A colheita de mel no Rio Grande do Sul se aproxima do encerramento. Com a redução gradual da entrada de néctar nas colmeias, os apicultores gaúchos concentram esforços no manejo pós-colheita e na preparação dos enxames para enfrentar o período de escassez que acompanha as temperaturas mais baixas do outono e inverno. Os dados divulgados pela Emater/RS-Ascar nesta quinta-feira (02/04) no Informativo Conjuntural mostram um panorama heterogêneo, com resultados positivos em parte do Estado e queda de produtividade em outras regiões.
A variação entre regiões reflete, sobretudo, a disponibilidade de floradas e as condições climáticas das últimas semanas. Nas áreas onde o tempo seco prevaleceu, as abelhas campeiras mantiveram boa atividade, porém a menor oferta de néctar já se traduz em enxames menos populosos e menor postura das rainhas, dois indicadores que sinalizam o fim da temporada produtiva.
Sul do Estado responde com produção acima da média
Na região de Pelotas, os municípios de Amaral Ferrador e Pinheiro Machado confirmaram produção superior à do ano anterior. A elevada atividade dos enxames e a intensificação da enxameação indicam colmeias bem desenvolvidas, resultado de um verão com boas condições para a apicultura. No Chuí e em Piratini, a extração de mel ainda está em andamento, aproveitando os últimos dias favoráveis antes da queda definitiva das floradas.
Já em Bagé, os apiários registram boas condições sanitárias e continuam recebendo néctar e pólen de espécies de campo nativo e de algumas variedades de eucalipto. Os apicultores da região aproveitam os dias sem chuva para monitorar os enxames e realizar as últimas colheitas do mel acumulado durante os meses de verão.
Na região de Porto Alegre, a produção segue elevada, sustentada pela maior movimentação das abelhas e pela boa entrada de néctar nas colmeias, o que coloca a capital e seu entorno entre as áreas com melhor desempenho produtivo neste fechamento de safra.
Queda de néctar pressiona regiões de Caxias do Sul, Ijuí e Frederico Westphalen
O cenário é diferente na metade norte do Estado. Em Caxias do Sul, a diminuição considerável na entrada de néctar já impactou diretamente a postura das rainhas, resultando em enxames menos populosos e menor produtividade para os apicultores que realizaram a colheita neste período. O tempo predominantemente seco até favoreceu o trabalho das campeiras, mas não foi suficiente para compensar a escassez de floradas.
Nas regiões de Ijuí e Frederico Westphalen, a colheita praticamente se encerrou. Os apicultores estão dedicados ao manejo das colmeias, com foco na proteção dos enxames para o inverno, incluindo controle de enxameação e organização dos apiários. Em Passo Fundo, as floradas de carqueja, mata-campo, eucalipto e cipós ainda oferecem algum suporte nutricional, mas a redução gradual já se reflete no menor acúmulo de mel nas caixas.
“Plantar para as abelhas deve ser um cuidado permanente”, orienta a bióloga Betina Blochtein, CEO da Mais Abelhas Consultoria Ambiental e coordenadora executiva do Observatório de Abelhas do Brasil. Para ela, a diversificação do pasto apícola ao longo do ano é o que garante colônias saudáveis mesmo quando as floradas principais chegam ao fim. “Algumas plantas são muito boas para as abelhas, como a canola e o girassol, que oferecem muitos recursos nutricionais. A canola fortalece as abelhas no inverno, quando a floração de outras espécies já terminou”, destaca a especialista.
Meliponicultura ganha espaço comercial no Estado
Além da apicultura convencional, a meliponicultura — criação de abelhas nativas sem ferrão — avança no Rio Grande do Sul e começa a mostrar expressão comercial concreta. Na região de Porto Alegre, as condições climáticas favoráveis e a disponibilidade de alimento contribuíram para uma boa produção de mel, mantendo os enxames fortes e favorecendo as multiplicações.
Em Santo Antônio da Patrulha, o mel de Jataí já é comercializado a R$ 230,00 o quilo, preço que varia conforme a espécie produtora e a oferta local. Aliás, a própolis de abelhas sem ferrão começa a ganhar espaço próprio no mercado: alguns meliponicultores já produzem extrato de própolis nativa, atraindo interesse crescente em função dos compostos bioativos e dos benefícios à saúde associados ao produto.
“Os produtores passaram a conservar outras plantas da mata nativa que não dão resultado econômico diretamente, mas que servem para as abelhas fazerem ninhos ou oferecem nutrição fora do período de floração da cultura principal”, explica o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, doutor em Ciência Animal — uma lógica que se aplica diretamente à realidade dos meliponicultores gaúchos, que dependem da diversidade florística para manter a produtividade das espécies nativas ao longo do ano.
Campo gaúcho em colheita intensa
O encerramento da safra apícola ocorre em paralelo a um momento de alta demanda no campo gaúcho. A colheita da soja avança de forma acelerada, cobrindo cerca de 23% da área cultivada, estimada em 6,6 milhões de hectares, com produtividade média revisada em 2.871 kg/ha pela Emater/RS-Ascar. As jornadas foram ampliadas para o período noturno diante da grande concentração de lavouras em ponto de maturação.
O milho já tem 76% da área colhida, com produtividade média estimada em 7.424 kg/ha. As áreas que passaram por restrição hídrica registraram menor número de grãos por espiga e peso final reduzido, mas as chuvas recentes favoreceram os cultivos tardios ainda em enchimento. O milho destinado à silagem está com 80% da área colhida, e a produtividade média projetada chega a 37.840 kg/ha, em 345.299 hectares.
No arroz irrigado, metade da área já foi colhida, com produtividades gerais elevadas ao longo do ciclo. Contudo, oscilações térmicas durante a fase reprodutiva e episódios de excesso de umidade têm potencial de impactar a qualidade industrial nas áreas ainda por colher. A área cultivada é de 891.908 hectares, com produtividade projetada em 8.744 kg/ha.
O feijão de primeira safra encerrou a colheita na maior parte das regiões, com exceção dos Campos de Cima da Serra, onde o ciclo tardio mantém as operações ativas e a produtividade observada, em torno de 1.200 kg/ha, ficou significativamente abaixo dos 2.400 kg/ha projetados no início do ciclo. O feijão de segunda safra, por sua vez, avança nos estágios reprodutivos com desempenho dentro do esperado, sustentado pelas chuvas e temperaturas elevadas que favoreceram o enchimento de grãos nas últimas semanas.
