A planta estava lá desde 1989. Brotou espontaneamente em uma propriedade rural de Luiz Alves, no Vale do Itajaí, e chamou a atenção do bananicultor Evaldo Rech por uma característica que, à primeira vista, parecia simples: a casca se mantinha mais clara do que o padrão da nanica convencional, mesmo chegando ao ponto ideal de colheita. Naquele momento, o que o produtor enxergou foi uma oportunidade concreta para vender melhor a fruta no inverno, quando a banana mais escura perde apelo nas gôndolas. Décadas depois, aquela planta cuidada com atenção por uma família de bananicultores ganhou nome, registro e espaço na agricultura catarinense: é o cultivar SCS455 Clarinha, lançado oficialmente durante a 2ª FrutiEEI, realizada na Epagri de Itajaí no dia 26.
A cerimônia reuniu autoridades, pesquisadores e mais de 300 produtores rurais e técnicos agrícolas, que puderam observar a fruta diretamente no campo experimental. O impacto foi imediato: a banana chegava ao ponto de colheita com a casca notavelmente mais clara do que as variedades convencionais do subgrupo Cavendish — sem qualquer redução no tempo de armazenagem ou na vida útil de prateleira, dois critérios determinantes para a comercialização no varejo.
De mutação espontânea a cultivar registrado
O caminho entre a descoberta na roça e o lançamento oficial levou mais de três décadas, mas o processo científico propriamente dito se intensificou a partir de 2017, quando pesquisadores da Estação Experimental de Itajaí (EEI) visitaram a propriedade dos Rech pela primeira vez. Antes disso, foram os técnicos da Associação dos Produtores de Banana (Abla) que perceberam o potencial da planta e levaram a informação aos extensionistas da Epagri — um exemplo de como a articulação entre associações de produtores e estrutura de pesquisa pública pode ser decisiva para transformar um achado empírico em tecnologia acessível.
Depois de vários ciclos em plantios experimentais, o cultivar foi descrito, avaliado e validado pelo engenheiro-agrônomo e pesquisador Ramon Scherer, que apresentou a nova variedade tanto na cerimônia oficial quanto no estande de campo do evento. A banana, que os próprios produtores chamavam carinhosamente de “amarelinha”, passou a se chamar Clarinha — nome da filha de Rafael Rech, hoje com 16 anos, que estava presente no lançamento ao lado do pai e do tio Ricardo.
“A gente fica muito feliz que aquela planta que a gente cuidava com carinho possa ser um produto de muito valor. É gratificante”, disse Rafael Rech durante o evento.
O sentimento tem respaldo técnico e econômico. No inverno, quando as temperaturas mais baixas retardam o amadurecimento da fruta, a banana convencional chega ao ponto de colheita com coloração mais esverdeada ou irregular, o que reduz sua aceitação pelo consumidor final. A SCS455 Clarinha inverte essa lógica: a casca mais clara funciona como um atributo visual positivo justamente no período em que a concorrência do produto padrão enfraquece.
“No inverno é difícil vender a fruta mais escura, o consumidor sempre procura mais clara”, explicou Ricardo Rech, resumindo com precisão o que os dados de comportamento do consumidor no varejo confirmam.
Sigatoka, irrigação e as outras pesquisas que movimentaram o campo experimental
O lançamento do SCS455 Clarinha foi a atração central da 2ª FrutiEEI, mas o evento foi estruturado como uma vitrine completa das pesquisas em andamento na estação experimental. Os participantes iniciaram o dia com visitas a diferentes experimentos, e dois deles merecem destaque pelo impacto direto na produtividade dos bananais catarinenses.
O pesquisador Ricardo Negreiros apresentou o projeto de irrigação em bananais, uma frente relevante considerando que o regime hídrico irregular tem sido um dos principais limitantes da produção no estado nas últimas safras. Na sequência, o fitopatologista André Boldrin Beltrame expôs os estudos voltados ao controle da Sigatoka, doença fúngica que representa uma das maiores ameaças à bananicultura nacional e demanda manejo contínuo e critério técnico no uso de fungicidas.
A programação ainda contemplou pesquisas em outras culturas. A especialista em citros Luana Castilho Maro demonstrou as tecnologias e avanços na produção de mudas em Santa Catarina, uma área estratégica para a renovação dos pomares e a sanidade do material propagativo no estado.
Pitaia: controle biológico e um novo boletim de receitas para ampliar o consumo
No estande dedicado à pitaia, o pesquisador Alessandro Borini Lone e o entomologista Marcelo Mendes de Haro apresentaram as estratégias de controle sustentável e orgânico no cultivo da fruta — um tema cada vez mais relevante diante da expansão da pitaia como alternativa de diversificação de renda para pequenos produtores catarinenses.
Borini Lone também divulgou durante a cerimônia oficial um novo boletim técnico com receitas à base de pitaia, desenvolvido em parceria com os profissionais de extensão Natália Lúcia Knakiewicz Kominkiewicz, Geisebel Cristine Patrício e Márcio Nunes Palhano. O material foi pensado com um objetivo claro: popularizar o consumo da fruta e criar alternativas de aproveitamento nos períodos de supersafra, quando o excesso de oferta pressiona os preços para baixo e reduz a margem do produtor. O boletim está disponível para acesso livre.
Inovações em biofertilizante e controle de pragas fecham a programação
A 2ª FrutiEEI ainda reservou espaço para apresentações ligadas ao Projeto Hortaliças de Produção Orgânica. O fitopatologista Alexandre Visconti apresentou a Unidade Portátil de Produção de Biofertilizante Aeróbico, tecnologia vencedora na categoria pesquisadores do 1º Concurso Nacional de Inventos, promovido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar em parceria com a Embrapa — um reconhecimento que reforça a competitividade técnica da pesquisa catarinense em nível nacional.
O entomologista Wilson Reis, por sua vez, apresentou os experimentos com a mosca soldado negra como alternativa para o controle biológico do Maruim e a produção sustentável de biofertilizante, integrando manejo de pragas e geração de insumo orgânico em um único processo.
A SCS455 Clarinha chega ao mercado como a sexta variedade de banana desenvolvida pela Epagri e representa um avanço concreto para um setor que responde por parcela significativa da fruticultura do Sul do Brasil. Para os bananicultores que enfrentam pressão de preço no inverno, o cultivar abre uma janela de diferenciação que começa na casca e pode chegar diretamente à rentabilidade da propriedade.



