Alta de 25% na cenoura e 16% na cebola explicam por que o IPCA-15 de abril surpreendeu

Alimentação dentro de casa puxou a prévia da inflação oficial e atingiu o maior patamar do ano, segundo o IBGE

Alta de 25% na cenoura e 16% na cebola explicam por que o IPCA-15 de abril surpreendeu

Imagem: Freepik

A prévia da inflação oficial brasileira de abril veio acima do esperado, e a mesa do consumidor sentiu o peso. O IPCA-15, divulgado nesta terça-feira (28/4) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, registrou alta de 0,89% no mês, contra 0,44% em março, praticamente dobrando o ritmo de avanço dos preços em apenas 30 dias.

O grupo de Alimentação e Bebidas foi um dos principais responsáveis pelo resultado. A inflação do setor saltou de 0,88% em março para 1,46% em abril, movimento que reflete, sobretudo, o comportamento dos alimentos consumidos dentro de casa, cuja variação passou de 1,10% para 1,77% no mesmo período.

Cenoura e cebola lideram as altas com aumentos expressivos

Os números por produto revelam uma concentração de pressão em itens básicos da alimentação brasileira. A cenoura registrou alta de 25,43% em abril, seguida pela cebola, com 16,54%, e pelo leite longa vida, com 16,33%. O tomate avançou 13,76%, enquanto as carnes, consumidas diariamente em praticamente todos os lares do país, subiram 1,14%.

Esses cinco itens, isoladamente, já seriam suficientes para explicar a aceleração do grupo. Aliás, a combinação de hortaliças, laticínios e proteína animal pressionando ao mesmo tempo não é coincidência: reflete um conjunto de fatores que vai da sazonalidade climática à estrutura logística de distribuição dos produtos perecíveis, que continuam vulneráveis a variações de oferta em períodos de transição entre safras.

Por outro lado, alguns produtos registraram recuo e atuaram como contrapeso parcial. A maçã caiu 4,76% e o café moído recuou 1,58%, aliviando levemente o resultado final do grupo, mas sem reverter a tendência de alta dos itens de maior peso na cesta do consumidor de menor renda.

Fora de casa, o custo do lanche e da refeição também subiu

A alimentação fora do domicílio acompanhou o movimento e também acelerou no mês. A variação passou de 0,35% em março para 0,70% em abril, com destaque para lanche, que subiu 0,87%, e refeição, com alta de 0,65%. Em março, esses mesmos itens haviam avançado 0,50% e 0,31%, respectivamente.

Esse comportamento indica que os estabelecimentos do setor de alimentação já repassam aos preços finais o encarecimento dos insumos, em especial das proteínas e dos vegetais que compõem os pratos e lanches vendidos no varejo. Consequentemente, o consumidor sente a pressão tanto na compra do supermercado quanto no restaurante ou lanchonete.

O que os dados do IPCA-15 antecipam para o campo

Para o setor agropecuário, o desempenho do IPCA-15 em abril é um termômetro relevante. A alta concentrada em hortifrutigranjeiros e laticínios sinaliza que os preços no campo, para esses segmentos, estão sendo remunerados em patamar superior ao observado no início do ano. Isso abre uma janela de atenção para produtores de leite, olericultura e bovinocultura de corte, que podem avaliar o momento com maior cautela no planejamento do escoamento da produção.

Além disso, a trajetória do leite longa vida, com alta de 16,33% em apenas um mês, chama atenção para a cadeia láctea, que atravessa um período de recomposição de margens após anos de pressão sobre o preço pago ao produtor. A variação registrada pelo IPCA-15 sugere que o repasse ao consumidor final ganhou tração, o que pode representar um sinal de melhora gradual para o pecuarista leiteiro, a depender do comportamento dos custos de produção nos próximos meses.

O IPCA-15 funciona como indicador antecedente do IPCA cheio, divulgado no início do mês seguinte, e costuma antecipar tendências que se confirmam no índice oficial. Com o resultado de abril acenando para uma aceleração nos preços dos alimentos, o setor produtivo e os analistas de mercado já ajustam suas projeções para o comportamento da inflação alimentar até o encerramento do primeiro semestre.

  • Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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