Por anos, o glifosato foi tratado como solução definitiva. A chegada da soja transgênica no início dos anos 2000 consolidou esse herbicida como protagonista absoluto das lavouras brasileiras, e o mercado se organizou em torno dessa premissa. O que veio depois foi um efeito colateral de escala: as plantas daninhas aprenderam a sobreviver. Entre 2010 e 2020, o Brasil registrou aumento significativo nos casos de resistência, e o problema segue presente e crescente nas lavouras catarinenses.
É nesse contexto que a Epagri dá início, nesta quarta-feira, 27 de maio, ao primeiro Curso de Boas Práticas em Herbologia do estado, realizado em Campos Novos. A capacitação, estruturada em 12 módulos ao longo de vários meses, é voltada a extensionistas rurais da Epagri, profissionais dos Cedups Agrotécnicos e técnicos vinculados a cooperativas de Santa Catarina.
De onde veio a demanda
A decisão de criar o curso não partiu de um planejamento institucional abstrato, mas de uma constatação repetida no campo. Os quatro pesquisadores de herbologia da Epagri são chamados com frequência para palestras sobre plantas daninhas e resistência a herbicidas. Nessas ocasiões, surgem inconsistências nas informações circulantes, dúvidas recorrentes sobre identificação de espécies e incertezas sobre como agir diante de casos concretos de resistência.
“Com a soja transgênica, observamos uma série de resistências das plantas daninhas aos herbicidas, e isso culminou em um aumento significativo nos casos de resistência entre 2010 e 2020 no Brasil. Este cenário trouxe novos desafios, entre eles, a necessidade de capacitar os profissionais que acompanham o dia a dia das lavouras”, afirma Marcus Vinícius Fipke, pesquisador da Epagri em Chapecó e um dos instrutores do curso.
A percepção de que o setor produtivo precisava de aperfeiçoamento técnico nessa área foi o ponto de partida para a parceria entre pesquisa e extensão rural que deu origem ao programa. Para o extensionista Eduardo Briese Neujahr, que coordena o curso ao lado do pesquisador Joanei Cechin, a formação representa uma ferramenta concreta para qualificar quem está na linha de frente com os produtores rurais, permitindo elaborar programas de manejo mais eficientes e orientações técnicas mais assertivas.
Como o curso está organizado
A capacitação combina dez encontros à distância com dois módulos presenciais em Campos Novos, o último dos quais acontece em setembro. Os instrutores são os próprios pesquisadores da Epagri que atuam na área de herbologia: Ana Ligia Giraldeli (Itajaí), Taísa Dal Magro (Ituporanga), Marcus Fipke (Chapecó) e Joanei Cechin (Campos Novos), que coordena o programa.
O conteúdo abrange desde identificação de espécies e sistemas de produção até tecnologias de aplicação e mecanismos de ação herbicida. Um dos temas centrais é a dinâmica dos herbicidas no meio ambiente, com foco em estratégias que reduzam os impactos ambientais sem comprometer a eficiência produtiva.
“Focamos na identificação, nos sistemas de produção, nas tecnologias de aplicação e nas discussões mais recentes sobre mecanismos de ação herbicida. Também abordaremos a dinâmica dos herbicidas no meio ambiente e avaliaremos estratégias que permitam reduzir seus impactos ambientais”, explica Joanei Cechin.
No encontro de encerramento, a programação aprofunda a sintomatologia dos herbicidas, conjunto de sinais e sintomas visíveis na planta após a aplicação. O módulo contará com a participação do professor Michael Mazurana, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que abordará tecnologias de aplicação e sua relevância para os sistemas de produção.
Abrangência e cooperativas participantes
Das 50 vagas ofertadas, 30 foram destinadas a extensionistas rurais distribuídos por todas as regiões do estado, dez aos cinco Cedups Agrotécnicos geridos pela Epagri e dez a profissionais de cooperativas. Confirmaram participação Copercampos, Coocam, Coperacel, Cooperalfa, Copermap, Coperboa e Coolacer, o que indica o interesse direto do setor cooperativista em qualificar suas equipes técnicas.
A atuação dos pesquisadores em regiões estratégicas com diferentes climas e sistemas produtivos fortalece ainda mais o alcance do programa. Paralelamente ao curso, a Epagri lançou neste ano um projeto integrado para criar um sistema de monitoramento de plantas daninhas em Santa Catarina, com o objetivo de mapear a incidência e os casos de resistência identificados em todo o estado. O curso e o monitoramento são faces do mesmo esforço: transformar informação técnica em decisão mais precisa dentro das lavouras.




