Os modelos climáticos que cientistas construíam para descrever o futuro da Amazônia começaram a se encaixar no presente. Dois estudos liderados por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que a floresta já registra o prolongamento da estação seca, a intensificação dos déficits hídricos e o avanço do ciclo de degradação por fogo — quadro que, até pouco tempo atrás, era projetado para décadas à frente.
A constatação parte da engenheira ambiental e sanitarista Débora Dutra, doutoranda em sensoriamento remoto no Inpe e primeira autora dos dois trabalhos. “Há alguns anos, quando começamos a discutir cenários climáticos para a Amazônia, muitas vezes esse futuro era visto como algo distante nas conjunturas mais pessimistas. Porém, estamos observando que os extremos de anomalia mais pessimistas estão acontecendo no presente. Quando comparamos os dados de hoje com as projeções, vemos o quão crítica vai ficando essa situação à medida que incluímos cenários pessimistas na análise climática”, resume a pesquisadora.
Seis meses de seca e déficit hídrico acima de 150 milímetros
O primeiro estudo, publicado no International Journal of Climatology, utilizou o máximo déficit hídrico acumulado — indicador desenvolvido pelo pesquisador Luiz Aragão desde 2007 e considerado referência para medir o estresse hídrico em ecossistemas tropicais — cruzado com os dados da fase seis do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados. O recorte geográfico foi o sudoeste da Amazônia, abrangendo o Acre e partes do Amazonas e de Rondônia, região onde mais de 90% do território ainda mantém cobertura florestal, mas que enfrenta pressão crescente de desmatamento.
Os resultados são diretos: em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, a estação seca pode se prolongar de quatro para até seis meses, com déficits hídricos que ultrapassam -150 milímetros no período e que podem chegar a -21 mm/mês até o fim do século no cenário mais pessimista. Esses déficits tendem a se concentrar entre junho e setembro, justamente quando a floresta já está sob maior pressão. O efeito sobre a vegetação é direto: maior mortalidade de árvores, avanço da degradação florestal e redução da capacidade da Amazônia de funcionar como sumidouro de carbono — o que, por sua vez, retroalimenta o próprio aquecimento que provoca a seca.
Os pesquisadores também apontam o risco adicional representado por eventos como o El Niño. Em sua versão mais intensa, o fenômeno pode elevar a temperatura em mais de 2 °C acima da média, intensificando as alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global — e amplificando o que a Amazônia já vem experimentando.
4,2 milhões de hectares e a floresta que não consegue se recuperar
O segundo trabalho, publicado em março na Perspectives in Ecology and Conservation, analisou a seca extrema registrada entre 2023 e 2024, período em que o El Niño castigou o Brasil com particular intensidade. Os dados mapeiam um crescimento médio de 9% nas áreas queimadas e de 19% nos alertas de degradação florestal, com até 4,2 milhões de hectares afetados pelo fogo no pico da estiagem.
O achado mais preocupante não está nos números absolutos, mas no padrão que eles revelam: o fogo passou a atingir cada vez mais a floresta em pé, e não apenas áreas já desmatadas. Enquanto o desmatamento remove completamente a cobertura vegetal, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo — reduzindo sua capacidade de se restabelecer e tornando-a ainda mais vulnerável à próxima seca. O ciclo seca-fogo-degradação, portanto, não apenas se repete. Ele se fortalece a cada rodada.
Diante disso, os pesquisadores defendem uma governança integrada do fogo, que reúna indicadores climáticos aos sistemas de alerta precoce, fortaleça a coordenação entre instituições e incorpore a degradação florestal — e não apenas o desmatamento — nas estratégias de mitigação e adaptação.
Ciência que chega à ponta
A bióloga Liana Anderson, orientadora de Dutra e pesquisadora no Inpe, coordena o laboratório TREES (Tropical Ecosystems and Environmental Sciences) ao lado de Aragão. Para ela, as evidências acumuladas nas últimas décadas colocam o Brasil diante de uma escolha concreta. “Estamos em um momento crucial, com metas nacionais e internacionais a cumprir até 2030. Se colocarmos os esforços nessa direção, temos condição de atingi-las. É preciso pensar na conexão entre meio ambiente, desenvolvimento e economia como uma tríade indissociável, seja pelo lado da exploração ou pelo preço a ser pago pela reconstrução após os impactos”, afirma a pesquisadora. Ela também ressalta que a crise climática abre espaço para repensar caminhos e acelerar iniciativas sustentáveis, desde que haja disposição de escutar o que a ciência vem produzindo há décadas.
Essa disposição de aproximar laboratório e campo orienta parte do trabalho desenvolvido pelo grupo. Desde o ano passado, Anderson e Dutra integram a iniciativa “Fogo em Foco”, parceria entre forças operacionais de combate e prevenção — incluindo o Corpo de Bombeiros Militar de diferentes estados — e instituições de pesquisa. Em outubro, o laboratório TREES, a Rede Brasa e a Liga dos Corpos de Bombeiros Militares lançaram o relatório “Fogo em Foco 2024-2025” e o artigo internacional State of Wildfires 2024-2025. Em abril deste ano, a continuidade do trabalho conjunto para 2026 foi autorizada.
“Essa aproximação é uma forma de aliar o que a ciência consegue entregar com a realidade de quem atua na ponta, tanto em estratégias de prevenção quanto de combate. Tentamos costurar ciência e ações na sociedade. Mas ainda há um ponto em que precisamos avançar, que é a magnitude do impacto econômico e o quanto isso significa para o desenvolvimento do país”, diz Anderson.
Consequentemente, Dutra vai aprofundar exatamente esse ponto em sua tese de doutorado: quantificar as perdas econômicas derivadas do fogo, integrando questões florestais, de saúde pública e de impacto social. A floresta que seca mais do que o previsto já cobra seu preço. O trabalho agora é mostrar, em números, o tamanho da conta.



