historicamente, o principal obstáculo apontado por produtores que consideram migrar para o sistema orgânico. O curso da Epagri dedica parte significativa do conteúdo a esse tema, abordando as principais ameaças à cultura da cebola e as alternativas disponíveis dentro do manejo agroecológico.
O sapeco, doença fúngica que compromete as mudas ainda na fase de canteiro, é um dos primeiros temas abordados. Na sequência, o pesquisador apresenta o míldio, principal doença no pós-plantio, e discute estratégias de manejo preventivo compatíveis com a produção orgânica.
No campo das pragas, o destaque vai para o tripes, inseto conhecido regionalmente como piolho da cebola e responsável por perdas expressivas de produtividade. O curso mostra dados que indicam redução da incidência do inseto em áreas manejadas pelo Sistema de Plantio Direto de Hortaliças, o SPDH, além de apresentar o uso da homeopatia como ferramenta complementar no manejo da praga, prática que vem ganhando espaço entre produtores orgânicos do Sul do Brasil.
Plantio Direto de Hortaliças como aliado do sistema orgânico
O SPDH aparece no curso não apenas como estratégia fitossanitária, mas como modelo de manejo que favorece a estrutura do solo, reduz a erosão e diminui os custos operacionais com preparo de área. A integração do plantio direto ao sistema orgânico de cebola representa um avanço técnico relevante, especialmente para propriedades com histórico de degradação de solo ou com restrições de mão de obra para o preparo convencional dos canteiros.
A adoção do sistema exige adaptação de máquinas e equipamentos, além de planejamento da palhada, mas os resultados observados em áreas experimentais da Epagri mostram ganhos consistentes na sanidade das plantas e na estabilidade produtiva ao longo das safras.
Certificação e mercado: onde vender a cebola orgânica
Produzir dentro dos padrões orgânicos sem garantir o acesso ao mercado certificado significa abrir mão do principal diferencial de preço do produto. Por isso, o curso dedica sua parte final às possibilidades de comercialização e ao processo de certificação, apresentando as certificadoras que atuam com maior frequência em Santa Catarina.
O produtor que obtém a certificação orgânica acessa canais diferenciados, como feiras livres, programas institucionais de alimentação escolar, plataformas de venda direta e redes varejistas com seções de orgânicos em expansão. Aliás, a cebola orgânica certificada pode alcançar preços significativamente superiores ao produto convencional, tornando viável economicamente mesmo em áreas menores.
O curso está disponível gratuitamente no canal de capacitações on-line da Epagri e pode ser acessado por qualquer produtor ou técnico com conexão à internet.




