A palmeira juçara cresce há séculos ao longo da faixa litorânea do Paraná, integrada à paisagem da Mata Atlântica e ao cotidiano das comunidades caiçaras. O que mudou recentemente é a forma como os moradores passaram a enxergar esse recurso: não apenas como parte do ambiente, mas como uma oportunidade concreta de renda. O fruto da Euterpe edulis, parente próximo do açaí amazônico, está no centro de um programa de capacitação conduzido pela Portos do Paraná que já alcançou 131 pessoas distribuídas entre ilhas e comunidades do litoral paranaense.
A iniciativa integra o Programa de Educação Ambiental (PEA) da empresa pública e ganhou um novo capítulo com a realização da primeira oficina de nível intermediário na Ilha do Amparo. As atividades avançaram sobre técnicas de coleta seletiva, higienização, despolpa e armazenamento do fruto, com o objetivo de qualificar a produção local e abrir espaço para comercialização.
Fixar quem já está, antes de buscar quem foi
A lógica do programa vai além da capacitação técnica. Para o coordenador de Comunicação, Educação e Sustentabilidade da Portos do Paraná, Pedro Pisacco, o açaí juçara representa uma âncora econômica para populações que historicamente migram para centros urbanos em busca de trabalho. “Oferecer novas oportunidades de renda é uma forma de incentivar os jovens a permanecerem na comunidade, sem a necessidade de buscar emprego em grandes centros”, afirmou Pisacco.
Além da geração de renda, o programa aposta na ampliação do consumo interno. Representantes de escolas locais já demonstraram interesse em incluir o juçara na merenda escolar, o que abriria um canal de escoamento garantido para os produtores da própria ilha. “O alimento é extremamente nutritivo, rico em vitaminas e antioxidantes, proporcionando diversos benefícios à saúde”, completou o coordenador.
Do básico ao intermediário: o aprendizado que virou prática
As oficinas foram conduzidas pelo Instituto Juçara de Agroecologia, que estruturou as atividades em etapas progressivas. Na edição intermediária, os participantes assumiram o processo por conta própria, revisando e executando cada etapa sem depender da demonstração dos instrutores. A sequência inclui seleção dos frutos maduros no campo, higienização com solução adequada, enxágue, processamento em despolpadeira e, por fim, envase com seladora para congelamento.
“Eles conduziram todo o processo, realizando a limpeza e a despolpa dos frutos. Em seguida, mostramos como utilizar a seladora para embalar e congelar o produto. As técnicas permitem consumir o açaí durante todo o ano”, explicou Rafael Serafim da Luz, vice-presidente do Instituto Juçara de Agroecologia. A possibilidade de conservar o produto congelado é um fator estratégico, já que a frutificação da palmeira no litoral paranaense ocorre entre março e maio, período restrito que exige boa gestão do estoque para garantir abastecimento ao longo de todo o ano.
45 anos de ilha, cinco litros de açaí e uma associação de mulheres
A pescadora Edneia Pereira mora há 45 anos na Ilha do Amparo e participou das três edições das oficinas realizadas na Cozinha Comunitária local, espaço que homenageia sua avó, dona Francisca Basília. Após os cursos, ela e o esposo já colheram frutos na mata e produziram cinco litros de polpa. A experiência foi suficiente para ampliar os planos. Com uma associação de mulheres já organizada na ilha, o grupo estuda levar pães e geleias de açaí para venda nos próximos eventos da comunidade. A doação de uma despolpadeira pela Portos do Paraná foi decisiva para viabilizar esse passo. “A despolpadeira ajuda muito nesse processo”, afirmou Edneia.
O relato do presidente da Associação da Ilha do Amparo, Osmail Pereira do Rosário, reforça que o interesse se espalhou para além dos adultos. Segundo ele, as crianças já conhecem as etapas de preparo, sabem fazer bolo e suco com o fruto e acompanham o processo com naturalidade. “As crianças já perguntam sobre o açaí, sabem como preparar bolo e suco, e já temos pessoas produzindo para consumo próprio”, relatou.
Juçara: o açaí da Mata Atlântica que desaparece onde não é manejado
A palmeira juçara carrega uma contradição que o programa busca resolver. Rica em nutrientes e com alta demanda de mercado, a Euterpe edulis é também uma espécie ameaçada de extinção, pressionada principalmente pela extração predatória do palmito. O manejo orientado para a coleta do fruto, ao contrário, preserva a planta e ainda permite a dispersão natural das sementes pela fauna local, contribuindo para a regeneração da Mata Atlântica.
O fruto é rico em antocianinas, os antioxidantes responsáveis pela coloração roxa intensa, e apresenta composição nutricional comparável à do açaí amazônico, com destaque para os teores de ferro e cálcio. Aliás, do ponto de vista sensorial, a semelhança entre os dois é tão grande que o produto já desperta interesse de mercados consumidores nas capitais e em plataformas de economia solidária.
Desde 2019, capacitação gratuita como política de território
Ao longo dos últimos seis anos, a Portos do Paraná promoveu dezenas de oficinas e cursos profissionalizantes gratuitos voltados às comunidades litorâneas do estado. O programa de açaí juçara se destaca dentro desse conjunto por articular, ao mesmo tempo, geração de renda, conservação ambiental e fortalecimento da identidade cultural caiçara.
Com quatro edições anteriores já realizadas e o nível intermediário agora concluído na Ilha do Amparo, o calendário projeta novos módulos em Eufrasina e outras localidades do litoral. A próxima etapa natural é estruturar canais de comercialização para a produção que já começa a tomar forma nas cozinhas e associações comunitárias da região.


