A lontra-gigante voltou ao Pantanal e virou termômetro da saúde dos rios nas fazendas

A presença da lontra-gigante nos rios pantaneiros funciona como um atestado natural de qualidade da água e começa a influenciar certificações ambientais rurais

A lontra-gigante voltou ao Pantanal e virou termômetro da saúde dos rios nas fazendas

A ariranha não aparece em qualquer rio. Para que uma família desse mamífero semiaquático se instale em um curso d’água, a água precisa ser limpa, o peixe precisa ser abundante e as margens precisam estar preservadas. Essa exigência biológica, que durante décadas foi estudada apenas por ecólogos, ganhou um novo significado no contexto do agronegócio sustentável: propriedades rurais com registros confirmados de ariranha passaram a apresentar vantagens em processos de certificação ambiental e rastreabilidade da produção.

A Pteronura brasiliensis, nome científico da ariranha ou lontra-gigante, é o maior mustelídeo do mundo, podendo atingir até 1,8 metro de comprimento. Vive em grupos familiares de até oito indivíduos, ocupa territórios bem definidos ao longo de rios, lagos e igarapés e, por isso mesmo, torna-se extremamente sensível a qualquer alteração na qualidade da água ou na disponibilidade de alimento.

Um bioindicador que a ciência leva a sério

O conceito de bioindicador se refere a organismos cuja presença, ausência ou abundância fornece informações sobre as condições do ambiente em que vivem. A ariranha se enquadra nessa categoria com precisão. Ela ocupa o topo da cadeia alimentar aquática, alimentando-se principalmente de peixes, e qualquer contaminação por agrotóxicos, metais pesados ou esgotos afeta primeiro os organismos menores da cadeia, comprometendo a disponibilidade de alimento e, consequentemente, a sobrevivência do grupo.

Dessa forma, a simples presença de ariranhas em um trecho de rio já indica que a cadeia trófica aquática está funcionando. Isso significa oxigênio dissolvido em níveis adequados, ausência de contaminantes em concentrações letais e margens com vegetação suficiente para suportar os ninhos e a movimentação do grupo. É um atestado ecológico que nenhum laboratório emite com tanta eficiência.

No Pantanal, bioma que abriga a maior população remanescente da espécie no mundo, com estimativas que variam entre 1.000 e 5.000 indivíduos, o monitoramento de ariranhas já integra protocolos científicos de avaliação ambiental. Organizações como o Instituto de Pesquisa Ecológica (IPÊ) e a Wildlife Conservation Society (WCS) mantêm programas de rastreamento da espécie no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, usando câmeras-trap, reconhecimento de padrões de pelagem e análise de vocalizações para mapear grupos e territórios.

O que a ariranha exige de um rio para viver

A lontra-gigante não tolera ambientes degradados. Para estabelecer um território, o grupo precisa de rios com profundidade suficiente para mergulhos de caça, margens com vegetação densa para construção de tocas, transparência mínima da água para localizar peixes visualmente e ausência de perturbações humanas frequentes nas proximidades do ninho.

Contudo, o aspecto mais revelador é a relação com os peixes. A ariranha consome entre 3 e 4 quilos de peixe por dia por indivíduo. Em um grupo de seis animais, isso representa cerca de 20 quilos diários de proteína extraída do rio. Para que isso seja possível de forma sustentável, a ictiofauna local precisa estar em equilíbrio, o que só ocorre quando o ecossistema aquático funciona de forma integrada, da decomposição orgânica ao controle de algas.

Por isso, rios que sustentam ariranhas também tendem a apresentar indicadores favoráveis de outros parâmetros: ausência de florescimento de cianobactérias, baixa turbidez, pH neutro a levemente ácido e presença de macroinvertebrados bentônicos, organismos que vivem no fundo e são sensíveis a alterações químicas da água. A ariranha, nesse sentido, funciona como um resumo visual de uma análise físico-química complexa.

O agronegócio sustentável e a virada na percepção

Durante décadas, a ariranha foi tratada como concorrente pelos pescadores e, em algumas regiões, como ameaça à piscicultura. Esse conflito levou à perseguição do animal e contribuiu para a drástica redução das populações ao longo do século 20, quando a espécie chegou a ser considerada funcionalmente extinta em vários estados brasileiros.

A virada começou com a expansão dos mercados consumidores exigentes em rastreabilidade socioambiental, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Frigoríficos e tradings que exportam proteína animal passaram a incluir indicadores de biodiversidade nos critérios de compra, pressionando fazendas a demonstrar que suas práticas não comprometem os ecossistemas adjacentes. Nesse contexto, o registro de espécies-bandeira, como a ariranha, passou a ter valor concreto nos relatórios de conformidade ambiental.

Além disso, programas como o Produce, Pay and Conserve (PPC) Cerrado e iniciativas ligadas ao Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, que define metas internacionais de conservação até 2030, ampliaram a discussão sobre métricas de biodiversidade em cadeias produtivas. A presença de espécies bioindicadoras em propriedades rurais passou a ser um dado concreto dentro dessas métricas.

Pantanal: onde produção e ariranha já convivem

O Pantanal concentra hoje as condições mais favoráveis para observar essa convivência. Propriedades rurais da região, especialmente as dedicadas à pecuária extensiva de baixa densidade, preservam faixas ribeirinhas significativas por obrigação legal e por tradição produtiva. O gado pantaneiro historicamente convive com a cheia e a vazante, o que exige que os fazendeiros mantenham as áreas de várzea intactas. Esse modelo, por consequência, preserva habitats favoráveis à ariranha.

Essa sobreposição não é coincidência. O bioma pantaneiro impõe limitações naturais ao uso intensivo da terra, e essas limitações criam um ambiente involuntariamente favorável à biodiversidade. A ariranha encontra no Pantanal uma das últimas fronteiras sul-americanas onde pode se mover entre estados sem cruzar áreas completamente desmatadas.

Contudo, as queimadas de 2020, que destruíram cerca de 30% da superfície do Pantanal, afetaram drasticamente os corpos d’água da região. Registros de campo indicaram desaparecimento temporário de grupos de ariranhas em rios que secaram ou tiveram a vegetação marginal eliminada pelo fogo. A recuperação tem sido monitorada como forma de avaliar a resiliência do bioma.

Certificações que já olham para a fauna aquática

O Rainforest Alliance, a certificação Bonsucro para cana-de-açúcar e o protocolo Soja Livre de Desmatamento já incorporam critérios de proteção de espécies ameaçadas em suas auditorias. A ariranha, classificada como vulnerável na Lista Vermelha da IUCN, entra automaticamente nesse radar quando presente em propriedades auditadas.

Aliás, fazendas que registram a espécie por meio de protocolos formais de monitoramento, como câmeras-trap com georreferenciamento e relatórios periódicos, passam a acumular créditos de conformidade que facilitam renovações de certificação e reduzem o tempo de auditoria de campo. Isso transforma o monitoramento da ariranha de gasto voluntário em investimento estratégico para o acesso a mercados premium.

O próximo passo, já em discussão em fóruns de bioeconomia ligados à preparação para a COP30 em Belém, é a criação de métricas padronizadas de biodiversidade para propriedades rurais, nas quais espécies bioindicadoras como a ariranha possam ser quantificadas e convertidas em indicadores auditáveis de desempenho ambiental. Quando isso acontecer, ter ariranha no rio deixará de ser curiosidade e passará a ser, oficialmente, ativo de balanço.

  • Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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