Debaixo da lama, da vegetação aquática e das planícies inundáveis do Pantanal, existe um patrimônio invisível que levou milênios para se formar. O solo úmido do bioma acumula camadas de matéria orgânica sobrepostas ao longo de séculos, resultado da decomposição lenta de raízes, folhas, animais e sedimentos carregados pelas cheias sazonais. Esse processo transforma o Pantanal em um dos maiores reservatórios terrestres de carbono orgânico do continente sul-americano. Uma queimada de alta intensidade é capaz de destruir esse estoque em questão de horas.
O mecanismo é direto: quando o fogo atinge solos úmidos ricos em matéria orgânica, o calor acelera a oxidação do carbono armazenado, convertendo décadas de acúmulo em dióxido de carbono liberado para a atmosfera em um intervalo de tempo que não permite nenhuma forma de compensação natural imediata. Nas camadas mais superficiais do solo pantaneiro, onde a concentração de carbono orgânico é mais elevada, esse processo é ainda mais intenso, porque o material está menos protegido pela umidade profunda do perfil sedimentar.
Ciclo hídrico define o poder de armazenamento
O Pantanal funciona como um sistema de pulso hídrico. Durante as cheias, que podem cobrir até 80% da planície alagável entre os meses de novembro e março, a água carrega sedimentos ricos em nutrientes e matéria orgânica, depositando-os sobre o solo à medida que recua. Esse processo, repetido por milhares de anos, criou perfis de solo com camadas orgânicas espessas, capazes de reter carbono de forma estável enquanto a umidade for mantida.
A estabilidade desse estoque depende diretamente da presença da água. Solos saturados limitam a atividade dos microrganismos decompositores aeróbicos, reduzindo a taxa de liberação natural do carbono. Dessa forma, a matéria orgânica se acumula progressivamente, e o balanço entre acúmulo e decomposição favorece o estoque ao longo do tempo. O fogo rompe esse equilíbrio de maneira abrupta, especialmente nas áreas que secam durante o período de estiagem entre junho e outubro.
Fogo natural e fogo criminoso não têm o mesmo impacto
O Pantanal conviveu com o fogo ao longo de toda a sua história ecológica. Relâmpagos sobre campos secos geraram queimadas naturais que fazem parte da dinâmica do bioma, com intensidade e extensão limitadas pelas condições meteorológicas e pela umidade do solo. Esse fogo natural tende a ser superficial, de baixa intensidade e rápida passagem, afetando primariamente a vegetação rasteira sem atingir as camadas orgânicas mais profundas do solo.
O fogo criminoso, utilizado para limpeza de pastagens ou abertura de novas áreas, apresenta características completamente distintas. Incêndios provocados durante períodos de seca extrema, como os registrados em 2020, quando mais de 4 milhões de hectares do bioma foram queimados em poucos meses, atingem intensidades térmicas suficientes para incinerar a camada orgânica superficial do solo, matar a microbiota responsável pela ciclagem de nutrientes e liberar em semanas o carbono acumulado ao longo de décadas.
Os dados da Embrapa Pantanal indicam que solos afetados por queimadas de alta intensidade perdem entre 30% e 60% do carbono orgânico da camada superficial, dependendo da duração e da temperatura do fogo. Além disso, a recuperação da microbiota do solo, responsável pela retomada do processo de acúmulo de matéria orgânica, leva entre três e oito anos em áreas com condições favoráveis de umidade e revegetação natural.
Recuperação depende do retorno das cheias
A resiliência do Pantanal é real, porém não é ilimitada. Em áreas onde o fogo é recorrente em intervalos curtos, o solo perde progressivamente sua capacidade de acumular matéria orgânica, porque a vegetação não tem tempo suficiente para se restabelecer e contribuir com novo material para as camadas superficiais. Consequentemente, o estoque de carbono vai diminuindo a cada ciclo de queimada, transformando o solo de reservatório em fonte emissora de gases de efeito estufa.
O retorno das cheias é o principal mecanismo de recuperação. A água transporta novos sedimentos, reumidifica o perfil do solo e reativa a atividade biológica responsável pela formação de matéria orgânica estável. Porém, as alterações no regime hídrico do Pantanal, provocadas por desmatamento nas cabeceiras dos rios formadores da bacia, estão reduzindo o pico e a duração das cheias em algumas sub-regiões do bioma, o que compromete justamente esse processo de recuperação natural.
O carbono do Pantanal no contexto climático global
O Brasil assumiu compromissos de redução de emissões junto à Convenção do Clima que incluem a proteção de áreas úmidas como o Pantanal. O bioma cobre aproximadamente 150 mil quilômetros quadrados entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com extensões no Paraguai e na Bolívia, e seu estoque total de carbono orgânico no solo é estimado em bilhões de toneladas, segundo levantamentos do INPE e de universidades parceiras da Embrapa.
Proteger esse estoque vai além de uma questão ambiental. O carbono liberado pelas queimadas no Pantanal é contabilizado nas emissões nacionais brasileiras, afetando diretamente as metas do país no contexto do Acordo de Paris. Por isso, o combate ao fogo criminoso no bioma conecta conservação ambiental, política climática e reputação do agronegócio brasileiro nos mercados internacionais que cada vez mais exigem rastreabilidade e comprovação de práticas de baixo carbono na cadeia produtiva.




