Egito reduz custo da ração pela metade, mas segue refém do mercado global de soja

Avicultura retoma fôlego após queda nos preços dos insumos importados, enquanto demanda por grãos deve bater recorde histórico em 2026/27

Egito reduz custo da ração pela metade, mas segue refém do mercado global de soja

O setor avícola do Egito atravessa um momento de recuperação após um dos períodos mais difíceis de sua história recente. A queda expressiva nos preços da ração devolve margem aos produtores e reacende a atividade em um país onde o frango é a principal fonte de proteína animal acessível à população. O alívio, contudo, chega acompanhado de uma realidade estrutural que o setor ainda não conseguiu superar: a dependência quase total de insumos importados.

A dimensão da crise anterior fica clara nos números. O custo da ração chegou a cerca de 40 mil libras egípcias por tonelada, algo em torno de US$ 815, pressionado por restrições às importações, falhas no abastecimento de grãos e instabilidade cambial. O impacto foi direto na produção de frangos de corte, o segmento mais sensível a variações de custo dentro da cadeia avícola.

Com a flexibilização dos entraves logísticos e mudanças nos sistemas de compra de grãos, a maior oferta de milho, farelo de soja e trigo no mercado interno derrubou esse patamar para uma faixa entre 19 mil e 22 mil libras por tonelada, entre US$ 380 e US$ 460. Em termos práticos, o custo caiu mais da metade em poucos meses, o que representa uma virada significativa para produtores que operavam no limite da viabilidade econômica.

Expansão que alimenta a dependência

Ao mesmo tempo em que os custos recuam, a própria dinâmica de crescimento do setor cria novas pressões. A avicultura egípcia avança sustentada por uma demanda crescente por proteína animal de menor custo, realidade presente tanto no mercado urbano quanto nas regiões rurais do país. Essa expansão eleva continuamente a necessidade de insumos proteicos, com a soja como componente central das formulações de ração.

As projeções para o ano comercial 2026/27 indicam que as importações de soja pelo Egito podem superar 5 milhões de toneladas, estabelecendo um novo recorde histórico para o país. O número coloca o Egito entre os maiores importadores do grão no Oriente Médio e no Norte da África, e evidencia como o crescimento do setor aprofunda, em vez de reduzir, a exposição ao mercado externo.

A indústria de ração segue estruturalmente atrelada tanto à soja em grão quanto ao farelo processado importado. Não há, no curto prazo, perspectiva realista de substituição doméstica desses insumos em escala suficiente para alterar esse equilíbrio.

Vulnerabilidade que o alívio momentâneo não elimina

O recuo nos preços da ração é real e bem-vindo para os produtores. Mas o horizonte de médio e longo prazo ainda concentra riscos relevantes. A exposição do setor a oscilações nos preços globais das commodities, variações cambiais e custos de frete marítimo permanece elevada, e qualquer combinação desfavorável desses fatores pode reverter rapidamente os ganhos recentes de margem.

Esse cenário é especialmente sensível considerando que o Egito não controla nenhuma das variáveis externas que definem o custo de sua avicultura. A precificação internacional da soja, as safras nos países exportadores e as rotas de abastecimento são fatores que escapam completamente ao alcance da política doméstica.

O que o momento atual revela, portanto, é uma cadeia produtiva que respira com mais facilidade, mas ainda sem a estrutura necessária para sustentar esse fôlego de forma independente. O alívio veio de fora, assim como a próxima crise também pode vir.

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