Santa Catarina tem quase 7% do seu território em situação irregular do ponto de vista ambiental. São 600 mil hectares de Áreas de Preservação Permanente (APP) ocupados por atividades agropecuárias, num passivo que o Código Florestal Brasileiro (Lei nº 12.651/2012) exige que seja revertido. Recuperar essa extensão de terra equivale a reflorestar uma área maior que todos os municípios da Grande Florianópolis somados — e o desafio começa antes mesmo de plantar a primeira árvore: é preciso saber de onde virão as sementes.
É justamente essa lacuna que uma pesquisa da Epagri/Ciram se propõe a preencher. O estudo vai mapear os remanescentes de vegetação nativa em Santa Catarina para identificar quais fragmentos estão suficientemente saudáveis para funcionar como fornecedores de sementes e insumos para o processo de restauração florestal. O projeto é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação (Fapesc) e tem prazo de conclusão previsto para novembro de 2027.
O mapa que orientará a restauração
“O produto final será um mapa dos remanescentes que estão mais saudáveis e com uma maior probabilidade de serem fornecedores de sementes e de insumos para esse processo de recuperação ambiental”, explica Luiz Fernando de Novaes Vianna, biólogo e pesquisador do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia (Epagri/Ciram), que lidera o estudo.
Mais do que um produto cartográfico, o mapeamento funcionará como instrumento de política pública. As informações geradas poderão embasar iniciativas voltadas ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), previsto no próprio Código Florestal, além de orientar o fomento a uma nova cadeia produtiva de sementes e mudas de espécies nativas — um setor que hoje simplesmente não existe em escala suficiente para atender à demanda que a restauração vai gerar.
Um dos programas que deverá se beneficiar diretamente desse trabalho é o SC Rural 2, lançado pelo Governo do Estado em maio com financiamento do Banco Mundial. A iniciativa prevê apoio a agricultores familiares para regularização de APPs e implementação de sistemas agroflorestais, além de planos de desenvolvimento para terras indígenas e comunidades quilombolas.
Um nicho de mercado dentro da própria terra
A pesquisa traz embutida uma virada de perspectiva sobre o papel do agricultor na recuperação ambiental. Vianna descreve um cenário em que o produtor rural, em vez de ser apenas o agente do passivo ambiental, torna-se parte ativa da solução, com renda gerada a partir disso.
“Podemos ter um novo nicho de mercado para o próprio agricultor quando os programas de recuperação ambiental realmente entrarem em fase de implantação. Em vez de produzir soja, ele poderá produzir árvores para vender àquele vizinho que tem um passivo ambiental na sua propriedade. Mas para construir essa cadeia produtiva, precisamos saber qual é o estado de saúde dos remanescentes naturais em Santa Catarina e se eles têm capacidade para isso”, afirma o pesquisador.
A lógica é simples na teoria e complexa na prática: para que essa cadeia funcione, é necessário que os remanescentes existentes sejam produtivos o suficiente para gerar sementes em quantidade e diversidade genética adequadas. Fragmentos degradados não têm essa capacidade — daí a importância de mapear antes de planejar.
O que os dados já revelam sobre Santa Catarina
O número de 600 mil hectares não surgiu do nada. Em 2024, Vianna e o colega pesquisador Fábio Zambonim desenvolveram o Sistema de Mapeamento da Fragilidade Ambiental de Santa Catarina (SMFA-SC), ferramenta que calcula o Índice de Fragilidade Emergente e permite que agentes públicos estabeleçam prioridades na regularização das áreas. Foi esse trabalho que quantificou a extensão do passivo.
O retrato que os dados apresentam é geograficamente desigual. As florestas litorâneas concentram os melhores índices de preservação e conectividade, tanto ao norte, na Serra do Mar, na divisa com o Paraná, quanto ao sul, na Serra Geral, na divisa com o Rio Grande do Sul. No sentido oposto, as regiões que se estendem do Planalto ao Oeste catarinense apresentam os piores indicadores. As florestas de faxinais estão muito fragmentadas, e os Campos Gerais continuam pressionados pelo avanço das plantações de pinus e eucalipto.
A fragmentação, aliás, é um problema que Vianna considera tão grave quanto o desmatamento em si, embora receba menos atenção. “A minha forma de comunicação com Lages é a estrada, mas a do cachorro-do-mato são os remanescentes e hoje temos muita fragmentação da floresta, problema que às vezes é maior do que olharmos a quantidade de área desmatada”, compara o pesquisador.
Por isso, além do mapa de potencial dos remanescentes como fornecedores de sementes, o estudo também vai propor estratégias de preservação e conectividade da vegetação nativa, com o objetivo de reduzir os níveis de fragmentação e ampliar a funcionalidade ecológica do que ainda resta.
Tecnologia a serviço da floresta
Para chegar a um mapeamento preciso, a pesquisa combina múltiplas fontes de dados. O SMFA-SC serve de base, complementado pelo Inventário Florístico-Florestal de Santa Catarina, elaborado pela Universidade Regional de Blumenau (Furb), e por bancos de dados com imagens de satélite e mapas de uso e cobertura do solo, incluindo a plataforma MapBiomas. Nos Campos Gerais, onde a complexidade da vegetação demanda maior detalhamento, o projeto prevê trabalhos de campo com levantamentos por GPS e registros fotográficos associados aos dados de sensoriamento remoto.
Essa combinação entre tecnologia de satélite e trabalho em campo é o que permite transformar imagem em informação qualificada — distinguir um remanescente produtivo de um fragmento comprometido não é tarefa que se resolve apenas com pixels.
Preservação como escolha social, não apenas ambiental
Por trás da pesquisa há uma convicção que Vianna defende com clareza: a recuperação das APPs não é só uma obrigação legal, mas uma decisão com consequências diretas para a qualidade de vida de quem vive e produz no campo.
“É preciso compreender que a preservação tem um viés muito mais social do que econômico. A partir dela, o agricultor contribui para a qualidade ambiental, da água, do ar, da biodiversidade, beneficiando a si, aos vizinhos e ao mundo inteiro”, afirma o pesquisador.
O Código Florestal vigente, aprovado em 2012, abriu uma brecha que o anterior não permitia: o agricultor pode obter renda nas APPs por meio de sistemas agroflorestais, conciliando produção e restauração. Santa Catarina, com sua rede consolidada de agricultores familiares, reúne as condições para transformar esse marco legal em realidade produtiva. O mapa que a Epagri está construindo é o primeiro passo concreto nessa direção.




