A cachaçaria mais ao sul do Brasil fica a 230 km do Uruguai e já ganhou medalha

O Rio Grande do Sul lidera a produção nacional de melado e abriga destilarias que exportam para mais de 30 países, provando que o frio gaúcho não é obstáculo para a cana

A cachaçaria mais ao sul do Brasil fica a 230 km do Uruguai e já ganhou medalha

Com apenas três anos de atuação formal, a Destilaria Alto da Cruz já coleciona premiações. Em 2025, os licores da agroindústria conquistaram uma medalha de prata e outra de bronze no Brasil Cup, um dos principais concursos nacionais de avaliação sensorial de bebidas. Mas, antes mesmo de qualquer troféu, o empreendimento já carregava um título incomum: é a cachaçaria mais ao sul do Brasil, instalada no interior de Canguçu, no Rio Grande do Sul, a 230 quilômetros da fronteira com o Uruguai.

A distância geográfica das regiões Sudeste e Nordeste — historicamente associadas à cana-de-açúcar — seria, para muitos, um argumento suficiente para desistir da ideia. Para Mateus Ribeiro Camargo e Débora Severo, foi exatamente o contrário.

Um estado que lidera onde ninguém espera

A produção de cana no Rio Grande do Sul surpreende quem olha apenas para os números de área plantada. O estado concentra apenas 0,11% dos canaviais brasileiros — uma fatia quase invisível diante dos gigantes do setor. No entanto, segundo o Censo Agropecuário de 2017 (último dado disponível do IBGE), o Rio Grande do Sul tem o maior número de fábricas de melado do Brasil: 14.412 agroindústrias dedicadas à produção desse derivado da cana, um número quase cinco vezes superior ao de Santa Catarina, segundo colocado no ranking, com 3.221 estabelecimentos.

A explicação para essa aparente contradição está no modelo produtivo gaúcho. Enquanto os grandes estados produtores direcionam suas lavouras a usinas de etanol e açúcar em escala industrial, o Rio Grande do Sul construiu uma tradição baseada em pequenas propriedades familiares, onde a cana se transforma em melado, açúcar mascavo, rapadura e cachaça. São produtos de menor volume, mas de maior valor agregado por hectare — e com um mercado local consolidado que sustenta milhares de famílias.

Em relação às cachaçarias, o estado ocupa a terceira posição nacional, com 591 indústrias, atrás de Minas Gerais (5.512) e Bahia (2.890). Uma presença relevante para um território que, pelo clima, não deveria estar nessa conversa.

Como o frio vira aliado

A pergunta mais óbvia sobre a cultura da cana gaúcha é também a mais pertinente: como uma planta tropical sobrevive — e produz bem — em um estado conhecido pelos invernos rigorosos? A resposta está na diversidade de microclimas do território e, em parte, no próprio frio que, em intensidade moderada, favorece a maturação da cana.

Algumas regiões do litoral gaúcho abrigam canaviais desde o início da colonização portuguesa, no século XVIII. A cultura nunca desapareceu do estado; ela apenas encontrou seu espaço entre as condições disponíveis. Sérgio Delmar dos Anjos, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, lidera desde 2006 um projeto dedicado ao desenvolvimento de variedades mais produtivas e adaptadas ao clima e solo gaúchos. O trabalho resultou em cultivares que chegam a 120 toneladas por hectare em experimentos conduzidos em Machadinho, no norte do estado, enquanto a média regional gira entre 80 e 90 toneladas.

Mateus Ribeiro Camargo e Débora Severo, proprietários da Destilaria Alto da Cruz — Foto: Arquivo pessoal

O caso da Destilaria Alto da Cruz ilustra bem esse potencial. Mateus e Débora cultivam apenas 3,5 hectares de cana e colhem cerca de 400 toneladas por ano, suficientes para produzir em torno de 4.000 litros de bebidas. A propriedade mantém ainda um rebanho de 70 vacas com produção mensal de 40.000 litros de leite, mas é o comércio das bebidas que representa hoje a principal fonte de renda do casal. A cana chegou à fazenda como alternativa ao milho, cujo preço havia disparado, e ficou por conta de uma história de mais de 100 anos de produção artesanal de cachaça na região.

