Uma árvore nativa da Mata Atlântica brasileira entrou no radar da ciência internacional como fonte de um potencial antiviral contra a COVID-19. A copaíba-vermelha (Copaifera lucens Dwyer), endêmica do Brasil, produziu compostos com capacidade de bloquear o SARS-CoV-2 em várias etapas do seu ciclo de infecção, de acordo com estudo publicado na Scientific Reports, periódico do grupo Nature. O trabalho reuniu pesquisadores da Universidade de São Paulo, de instituições egípcias e da República Tcheca, e contou com apoio da FAPESP.
Os compostos identificados são os ácidos galoilquínicos (GQAs), substâncias presentes nas folhas da espécie. Investigações anteriores já haviam apontado propriedades antifúngicas, anticancerígenas e antivirais de amplo espectro nessa classe de moléculas, incluindo inibição do HIV-1 em ensaios bioquímicos. O novo estudo avança esse conhecimento ao testar a eficácia direta contra o coronavírus, com dados quantitativos que chamam a atenção pela consistência dos resultados.
Três alvos, uma molécula
Os ensaios laboratoriais revelaram que os ácidos galoilquínicos interferiram com ao menos três estruturas essenciais para a sobrevivência do vírus: o domínio de ligação ao receptor da proteína Spike, responsável pela entrada do SARS-CoV-2 nas células humanas; a protease tipo papaína (PLpro), enzima que o vírus utiliza para escapar do sistema imune do hospedeiro; e a RNA polimerase (RdRp), peça central da replicação viral.
Na prática, os compostos inibiram a adsorção do vírus nas células em 80% na concentração de 250 µg/mL e chegaram a 85,6% de inibição da replicação. O índice de seletividade — indicador que mede a diferença entre a dose tóxica para as células e a dose eficaz contra o vírus — atingiu 102, número considerado elevado e que indica segurança favorável para o tecido do hospedeiro.
“Um aspecto importante é o mecanismo multialvo do composto, o que reduz a probabilidade de desenvolvimento de resistência. Isso porque muitos antivirais atuais agem apenas sobre uma proteína viral, o que favorece esse efeito”, explica o farmacêutico Jairo Kenupp Bastos, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP) e um dos coordenadores da pesquisa.
Esse ponto é estratégico no contexto atual. Antivirais como o remdesivir e o molnupiravir, aprovados para uso clínico, atuam sobre alvos únicos, o que já gerou registros de resistência em pacientes imunocomprometidos. A ação simultânea sobre proteínas distintas do SARS-CoV-2 representa, portanto, uma vantagem estrutural do candidato natural estudado.
Do campo à bancada: como a pesquisa foi construída
A escolha da Copaifera lucens não foi aleatória. O grupo da USP acumula anos de trabalho em fitoquímica e farmacologia de espécies do gênero Copaifera, o que conferiu base sólida para a seleção da espécie e para o protocolo analítico utilizado. As folhas foram processadas para obter frações ricas em GQAs, que passaram por caracterização química detalhada antes de qualquer teste biológico.
Os ensaios de citotoxicidade estabeleceram o limite seguro de uso nos tecidos — com concentração citotóxica de 387,7 µg/mL — e os testes antivirais determinaram a dose eficaz de 3,81 µg/mL, gerando a margem de segurança ampla refletida no índice de seletividade. A confirmação da ação molecular foi feita por docking computacional, que mostrou interações fortes entre o GQA tri-substituído e tanto a proteína Spike quanto a RNA polimerase, por pontes de hidrogênio, ligações de sal e interações eletrostáticas.
Além da ação direta contra o vírus, os resultados também indicaram propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras, o que adiciona uma camada relevante ao potencial terapêutico da molécula. Em casos graves de COVID-19, a chamada tempestade de citocinas — resposta imune desregulada do próprio organismo — é uma das principais causas de deterioração clínica. Compostos capazes de modular essa resposta têm valor específico nesse contexto.
“A abordagem integrada nos permitiu compreender não apenas como os compostos funcionam, mas também como atuam em nível molecular”, destaca Mohamed Abd El-Salam, professor da Delta University for Science and Technology (Egito) e da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona), cujo doutorado foi realizado na USP.
A biodiversidade brasileira como ativo científico
A Copaifera lucens cresce predominantemente em áreas de Mata Atlântica, bioma que concentra uma das maiores diversidades biológicas do planeta e que segue sendo subutilizado como fonte de candidatos terapêuticos. O gênero Copaifera já é historicamente reconhecido na medicina popular das regiões neotropicais, onde o óleo-resina extraído do tronco é utilizado há séculos para tratar inflamações, infecções e feridas. A ciência agora organiza, em bases moleculares, o que a tradição já indicava empiricamente.
Os autores do estudo ressaltam que ainda há etapas necessárias antes que a substância se converta em medicamento. Ensaios in vivo e ensaios clínicos são os próximos passos obrigatórios no processo de desenvolvimento farmacológico. Contudo, os dados publicados posicionam os ácidos galoilquínicos da copaíba-vermelha como candidatos antivirais promissores, com perfil de segurança favorável e mecanismo de ação documentado em múltiplas frentes — o tipo de resultado que atrai a atenção de laboratórios farmacêuticos e agências de fomento à pesquisa.
Para o Brasil, a descoberta reforça um argumento estratégico recorrente: a biodiversidade nacional é um patrimônio científico e econômico que ainda está sendo, na sua maior parte, mapeado. Cada nova molécula identificada na flora nativa amplia o repertório de candidatos para o desenvolvimento de fármacos, vacinas e insumos biotecnológicos — e coloca o país em posição relevante na fronteira da pesquisa farmacêutica global.




