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Bayer paga US$ 7,25 bilhões pelo Roundup — e o glifosato segue no campo

Acordo bilionário nos EUA encerra dezenas de milhares de processos sobre câncer, mas não retira a molécula mais usada da agricultura global

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Bayer paga US$ 7,25 bilhões pelo Roundup — e o glifosato segue no campo

A Bayer anunciou uma proposta de acordo coletivo de até US$ 7,25 bilhões para encerrar aproximadamente 67 mil processos nos Estados Unidos que associam o herbicida Roundup ao desenvolvimento de linfoma não Hodgkin. O pacote, que ainda aguarda aprovação judicial em St. Louis, no Missouri, representa a tentativa mais ambiciosa da empresa de fechar o capítulo mais caro da história da Monsanto — subsidiária adquirida em 2018 por US$ 63 bilhões e que virou, rapidamente, um passivo jurídico monumental.

O número impressiona. Somado aos acordos anteriores, a Bayer já comprometeu cerca de US$ 19 bilhões para resolver litígios sobre o Roundup. O mercado sentiu o golpe anos atrás, quando as ações da empresa despencaram mais de 40% após os primeiros veredictos desfavoráveis. Agora, a companhia tenta devolver previsibilidade ao negócio.

O acordo foi desenhado com horizonte de duas décadas

A estrutura proposta cria um programa nacional de compensação para usuários diagnosticados com linfoma não Hodgkin, com pagamentos anuais decrescentes ao longo de até 21 anos. As indenizações seguirão tabelas baseadas em critérios como tipo específico de câncer, idade do requerente, tempo de exposição ao produto e intensidade de uso.

Os participantes terão a opção de aderir ao programa ou rejeitar o acordo e manter ações individuais nos tribunais estaduais, onde os júris populares historicamente têm concedido veredictos expressivos contra a empresa. Essa janela de saída é um ponto sensível para a Bayer: quanto maior a adesão, menor o risco residual. Quanto menor, mais processos seguem vivos.

A data de corte de 2026 para elegibilidade também é estratégica. Ela busca conter o passivo futuro antes que uma nova geração de processos se consolide, especialmente de aplicadores residenciais que usaram o produto por décadas sem informação adequada sobre riscos.

A controvérsia científica que alimentou os tribunais

O gatilho para a onda de processos foi a classificação do glifosato pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, em 2015. A agência enquadrou a substância na categoria 2A — “provavelmente carcinogênico para humanos” — com base em evidências limitadas em humanos e suficientes em estudos com animais.

Esse laudo virou munição. Milhares de advogados nos EUA passaram a construir casos com base na alegação de que a Monsanto sabia dos riscos e optou por não alertar consumidores. Os tribunais, em vários veredictos, aceitaram esse argumento.

A EPA americana, contudo, mantém posição diferente. Para a agência reguladora federal, o uso do glifosato dentro das recomendações de rótulo não representa risco inaceitável à saúde humana. É esse conflito entre avaliações de risco — regulatória de um lado, científica independente de outro — que torna o debate tão difícil de fechar. Os processos não param mesmo sem consenso científico definitivo.

O glifosato não sai do campo tão cedo

Para o agronegócio, o ponto central é este: o acordo não representa o fim do glifosato. A Bayer retirou a molécula das formulações de Roundup para o mercado residencial norte-americano a partir de 2023, substituindo por outros ingredientes ativos. A decisão foi explicitamente motivada por gestão de risco jurídico. No segmento agrícola, porém, o produto segue em operação plena.

E há uma razão de mercado para isso que vai além da Bayer. A empresa controla uma fatia estimada em cerca de 40% da capacidade global de produção de glifosato. Uma eventual saída ou redução significativa da empresa nesse mercado pressionaria a oferta global, aumentaria a dependência de fabricantes asiáticos — especialmente da China — e, portanto, elevaria o custo do insumo para produtores no Brasil, na Argentina, nos EUA e em qualquer sistema de plantio direto que usa a molécula como pilar do manejo de plantas daninhas.

O glifosato não é substituível da noite para o dia. Décadas de integração com cultivares tolerantes, especialmente na soja, no milho e no algodão, criaram uma dependência estrutural. Trocar de molécula significa redesenhar o manejo, testar novas combinações, assumir custos maiores e, em muitos casos, aceitar menor eficiência no controle de invasoras resistentes.

O que o produtor brasileiro precisa acompanhar

No Brasil, o glifosato segue autorizado. A Anvisa e os demais órgãos reguladores mantêm registros ativos, com limites máximos de resíduos estabelecidos e classificações toxicológicas definidas. Produtos à base da molécula continuam entre os defensivos com maior volume de novas autorizações de registro, em diversas formulações de sais e marcas genéricas. O mercado interno não está ameaçado no curto prazo.

Aliás, o impacto mais imediato do acordo da Bayer para o produtor brasileiro não é regulatório. É de mercado e de gestão de risco. O litígio bilionário nos EUA vai alimentar o debate global sobre segurança de herbicidas, responsabilidade de fabricantes e exigências de transparência em rotulagem. Esse debate chegará ao Brasil — e já está chegando, em diferentes velocidades, nas discussões de organismos internacionais, varejistas que monitoram resíduos em exportações e seguradoras que calibram riscos de porteira para dentro.

O produtor que depende exclusivamente do glifosato no seu mix de manejo está, cada vez mais, concentrando risco numa única ferramenta. Diversificar estratégias de controle de plantas daninhas, investir em manejo integrado e usar os equipamentos de proteção individual com rigor não é preciosismo. É gestão. O custo de ignorar isso — regulatório, de imagem ou de produtividade por resistência — tende a aparecer na hora menos oportuna: no meio da janela de plantio.

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