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Azevém Altovale: Epagri libera 600 toneladas de semente que pode transformar o pasto de inverno em Santa Catarina

by Derick Machado
23 de fevereiro de 2026
in Noticias
Azevém Altovale: Epagri libera 600 toneladas de semente que pode transformar o pasto de inverno em Santa Catarina

Quem cria gado em Santa Catarina sabe que o inverno cobra seu preço. A forrageira de verão para de produzir, a lotação cai e a conta de suplementação sobe. É exatamente nessa janela de escassez que o azevém-anual SCS316 Altovale foi desenvolvido para atuar. E em 2026, a Epagri disponibiliza 600 toneladas de sementes do cultivar, volume suficiente para cobrir até 30 mil hectares de pastagem no estado.

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Para ter a dimensão do salto: no ano passado foram apenas 62,5 toneladas. O mercado estava represado.

A demanda sempre foi maior que a oferta

O Altovale não é novidade para quem acompanha a pecuária catarinense de perto. O cultivar foi desenvolvido pela Epagri em parceria com a Cooperativa Regional Agropecuária Vale do Itajaí (Cravil) e lançado em 2021, mas os estudos remontam a 2007, quando técnicos da Estação Experimental da Epagri em Ituporanga foram à propriedade de Rudi Krause, em Lontras, no Alto Vale do Itajaí, e encontraram um azevém cultivado no mesmo local há mais de 60 anos. O material foi levado para avaliação, entrou no processo formal de seleção em 2012 e passou por ensaios de Valor de Cultivo e Uso em Ituporanga, Lages e Papanduva. Apresentou resultados consistentes nos três ambientes.

O problema sempre foi escala. “A procura é muito alta, mas devido a frustrações na multiplicação de sementes, não se tem conseguido atender toda a demanda, estimada em 900 toneladas anuais”, explica Ulisses de Arruda Córdova, engenheiro-agrônomo e pesquisador de Forragicultura e Pastagens da Epagri em Lages, um dos responsáveis pelo desenvolvimento do cultivar. Ou seja: mesmo com 600 toneladas disponíveis agora, ainda há déficit. A demanda real do mercado é um terço maior.

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O que diferencia o Altovale porteira adentro

O principal argumento técnico do cultivar está na combinação de dois fatores que raramente andam juntos: precocidade e ciclo longo. O primeiro pastejo ocorre entre 40 e 50 dias após a semeadura. O ciclo de produção se estende por cerca de dois meses a mais que os azevéns convencionais, alcançando até meados de novembro em muitas propriedades. Aliás, esse é um detalhe que impacta diretamente o fluxo de caixa: mais dias de pasto significa menos dias de confinamento ou suplementação.

Além disso, o teor de proteína bruta fica entre 25% e 30%, acima da média dos cultivares de inverno mais utilizados no mercado. Para o produtor de leite, isso se traduz em produção por vaca dia. Para o produtor de corte, em arroba mais cedo. A rápida rebrota aumenta o número de pastejos por ciclo e a tolerância à brusone reduz perdas em regiões de maior umidade relativa.

“A produtividade obtida com o Altovale pode ser comparada aos melhores cultivares disponíveis no mercado, incluindo os importados”, afirma Córdova. Num mercado onde boa parte dos azevéns de alta performance ainda é importada, essa afirmação tem peso econômico relevante.

Quem usa, não troca

Lucas Krug, produtor de leite em Presidente Getúlio, teve acesso ao Altovale ainda em 2018, durante a fase de testes. A família encerrou 2025 com 207 mil litros de leite produzidos e o cultivar segue na rotação. “Mesmo sendo mais caro, nunca deixamos de semear. Ele rende mais, não precisamos estar semeando tanto por metro quadrado por conta do alto volume de trato que o azevém Altovale fornece”, conta Lucas.

Ele acrescenta um ponto que poucos produtores destacam: o Altovale germina dentro de pastagens de missioneira, variedade perene muito comum no Sul do Brasil, dispensando a roçada prévia. E nas áreas de diferimento, a semente se mantém viável, germinando no ano seguinte com o frio. Menos custo de aquisição de sementes, menos operação, mesmo resultado.

Mario Ogliari, produtor de leite em Santa Terezinha, aderiu ao cultivar há quatro anos. Hoje produz cerca de 250 mil litros anuais com média de 33 vacas em lactação. A observação dele é direta: “Com uma pastagem de qualidade e água nos piquetes, o que vimos foi as vacas pastando o dia inteiro.” Ogliari reconhece que o Altovale exige atenção à fertilidade do solo, mas avalia que o trabalho é recompensado.

No município de Palmeira, o extensionista Clayrton Cruz da Silveira, da Epagri local, acompanhou duas propriedades de gado de corte e registrou ganho de aproximadamente um quilo por animal por dia. “É um material de crescimento rápido, ótimo potencial de rebrota e com folhas largas que ajudam na interceptação da luz, produzindo boa cobertura”, resume Clayrton.

A janela de plantio está se abrindo

O produtor que quer garantir pasto de qualidade no inverno precisa agir antes. Em regiões de altitude, a semeadura começa em 15 de fevereiro. Nas regiões mais quentes, a janela se estende até 15 de junho. A temperatura noturna ideal para germinação fica entre 10°C e 18°C, portanto o monitoramento climático é parte do manejo, não opcional.

A taxa de semeadura recomendada é de 20 kg/ha no plantio em linha e 25 kg/ha no plantio em lanço. O manejo de pastejo deve ser rotacionado: entrada dos animais com 20 centímetros de altura e saída com 12 centímetros. Esse protocolo garante rebrota vigorosa e mantém a longevidade do pasto.

Na adubação, o pesquisador Tiago Baldissera, da Estação Experimental de Lages e coordenador estadual do Programa Pecuária da Epagri, orienta que a ureia seja aplicada no momento certo: “O mais importante é realizar no início do perfilhamento, quando as plantas estiverem no estágio entre 3 e 4 folhas, momento em que elas apresentam a maior capacidade de absorção de nitrogênio.” A quantidade recomendada chega a 300 kg/ha, podendo ser parcelada conforme a estratégia da propriedade. Antes de qualquer coisa, a análise de solo é inegociável.

Baldissera ainda faz um alerta prático: guardar cerca de 100 gramas das sementes adquiridas como salvaguarda, caso haja necessidade de acionar garantias por problemas de qualidade.

Como acessar as sementes

Produtores enquadrados no Pronaf podem buscar as sementes diretamente nos escritórios municipais da Epagri, por meio do kit forrageiras, com estoques limitados. Os demais produtores encontram o Altovale na Cravil, licenciada para produção da semente, em cooperativas que fazem compra direta para associados e em agropecuárias do Oeste e Meio-Oeste catarinense.

O cultivar também funciona bem no sistema de integração lavoura-pecuária, gerando palhada para plantio direto ou silagem pré-secada de alta qualidade. Para propriedades que já operam em ILP ou querem migrar para esse modelo, o Altovale é uma peça que se encaixa sem complicação no calendário agrícola.

A demanda estimada ainda é de 900 toneladas por ano. Com 600 disponíveis, quem esperar pode ficar sem.

Fonte: Cléia Schmitz, jornalista bolsista na Epagri/Fapesc / Foto: Pablo Gomes/Epagr

  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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