Borboletas-monarca crescem 64% no México e acendem debate sobre o que ainda falta para salvar a espécie

Com 2,93 hectares ocupados no inverno de 2026, o avanço é o maior em quase uma década, mas a pressão do agronegócio, da crise climática e da inação política seguem como barreiras para a recuperação sustentável

Borboletas-monarca crescem 64% no México e acendem debate sobre o que ainda falta para salvar a espécie

A população de borboletas-monarca no México registrou crescimento de 64% no inverno de 2026 em relação ao ciclo anterior, segundo dados da WWF México. As colônias passaram de 1,79 hectare para 2,93 hectares de floresta ocupada, o maior nível desde 2018. O resultado representa um avanço concreto, mas não resolve o problema central: cientistas estimam que a espécie precisa ocupar pelo menos seis hectares para garantir sua sobrevivência a longo prazo. Ou seja, mesmo com o crescimento mais expressivo em quase uma década, a monarca ainda está na metade do caminho.

Todos os anos, milhões desses insetos percorrem cerca de 4.800 quilômetros do Canadá até as florestas de coníferas do centro do México, em uma das migrações mais longas e complexas do mundo animal. Esse percurso, repetido geração após geração, depende de uma cadeia de condições ecológicas que vem sendo sistematicamente comprometida em diferentes pontos da rota.

Herbicidas nos EUA e abacate no México: os dois lados da pressão sobre a espécie

Nos Estados Unidos, o uso intensivo de herbicidas como glifosato e dicamba reduziu drasticamente a presença da milkweed, planta nativa essencial para que as monarcas depositem seus ovos e para que as lagartas se alimentem durante o desenvolvimento. Sem essa planta, o ciclo reprodutivo da espécie fica comprometido antes mesmo de a migração começar. Consequentemente, a perda de milkweed nas áreas agrícolas norte-americanas é apontada por pesquisadores como um dos principais fatores por trás do declínio histórico das populações.

No México, a pressão vem de outra direção. O avanço do cultivo de abacate sobre áreas florestais, especialmente nos estados de Michoacán e México, tem degradado o habitat de invernada das monarcas. A expansão da fruticultura responde a uma demanda global crescente, porém avança sobre zonas de amortecimento e, em alguns casos, sobre áreas dentro da própria Reserva da Biosfera da Borboleta Monarca.

A reserva que resistiu ao desmatamento ilegal

Nesse contexto, os resultados do trabalho de conservação dentro da reserva se destacam. O desmatamento ilegal na área central caiu de cerca de 500 hectares registrados em 2003 e 2004 para apenas 2,55 hectares entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025, uma redução expressiva que reflete décadas de fiscalização, pressão institucional e envolvimento das comunidades locais.

“Um dos maiores êxitos desse trabalho é que o desmatamento ilegal na área central da reserva foi praticamente erradicado desde 2008”, afirmou María José Villanueva, diretora da WWF México. A declaração resume um processo que combinou monitoramento por satélite, parcerias com ejidos e cooperação entre governos estaduais e federal mexicanos. Aliás, esse resultado dentro da reserva é um dos argumentos mais sólidos de que políticas coordenadas e sustentadas produzem efeitos reais sobre a recuperação da espécie.

Quando a política atrasa a conservação

Por outro lado, a situação nos Estados Unidos revela um descompasso entre o avanço científico no diagnóstico do problema e a resposta institucional para enfrentá-lo. Uma proposta para classificar a borboleta-monarca oficialmente como espécie ameaçada no país foi adiada pelas autoridades federais, decisão que levou organizações ambientais a recorrer à Justiça para forçar uma revisão do processo.

“Seria imperdoável que essa migração colapsasse por falta de ação”, declarou Tierra Curry, do Center for Biological Diversity, organização que integra o grupo de entidades que acionou a Justiça norte-americana. A classificação como espécie ameaçada obrigaria agências federais a adotarem medidas concretas de proteção ao habitat e restringiria o uso de determinados agroquímicos em áreas críticas para a migração. Sem esse instrumento legal, a recuperação da espécie depende de iniciativas voluntárias que, historicamente, não têm sido suficientes para reverter o declínio.

Um crescimento real, mas ainda frágil

O número de 2,93 hectares ocupados em 2026 precisa ser lido com perspectiva histórica. Em 1995, as monarcas chegaram a ocupar mais de 18 hectares nas florestas mexicanas. O pico de destruição ocorreu em 2013 e 2014, quando a área chegou a menos de 0,7 hectare, o menor registro desde que o monitoramento sistemático começou. O crescimento recente é, portanto, uma recuperação parcial de uma espécie que já chegou ao limite crítico, e não um sinal de que o problema foi resolvido.

A dependência da monarca de três países ao longo de sua rota migratória exige coordenação política que vai além de medidas pontuais. Programas de restauração de milkweed nos Estados Unidos, controle efetivo da expansão agrícola sobre a reserva no México e manutenção de corredores ecológicos no Canadá precisam avançar de forma simultânea. O crescimento de 64% registrado neste inverno indica que a espécie responde quando as condições melhoram. O desafio, agora, é garantir que essas condições se mantenham por tempo suficiente para que a recuperação seja duradoura.

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