Penas, vísceras e gorduras que saem do abate de frango não vão para o lixo no Brasil. Viram proteína hidrolisada, farinha, óleo, fertilizante e insumo energético. Esse ciclo, que parece simples quando descrito assim, é na prática um dos pilares menos visíveis e mais estratégicos da competitividade da avicultura brasileira, e ele acaba de ganhar reforço no mais alto nível do governo federal.
Na última terça-feira, o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, recebeu representantes da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra) em Brasília para discutir avanços regulatórios, habilitação de empresas e expansão comercial. A pauta colocou o segmento no centro das discussões sobre o futuro da cadeia avícola nacional, e os números que embasam essa conversa são expressivos.
Uma cadeia que não desperdiça nada
O Brasil recicla atualmente 100% dos resíduos oriundos de estabelecimentos de abate e do varejo de proteína animal, uma marca que coloca o país na segunda posição mundial em coleta de resíduos animais, atrás apenas dos Estados Unidos. Só em 2025, o setor já embarcou mais de 926,5 mil toneladas para o exterior, dentro de uma produção total superior a 6,17 milhões de toneladas. A reciclagem animal responde por 15% das exportações do setor, um peso que vai muito além da dimensão ambiental.
Na avicultura especificamente, esse modelo fecha um ciclo produtivo que reduz custos, aumenta a eficiência e responde às exigências ambientais cada vez mais exigidas pelos compradores internacionais. O que sai do abate como subproduto volta para a cadeia como insumo, sob a forma de farinhas proteicas para alimentação animal, óleos para a indústria e fertilizantes para o campo. Trata-se, na prática, de economia circular aplicada com escala industrial.
Regulação e mercados: o que está em jogo
A reunião no Mapa não foi apenas simbólica. Representantes da Abra levaram demandas concretas ao governo, com foco em regulação e abertura de novos mercados, especialmente na Ásia, destino estratégico para produtos derivados da avicultura brasileira. O secretário de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart, foi direto ao avaliar o momento: os avanços sanitários e a habilitação das empresas são determinantes para consolidar novas aberturas comerciais e garantir que o Brasil sustente sua posição como fornecedor confiável.
Já o secretário de Comércio e Relações Internacionais, Luis Rua, destacou o papel do segmento nas negociações externas e a capacidade da entidade de defender pautas técnicas com organização e coerência, atributos que fazem diferença quando o interlocutor do outro lado da mesa é um comprador asiático com critérios sanitários rígidos.
O setor por dentro
A Abra foi fundada em 2006 e reúne hoje 264 indústrias e 71 grupos associados, representando cerca de 92% das graxarias do país. O setor gera mais de 57 mil empregos diretos e indiretos, uma dimensão social que frequentemente escapa do radar quando se fala em sustentabilidade da cadeia avícola.
“A reciclagem animal transforma resíduos em produtos de valor agregado e reforça a economia circular no campo”, afirmou Décio Coutinho, presidente-executivo da Abra, sintetizando em uma frase o que o setor representa: não apenas destinação correta de resíduos, mas geração de valor em toda a extensão da cadeia.
Esse posicionamento ganhou peso institucional na reunião com o ministro André de Paula, que reforçou a importância de manter o diálogo com o setor e fortalecer parcerias que ampliem a competitividade da agroindústria brasileira nos mercados globais. “É fundamental manter o diálogo com o setor e fortalecer as parcerias que ampliam a competitividade da agroindústria brasileira”, pontuou o ministro durante o encontro.
Por que isso importa para a avicultura
A avicultura brasileira é uma das cadeias mais organizadas do país e historicamente uma das mais integradas ao sistema de reaproveitamento de subprodutos. Essa integração não é acidental: ela resulta de décadas de desenvolvimento técnico, investimento em infraestrutura e articulação entre produtores, frigoríficos e indústrias de reciclagem.
O resultado é uma cadeia que compete internacionalmente não só pelo preço do frango in natura, mas pelo conjunto de eficiência produtiva, rastreabilidade e compromisso ambiental que a reciclagem animal ajuda a sustentar. Em mercados como os da Ásia, onde os critérios de compra vão muito além do custo, esse diferencial tem peso crescente nas negociações.
A movimentação recente no Mapa indica que o governo reconhece essa dimensão estratégica. O próximo passo, como deixaram claro os secretários presentes na reunião, é transformar os avanços sanitários já conquistados em novas habilitações comerciais, especialmente nos destinos asiáticos onde a demanda por proteína animal segue em expansão.




