O Brasil derrubou 97% das araucárias e só agora entende o que perdeu junto

Pesquisas da UFPR e da UFSM mostram que os pinheirais regulavam a umidade atmosférica no Sul do país por meio de um mecanismo silencioso e insubstituível: a captura direta de neblina

O Brasil derrubou 97% das araucárias e só agora entende o que perdeu junto

mikethor

Havia um tempo em que o Planalto Serrano de Santa Catarina acordava envolto em neblina quase todos os dias do inverno. Nas serras gaúchas, a névoa densa era presença tão constante que moldou modos de vida, arquitetura e até os calendários agrícolas da região.

Esse fenômeno não era apenas paisagem: era resultado direto da presença dos pinheirais de araucária, que funcionavam como uma infraestrutura hídrica viva, capturando umidade da atmosfera e devolvendo-a ao solo e aos cursos d’água locais. Com a derrubada de mais de 97% da cobertura original dessas florestas ao longo do século XX, esse mecanismo foi desativado, e o Sul do Brasil colhe as consequências até hoje.

Como uma árvore capturava água das nuvens

A Araucaria angustifolia, o pinheiro-do-paraná, não é uma árvore comum dentro do ecossistema em que evoluiu. Sua copa característica, horizontal e aberta, posicionada acima do dossel das demais espécies, funciona como uma superfície coletora. Quando a neblina passa por entre os galhos, as gotículas de água que compõem as nuvens baixas se depositam nas acículas e nos galhos e, por gravidade, escorrem até o solo, num processo chamado interceptação de neblina ou precipitação oculta.

Esse mecanismo é diferente da chuva convencional. Enquanto a chuva depende de condições atmosféricas específicas para se formar, a interceptação de neblina ocorre mesmo em dias sem precipitação registrada pelos pluviômetros, o que faz com que os pinheirais acrescentassem ao balanço hídrico regional uma quantidade de água que simplesmente não aparece nas estatísticas climáticas tradicionais. Pesquisadores da UFPR e da UFSM que investigam os remanescentes da Floresta Ombrófila Mista identificaram que essa contribuição era significativa o suficiente para influenciar a recarga dos aquíferos regionais, especialmente nas áreas de altitude onde a neblina se concentra com mais frequência e intensidade.

A evapotranspiração específica da araucária completa esse ciclo. Por ser uma espécie perene, com metabolismo ativo ao longo de todo o ano inclusive durante os meses secos, ela devolve continuamente vapor d’água para a atmosfera local, contribuindo para a manutenção da umidade relativa do ar em níveis que favorecem a formação de nevoeiros. Em outras palavras, os pinheirais não apenas capturavam água: também ajudavam a produzir as condições para que ela continuasse chegando.

O que os números escondem sobre a devastação

A Floresta Ombrófila Mista, o ecossistema dominado pela araucária no Sul do Brasil, já cobriu aproximadamente 200 mil quilômetros quadrados, distribuídos principalmente pelo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com extensões menores em São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Dessa área, menos de 3% permanece com cobertura original preservada. O restante foi convertido em lavouras, pastagens e áreas urbanas ao longo de um processo que se intensificou entre 1940 e 1970, impulsionado pela exploração madeireira e pela política de colonização agrícola do Sul do país.

O número em si já é grave, mas o impacto real vai além do que a porcentagem sugere. O problema não está apenas na quantidade de floresta perdida, mas na fragmentação do que restou. Os remanescentes existentes, em sua maioria, são pequenos, isolados entre si e incapazes de reproduzir os serviços ecossistêmicos que a cobertura contínua proporcionava. A interceptação de neblina, em particular, depende de extensão e conectividade: fragmentos isolados de araucária capturam proporcionalmente menos água do que florestas contínuas, porque o efeito de borda reduz a eficiência do mecanismo.

Municípios serranos de Santa Catarina que registravam historicamente entre 80 e 100 dias de neblina por ano têm observado redução consistente nesse indicador ao longo das últimas décadas. A mudança climática global contribui para esse processo, mas as pesquisas regionais apontam que a perda da cobertura vegetal nativa tem papel relevante e independente nessa transformação, porque altera variáveis locais que os modelos climáticos globais não capturam com precisão.

A água que some antes de chegar ao aquífero

A consequência mais direta e menos visível dessa cadeia de perdas está nos aquíferos. As regiões serranas do Sul abrigam importantes sistemas de recarga hídrica subterrânea, que abastecem não apenas as comunidades locais, mas também os cursos d’água que irrigam vales produtivos mais abaixo. A recarga desses sistemas depende da infiltração lenta e contínua de água no solo, processo que a cobertura florestal facilita de diversas formas: reduz o escoamento superficial, aumenta a capacidade de absorção do solo com a matéria orgânica gerada pela serapilheira e, no caso específico da araucária, acrescenta ao sistema a água captada diretamente da neblina.

Com a substituição da floresta por pastagens e lavouras, a lógica se inverte. A água que chove passa a escorrer pela superfície com mais velocidade, chegando aos rios com maior turbulência e carreando solo, em vez de infiltrar gradualmente e alimentar o lençol freático. O resultado prático é que os aquíferos recarregam menos, os rios apresentam oscilações mais bruscas entre cheias e secas, e a disponibilidade hídrica nas estações secas diminui progressivamente. Para os agricultores da região, isso se traduz em maior dependência de irrigação artificial, aumento dos custos de produção e vulnerabilidade crescente a períodos de estiagem.

Restaurar ou conviver com a escassez

A questão que se coloca a partir dessas descobertas não é apenas científica: é econômica e territorial. Restaurar os pinheirais em escala suficiente para recuperar os serviços ecossistêmicos perdidos exige décadas, porque a araucária é uma espécie de crescimento lento e porque a reconexão dos fragmentos florestais existentes demanda planejamento paisagístico em nível regional. A araucária leva entre 15 e 20 anos para atingir maturidade produtiva e décadas adicionais para reconstituir a estrutura de dossel que torna a interceptação de neblina eficiente.

Ainda assim, iniciativas de restauração em andamento no Paraná e em Santa Catarina mostram que o processo é viável quando há articulação entre produtores rurais, poder público e instituições de pesquisa. Sistemas agroflorestais que integram araucárias a cultivos de erva-mate, por exemplo, têm ganhado espaço como modelo capaz de conciliar produção econômica e recuperação ecológica, oferecendo aos agricultores uma alternativa ao monocultivo que degrada progressivamente o capital natural do qual dependem.

O que a ciência tornou claro é que a derrubada das araucárias não foi apenas uma perda de biodiversidade. Foi a desativação de um sistema de regulação climática e hídrica que o Sul do Brasil levou milênios para construir e menos de um século para destruir. Reconstruí-lo parcialmente, mesmo que em prazo longo e com esforço considerável, é mais barato do que lidar indefinidamente com as consequências de sua ausência.


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