O mês de março se encerrou com um movimento que chamou a atenção do mercado cafeeiro: o café arábica voltou a se valorizar, mesmo diante de projeções favoráveis para a safra brasileira 2026/27. A reação das cotações surpreende porque, na lógica tradicional, boas perspectivas de produção tendem a pressionar os preços para baixo. O que sustentou a alta, contudo, foi a combinação entre oferta física ainda limitada e um ambiente geopolítico que continua gerando incerteza nos mercados internacionais de commodities.
Segundo pesquisadores do Cepea, a valorização do arábica em março foi forte o suficiente para superar até mesmo o efeito negativo das estimativas positivas de colheita no Brasil. Ou seja, o mercado operou olhando mais para o presente — com pouco produto disponível — do que para o que pode chegar entre maio e junho, quando a colheita 2026/27 deve ganhar ritmo.
A próxima colheita de arábica no Brasil carrega um peso simbólico e econômico considerável. A expectativa é de que seja a primeira safra recorde após cinco temporadas consecutivas em que a produção ficou abaixo do potencial produtivo das principais regiões cafeeiras do país, afetadas por eventos climáticos adversos que se repetiram ao longo dos ciclos. Esse histórico de frustrações acumuladas é parte da razão pela qual a oferta atual segue apertada, sustentando os preços mesmo em um momento em que o mercado começa a precificar o volume que virá.
Aliás, é justamente esse equilíbrio delicado entre o estoque presente e a perspectiva futura que define o comportamento do arábica agora. A colheita 2026/27 promete, mas ainda não chegou. E enquanto não chega, os preços seguem respondendo ao que está disponível — e não ao que está projetado.
O cenário para o café robusta seguiu direção oposta ao longo de março. A variedade operou em queda durante boa parte do mês, pressionada por uma oferta relativamente mais farta em comparação ao arábica e, principalmente, pela proximidade da colheita da temporada 2026/27, cujos volumes devem começar a entrar no mercado entre abril e maio.
A lógica é clara: quando o mercado antecipa que novos lotes estão prestes a ser disponibilizados, os compradores reduzem a urgência de fechar negócios no presente, o que enfraquece as cotações. Consequentemente, vendedores passam a aceitar preços mais baixos para girar o estoque atual antes que a pressão da safra nova se intensifique.
O comportamento divergente entre arábica e robusta em março evidencia como o calendário agrícola brasileiro funciona como um termômetro direto das cotações. Para o arábica, o intervalo entre a escassez atual e a colheita que se avizinha ainda sustenta os preços. Para o robusta, esse intervalo já está curto o suficiente para pesar sobre o mercado.
A tendência para os próximos meses aponta para um cenário de maior pressão sobre o robusta à medida que os volumes da safra 2026/27 começarem a circular. Para o arábica, a trajetória dependerá do ritmo e do volume efetivo da colheita, que deve ganhar força entre maio e junho e colocar à prova o otimismo que hoje ainda sustenta as cotações.



