O ponto de partida foi um curso sobre pesca sustentável e economia azul realizado no Japão. O destino, porém, ficou bem mais perto: as fazendas de tilápia do interior do Paraná. A trajetória que liga esses dois pontos é a história de como uma iniciativa individual de capacitação se transformou em cooperação técnica internacional e, agora, num projeto pioneiro que pode redesenhar as políticas públicas para a aquicultura paranaense.
A Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), por meio da sua divisão de Sanidade dos Animais Aquáticos, iniciou a aplicação de um questionário de biosseguridade em propriedades produtoras de tilápia em parceria com o Instituto Veterinário Norueguês (Norwegian Veterinary Institute). A iniciativa é inédita no estado e integra um projeto piloto que prevê a visita a aproximadamente 50 fazendas distribuídas em diferentes regiões do Paraná, com conclusão esperada entre o final de julho e o início de agosto.
Como tudo começou
A médica veterinária Luiza Coutinho, da Adapar, participou de um treinamento internacional promovido pela Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica), intitulado Sustainable Small-scale Fisheries for a Fisheries Centered Blue Economy. O curso abordou estratégias para o desenvolvimento sustentável da pesca e da aquicultura, com foco em sanidade, biosseguridade e fortalecimento institucional. O projeto final que ela desenvolveu ao término da capacitação foi sobre biosseguridade na cadeia aquícola paranaense, o que abriu caminho para a parceria com os noruegueses.
“Após participar do curso sobre pesca em pequena escala, aquicultura e economia azul no Japão, o meu projeto final foi relacionado à biosseguridade na cadeia aquícola, voltado especificamente para o caso do estado do Paraná. Conseguimos contato com o instituto norueguês, que já aplicava o questionário de biosseguridade nas fazendas de salmão, além de ter sido utilizado na Colômbia. Foi daí que surgiu a proposta de aplicar nas produções de tilápia aqui do estado do Paraná”, explica Luiza Coutinho.
O Instituto Veterinário Norueguês é referência global em saúde de animais aquáticos e já havia aplicado a mesma ferramenta em produções de salmão, espécie que representa para a Noruega uma importância econômica equivalente à que a tilápia tem para o Paraná. A adaptação do questionário para a realidade da tilapicultura brasileira representa, por si só, um avanço metodológico significativo.
O que o questionário investiga
A ferramenta desenvolvida com base em diretrizes internacionais de produção está alinhada ao Manual de Animais Aquáticos da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e cobre tanto fatores externos quanto práticas internas de cada propriedade. Na prática, os médicos veterinários da Adapar que atuam em campo levantam informações sobre manejo, controle sanitário, estrutura produtiva e potenciais pontos de entrada de doenças no sistema.
A aplicação teve início no município de Nova Aurora, no Oeste do Paraná, reconhecido como a capital nacional da tilápia por sua relevância histórica e econômica para a tilapicultura brasileira. A escolha não é apenas simbólica: a região concentra propriedades com diferentes perfis produtivos, o que enriquece o diagnóstico desde a fase inicial do levantamento.
“A Adapar está fazendo um levantamento para ter uma noção de como está se comportando a biosseguridade em diversos níveis de propriedade, principalmente da tilápia, que é o principal peixe de cultivo no estado. Pretendemos ao final, apresentar à iniciativa privada e também ao Ministério da Agricultura e pensar em normativas que possam melhorar e dar segurança ao produtor”, afirma Cláudio Sobezak, chefe da divisão de Sanidade dos Animais Aquáticos da Adapar.
Por que isso importa para o produtor
O Paraná é o maior produtor de tilápia do Brasil, e a expansão da tilapicultura estadual nas últimas décadas intensificou os sistemas de produção a ponto de tornar a biosseguridade um fator crítico de competitividade, não apenas de cumprimento regulatório. Em ambientes com alta densidade de animais e produção contínua, a ausência de protocolos sanitários claros eleva o risco de surtos de enfermidades que podem comprometer safras inteiras e prejudicar toda a cadeia, do produtor ao processador.
O levantamento da Adapar busca justamente identificar onde estão os pontos críticos, reconhecer boas práticas que já funcionam nas propriedades e traduzir essas informações em recomendações técnicas concretas. O produto final do projeto não se limita a um relatório acadêmico: a expectativa é que os dados subsidiem novas normativas voltadas ao setor, discutidas tanto com a iniciativa privada quanto com o Ministério da Agricultura.
Ao conectar a experiência norueguesa em salmonicultura à realidade da tilapicultura paranaense, o projeto demonstra que soluções construídas em contextos distintos podem ser adaptadas com rigor técnico e produzir resultados relevantes. Para o produtor de tilápia no Paraná, o horizonte é uma cadeia com mais segurança sanitária, menos riscos produtivos e maior capacidade de acesso a mercados exigentes, nacionais e internacionais.




