Uma árvore nativa que oferece forragem espontânea no período mais crítico para o pecuarista, fertiliza o solo sem adubação química, tolera geadas e ainda produz madeira densa de alto valor. Esse é o algarrobo, a Prosopis nigra, leguminosa arbórea dos campos sulinos que sobrevive nas coxilhas do Rio Grande do Sul há séculos, mas que segue amplamente subestimada pela pecuária regional.
A espécie ocorre naturalmente no sudoeste gaúcho, em áreas que integram o bioma Pampa, compartilhado com Argentina, Uruguai e Bolívia. Ali, a árvore cresce às margens de rios, em solos profundos e até pedregosos, formando parte da vegetação típica que vem sendo suprimida pelo avanço de monoculturas. Dados do MapBiomas apontam que o Pampa brasileiro perdeu 28% de sua vegetação nativa entre 1985 e 2023, e o algarrobo está entre as espécies pressionadas por esse processo.
Vagens adocicadas que o gado busca no inverno
A principal utilidade do algarrobo para a pecuária está em seus frutos. As vagens, que chegam a amadurecer entre o final do verão e o outono, possuem alto teor de sacarose e são naturalmente procuradas pelo gado bovino e ovino, especialmente nos meses de menor oferta de pasto. Essa característica transforma a árvore em uma reserva forrageira espontânea, sem necessidade de colheita, processamento ou distribuição pelo produtor.
“As vagens do algarrobo são comestíveis, forrageiras e muito procuradas pelo gado na época seca. A planta cumpre funções múltiplas dentro do ecossistema, contribuindo na captação e retenção de água, bem como na fixação do nitrogênio no solo”, destaca o Programa de Arborização Urbana da Unipampa, referência no estudo de espécies nativas dos campos sulinos.
Além do valor forrageiro direto, os frutos podem ser processados para produção de farinha e torta, ampliando as possibilidades de uso em propriedades que buscam reduzir custos com suplementação. A pasta adocicada no interior das vagens dispensa o uso de açúcar na fabricação de subprodutos e apresenta alto teor de carboidratos com baixo nível de gordura saturada, perfil nutricional interessante para ruminantes em período de estresse hídrico ou térmico.
Fixação de nitrogênio e recuperação de solos
Por pertencer à família das leguminosas, o algarrobo estabelece associações simbióticas com bactérias fixadoras de nitrogênio atmosférico nas raízes, transferindo esse nutriente para o solo de forma contínua e gratuita. Essa capacidade posiciona a espécie como aliada natural em pastagens degradadas, onde a fertilidade química do solo está comprometida pelo pisoteio excessivo e pela substituição histórica dos campos nativos por gramíneas exóticas.
A Prosopis nigra é pioneira e indicada para reflorestamento de áreas ciliares degradadas, o que amplia seu uso estratégico em propriedades que precisam recuperar matas de galeria e áreas de preservação permanente às margens de arroios e banhados, ecossistemas característicos do Pampa. Consequentemente, o produtor que planta algarrobo em faixas de proteção cumpre exigências legais e ainda gera benefício forrageiro e melhoria de solo ao longo do tempo.
“A pecuária extensiva em campo nativo é comprovadamente uma atividade econômica compatível com a conservação da biodiversidade”, ressalta o professor Gerhard Overbeck, da UFRGS, coordenador de estudo que identificou mais de 12.500 espécies de plantas, animais e fungos no Pampa brasileiro, publicado em 2023. Sob essa ótica, integrar espécies nativas como o algarrobo nos sistemas produtivos representa não apenas eficiência agronômica, mas também a valorização de um bioma que perdeu proporcionalmente mais vegetação nativa do que qualquer outro no Brasil nas últimas décadas.
Tolerância a geadas e versatilidade produtiva
O algarrobo negro atinge entre 4 e 10 metros de altura, floresce na primavera com flores de coloração creme esverdeada e frutifica no verão. Ao contrário de outras espécies do gênero Prosopis presentes no Nordeste, como a Prosopis juliflora que se tornou invasora na Caatinga, a Prosopis nigra do Pampa apresenta comportamento adaptado ao clima temperado do sul, com tolerância a geadas, característica determinante para sua viabilidade em propriedades do Rio Grande do Sul.
A madeira da espécie é densa, rica em tanino e historicamente usada em marcenaria, fabricação de móveis e barris desde a época colonial. Esse conjunto de atributos, forragem, fertilização do solo, madeira nobre e resistência climática, desenha uma espécie de dupla, tripla ou até quádrupla função dentro de sistemas silvipastoris, modelo de produção que a Embrapa vem incentivando como alternativa para a intensificação sustentável da pecuária nos campos sulinos.
Um recurso nativo à beira do esquecimento
O algarrobo é citado como espécie típica do Pampa tanto pelo Ministério do Meio Ambiente quanto por pesquisadores da UFRGS e da Unipampa, mas sua presença nas estratégias produtivas das fazendas gaúchas ainda é marginal. A expansão da soja e de pastagens com espécies exóticas, que já suprimiu 45% do Pampa brasileiro desde a colonização europeia, pressiona diretamente as populações nativas da árvore, especialmente no Parque Estadual do Espinilho, no município de Barra do Quaraí, onde se concentra um dos últimos remanescentes expressivos.
Preservar e multiplicar o algarrobo em propriedades rurais do Sul não é apenas uma decisão ecológica. Para o pecuarista que convive com invernos rigorosos e escassez de pasto nos meses de frio, a árvore representa uma reserva estratégica de forragem que dispensa investimento adicional e se renova sozinha a cada estação. A resposta para parte do custo de suplementação do rebanho pode já existir na forma de uma leguminosa nativa que cresce espontaneamente nas coxilhas, esperando ser reconhecida como o recurso produtivo que sempre foi.
