Bactérias nativas elevam enraizamento de mudas de pimenta-do-reino em até 333% e abrem caminho para novos bioinsumos

Pesquisa da Embrapa identifica microrganismos endofíticos que estimulam o crescimento da espécie e podem reduzir o uso de fertilizantes químicos na produção familiar

Bactérias nativas elevam enraizamento de mudas de pimenta-do-reino em até 333% e abrem caminho para novos bioinsumos

Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

Pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental identificaram duas bactérias com capacidade de transformar a produção de mudas de pimenta-do-reino no Brasil. Os microrganismos, presentes naturalmente no interior das plantas, estimulam o enraizamento de estacas utilizadas na propagação da espécie e promovem ganhos expressivos de crescimento, abrindo caminho para o desenvolvimento de um bioinsumo voltado à agricultura familiar.

Os experimentos foram conduzidos entre 2023 e 2024, em laboratório e em casas de vegetação, com a variedade Singapura de pimenteira-do-reino. As linhagens testadas, Priestia sp. T2.2 e Lysinibacillus sp. C5.11, produziram resultados que chamam atenção pela magnitude: a primeira elevou em até 75% a altura das plantas e em 136% a massa seca da parte aérea; a segunda promoveu um aumento de 333% na massa seca das raízes, em comparação com plantas não inoculadas.

Os efeitos foram atribuídos à capacidade das bactérias de produzir ácido indolacético (AIA), hormônio vegetal que regula processos de crescimento, e sideróforos, compostos que capturam ferro no ambiente e aumentam a disponibilidade do nutriente para as raízes. Além disso, os microrganismos atuam na solubilização de nutrientes presentes no solo, tornando substâncias que normalmente estão indisponíveis acessíveis à absorção pelas plantas.

O gargalo do enraizamento nas lavouras familiares

A propagação da pimenteira-do-reino pode ocorrer por sementes ou por estacas enraizadas, e a segunda opção é a mais indicada para a agricultura comercial. As estacas preservam as características genéticas da planta-mãe, como alta produtividade e resistência a doenças, além de reduzirem o tempo até a primeira frutificação. O problema é que o índice de pegamento das raízes costuma ser baixo, comprometendo a uniformidade das mudas e, consequentemente, o desempenho produtivo das lavouras.

Esse gargalo é especialmente crítico para pequenos produtores, que respondem pela maior parte da produção nacional e dispõem de menor margem para absorver perdas no processo de formação do pimenta. Mudas que não enraízam corretamente resultam em plantas menos vigorosas, mais suscetíveis a doenças e com menor longevidade produtiva, fatores que impactam diretamente a rentabilidade da atividade.

A inoculação das estacas com as bactérias identificadas no estudo surge, nesse contexto, como alternativa concreta para contornar esse problema sem aumentar os custos de produção. Ao contrário dos indutores de enraizamento sintéticos, os bioinsumos à base de microrganismos tendem a ser mais acessíveis financeiramente e apresentam menor risco ambiental, características que os tornam adequados ao perfil da cadeia produtiva da pimenta-do-reino.

Da estaquia ao pimenta vigoroso: o que muda na prática

Para compreender o impacto real da descoberta, é preciso entender o ciclo da produção. A estaquia consiste na retirada de pequenos galhos da planta-mãe, que são então submetidos a condições controladas para estimular o desenvolvimento das raízes. Uma vez enraizadas, as estacas se tornam mudas aptas ao plantio definitivo. Toda a cadeia subsequente, da absorção de nutrientes à produtividade no campo, depende da qualidade desse enraizamento inicial.

Raízes mais vigorosas significam plantas com maior capacidade de absorver água e nutrientes, mais folhas, maior taxa fotossintética e, por consequência, maior produção de frutos. O efeito se prolonga ao longo de toda a vida útil da lavoura, que pode se estender por décadas quando bem manejada.

Além disso, plantas com sistema radicular robusto tendem a apresentar maior tolerância a estresses hídricos e maior resistência a patógenos de solo, dois desafios recorrentes nos principais polos produtores do país, especialmente no Pará e no Espírito Santo, que concentram mais de 90% da safra nacional. Contudo, os testes em condições de campo e com outras variedades clonais ainda estão por vir, o que significa que os resultados comerciais definitivos dependerão da fase seguinte da pesquisa.

Brasil é o segundo maior produtor mundial e o mercado está aquecido

A pesquisa chega em um momento especialmente favorável para a cadeia. O Brasil produziu quase 125 mil toneladas de pimenta-do-reino em 2024, segundo o IBGE, e o valor dessa produção saltou de R$ 1,65 bilhão em 2023 para mais de R$ 3,67 bilhões em 2024, uma valorização de aproximadamente 122% em apenas um ano. O país ocupa a segunda posição no ranking mundial de produtores, atrás apenas do Vietnã.

O Pará lidera a produção nacional com cerca de 41 mil toneladas anuais, com a agricultura familiar como base produtiva. Esse perfil reforça a importância estratégica de soluções tecnológicas acessíveis, capazes de elevar a produtividade sem exigir grandes investimentos em insumos químicos. A redução da dependência de fertilizantes e defensivos sintéticos, além de representar economia direta ao produtor, responde a uma demanda crescente do mercado internacional por pimenta produzida com menor impacto ambiental.

Bactérias endofíticas já transformaram outras culturas

As bactérias endofíticas, como são chamadas as que vivem nos tecidos internos das plantas sem causar doenças, já têm histórico comprovado de benefícios em diversas culturas agrícolas. Em milho, cana-de-açúcar e espécies cítricas, a inoculação com microrganismos benéficos resultou em maior eficiência na absorção de nitrogênio, melhor desenvolvimento radicular e aumento da resistência a pragas e estresses ambientais. A novidade do estudo com pimenteira-do-reino está na precisão com que foram identificados os mecanismos fisiológicos de atuação das linhagens específicas, o que representa um passo fundamental para o desenvolvimento de um produto comercial.

Estudos anteriores com espécies dos gêneros Bacillus e Pseudomonas já haviam demonstrado promoção do enraizamento em pimentais, mas sem o nível de detalhamento necessário para orientar a formulação de um bioinsumo. A identificação das linhagens Priestia sp. T2.2 e Lysinibacillus sp. C5.11, aliada à compreensão dos compostos que produzem, fornece a base técnica para que o processo avance até a escala comercial.

Legislação favorece o avanço dos bioinsumos no Brasil

O momento regulatório também é propício. A Lei Federal nº 15.070/2024 estabeleceu um marco jurídico mais claro para o setor de bioinsumos no Brasil, definindo que produtos desenvolvidos a partir de microrganismos como as cepas identificadas no estudo não são classificados como pesticidas. Isso simplifica o processo de registro e facilita a chegada desses produtos ao mercado, desde que comprovada a segurança para seres humanos e para o ambiente.

Esse avanço regulatório é relevante porque um dos principais entraves à adoção de biológicos no Brasil historicamente foi a burocracia associada ao registro de novos produtos. Com regras mais claras e processos mais ágeis, empresas de biotecnologia e instituições de pesquisa encontram mais incentivo para transformar descobertas como esta em soluções disponíveis ao produtor.

O próximo passo do estudo da Embrapa é validar os resultados em áreas de produtores e com outras variedades clonais de pimenteira-do-reino. Se os dados de campo confirmarem o desempenho observado em laboratório e em casas de vegetação, a cadeia produtiva da pimenta-do-reino poderá ter em mãos, em breve, uma ferramenta concreta para elevar produtividade, reduzir custos e fortalecer a sustentabilidade de um dos mercados agrícolas mais valorizados do país.

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