Agro
Estudo brasileiro descobre gene ancestral que reforça a defesa do amendoim no campo
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21 minutos atrásem
Por
Claudio P. Filla
A busca por culturas agrícolas mais resilientes nunca foi tão urgente. Em um cenário marcado por mudanças climáticas, aumento de pragas e pressão por sistemas produtivos mais sustentáveis, a ciência brasileira volta o olhar para um patrimônio muitas vezes subestimado: a biodiversidade silvestre.
Um estudo conduzido no país revela que genes presentes em parentes selvagens do amendoim podem ativar mecanismos naturais de defesa da planta, ampliando sua tolerância à seca, a pragas e a doenças, sem impor custos ao rendimento agrícola. A descoberta inaugura uma nova abordagem no melhoramento genético, conectando conservação, biotecnologia e segurança alimentar.
Um gene ancestral que prepara a planta para o estresse
Entre os genes analisados na pesquisa, um deles se destacou pelo comportamento singular. Identificado como AdEXLB8, ele foi isolado de uma espécie silvestre do gênero Arachis, considerada ancestral direta do amendoim cultivado. Essa planta nativa da América do Sul se desenvolveu ao longo de milhares de anos em ambientes adversos, acumulando estratégias naturais de sobrevivência.
Diferentemente de genes que conferem resistência direta a um patógeno específico, o AdEXLB8 atua como um regulador. Ele mantém a planta em estado de prontidão fisiológica, permitindo que suas respostas a estresses ambientais ocorram de forma mais rápida e eficiente. Esse processo, conhecido como “priming de defesa”, reduz o gasto energético normalmente associado à ativação tardia dos mecanismos de proteção, o que explica a ausência de impactos negativos na produtividade.
Testes em diferentes culturas confirmam a eficiência
Para avaliar o potencial do gene, experimentos foram realizados com diferentes espécies agrícolas. Plantas de amendoim, soja e tabaco que receberam o AdEXLB8 apresentaram desempenho superior sob condições de seca e exposição a organismos prejudiciais. Em análises de raízes, por exemplo, observou-se uma redução significativa na infestação por nematoides, um dos principais desafios fitossanitários de diversas culturas.
Entretanto, o resultado mais relevante foi o equilíbrio alcançado entre defesa e crescimento. Mesmo sob estresse, as plantas mantiveram produtividade e qualidade semelhantes às variedades convencionais, demonstrando que o gene atua de forma preventiva, e não reativa, preservando o metabolismo vegetal.
A biodiversidade como origem da inovação genética
A descoberta tem origem em um extenso trabalho de observação e conservação de espécies silvestres do gênero Arachis. Essas plantas enfrentam, há milênios, ciclos de seca, solos pobres e pressão constante de pragas, o que favoreceu a seleção natural de genes ligados à resiliência ambiental. Grande parte desse material genético está preservada em bancos de germoplasma mantidos no Brasil, considerados os mais completos do mundo para esse grupo vegetal.
Esses bancos não apenas armazenam sementes, mas também representam um arquivo vivo de soluções biológicas prontas para serem compreendidas e aplicadas pela ciência moderna. Assim, o estudo reforça o papel estratégico da conservação da biodiversidade como base para avanços tecnológicos no campo.
Biotecnologia elimina barreiras do melhoramento tradicional
Durante décadas, o uso de espécies silvestres em programas de melhoramento foi limitado. Embora resistentes, essas plantas carregavam características indesejadas, como baixo rendimento ou crescimento irregular, que inviabilizavam sua aplicação direta na agricultura comercial. Contudo, com o avanço das ferramentas genômicas, tornou-se possível isolar genes específicos e transferi-los de forma precisa para cultivos de interesse econômico.
Nesse contexto, o AdEXLB8 representa um exemplo claro de como a biotecnologia permite incorporar resistência sem comprometer atributos agronômicos essenciais. A tecnologia rompe uma barreira histórica e amplia o leque de estratégias para enfrentar os desafios impostos pelo clima e pelo uso intensivo do solo.
Um mecanismo molecular que surpreendeu os pesquisadores
O gene identificado pertence à família das expansinas, proteínas tradicionalmente associadas ao crescimento celular por sua atuação na parede das células vegetais. Inicialmente, não se esperava que esse grupo estivesse relacionado à defesa contra pragas ou doenças. No entanto, os testes revelaram um efeito sistêmico inesperado.
A presença do AdEXLB8 promove uma pré-ativação de vias metabólicas ligadas à defesa, envolvendo hormônios vegetais e sistemas antioxidantes. Dessa forma, quando o estresse ocorre, a planta não precisa iniciar o processo do zero, respondendo de maneira mais rápida e eficiente ao desafio imposto.
Impactos ambientais e redução de defensivos agrícolas
Além dos benefícios produtivos, a tecnologia abre caminho para práticas agrícolas mais sustentáveis. Ao aumentar a resistência natural das plantas, reduz-se a dependência de defensivos químicos, como fungicidas e nematicidas, frequentemente associados a impactos ambientais e custos elevados de produção.
Segundo os dados apresentados, o gene já está em fase de proteção intelectual e segue sendo avaliado em outras culturas agrícolas. A expectativa é que, no futuro, essa abordagem contribua para sistemas produtivos mais equilibrados, alinhados às demandas ambientais e econômicas.
Conservação genética e saber tradicional caminham juntos
A história do gene também evidencia a importância do conhecimento acumulado ao longo do tempo. O amendoim foi domesticado por povos indígenas sul-americanos há mais de cinco mil anos, que selecionaram e preservaram diferentes variedades adaptadas a múltiplas condições ambientais. Até hoje, comunidades tradicionais mantêm cultivares diversas, que funcionam como reservatórios genéticos de valor incalculável.
Assim, o estudo demonstra que ciência moderna, conservação da biodiversidade e saber tradicional não são caminhos isolados. Pelo contrário, formam um sistema interligado, capaz de oferecer respostas concretas para os desafios da agricultura contemporânea e do futuro.

Comunicador Social com especialização em Mídias Digitais e quase uma década de experiência na curadoria de conteúdos para setores estratégicos. No Agronamidia, Cláudio atua como Redator-chefe, liderando uma equipe multidisciplinar de especialistas em agronomia, veterinária e desenvolvimento rural para garantir o rigor técnico das informações do campo. É também o idealizador do portal Enfeite Decora, onde aplica sua expertise em paisagismo e arquitetura para conectar o universo da produção natural ao design de interiores. Sua atuação multiplataforma reflete o compromisso em traduzir temas complexos em conteúdos acessíveis, precisos e com alto valor informativo para o público brasileiro.
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