Variedade nova, qualidade melhor

Em Restinga Seca, na região central do estado, a Agroindústria Puppe trilhou um caminho parecido. Leci e Vitor Puppe cultivavam variedades antigas de cana que cresciam bem, mas não produziam um melado de qualidade satisfatória. Em 2017, receberam da Embrapa uma das primeiras mudas das novas cultivares desenvolvidas para o estado. A diferença foi imediata.

“Era uma variedade que dava bom resultado e produzia um melado de melhor qualidade, e ainda usamos até hoje”, conta Leci. Com 3,5 hectares de cana, o casal fabrica cerca de 6.000 quilos de melado e 1.000 quilos de açúcar mascavo por ano — toda a produção vendida em uma única feira de agricultores do município, sem participação em grandes eventos, com clientela fiel construída pela qualidade do produto.

A história dos Puppe sintetiza o modelo gaúcho: escala pequena, valor agregado alto, mercado local sólido. Um hectare bem manejado de cana destinado a uma agroindústria de melado pode gerar até R$ 20.000 de renda, uma margem difícil de alcançar com grãos, considerando os custos de produção envolvidos.

A resistência depois das águas

Nem todas as histórias da cana gaúcha seguem um caminho linear. Em Candelária, Givanildo Vidal de Souza e Maria Elisa Hennig perderam praticamente tudo nas enchentes de 2024. Um deslizamento de terra atingiu a fábrica e as casas da propriedade. Os 12 hectares de cana-de-açúcar foram arrasados pela enxurrada, que levou junto a terra cultivável, transformando o terreno em cascalho.

Givanildo Vidal de Souza e Maria Elisa Hennig, de Candelária (RS): o casal está retomando a produção de melado e açúcar mascavo após perder a agroindústria nas enchentes de 2024 — Foto: Arquivo pessoal

“Perdemos tudo o que demoramos 20 anos para conquistar”, resume Givanildo. O casal chegou a cogitar encerrar as atividades e passou a criar gado de corte para recuperar renda. Com o incentivo da Emater, voltaram à produção. Instalaram a agroindústria em um antigo galpão e retomaram o cultivo em quatro hectares, com planos de ampliar a área no próximo ano. A produção mensal, que superava 4.000 quilos antes das enchentes, hoje oscila entre 2.000 e 3.000 quilos de melado, açúcar mascavo, rapadura e puxa-puxa, comercializados em feiras locais.

Da tradição familiar à vitrine global

Se a Alto da Cruz e os Puppe representam o dinamismo da produção familiar gaúcha, a Weber Haus representa sua capacidade de alcançar escala e excelência internacional. Com mais de 150 premiações nacionais e internacionais e presença em mais de 30 países, a empresa é responsável por uma das cachaças mais caras do Brasil: a Weber Haus Diamant 21 Anos, cuja garrafa de 750 ml custa R$ 15.848. A edição limitada, de apenas 1.000 unidades, traz um diamante de 3,65 milímetros incrustado no vidro e reúne seis anos de envelhecimento em barris de carvalho e outros 15 em barris de bálsamo.

Com mais de 80 tipos de bebidas para comercialização, a Weber Haus produziu 480.000 litros de destilados em 2025 — Foto: Divulgação

A trajetória da família começa na Alemanha. Os Weber chegaram ao Brasil em 1824, instalaram-se no Vale do Rio dos Sinos trazendo a tradição do schnapps e migraram para a cana em 1848. A empresa foi fundada oficialmente em 1948 por José Weber, sob o nome de Cachaça Primavera. Após a morte do fundador, em 1999, seu neto Evandro Weber descobriu que a marca já estava registrada por outra empresa e precisou renomear o negócio — escolhendo o próprio sobrenome da família como nova identidade.

Sob o comando de Evandro, a destilaria adotou em 2004 a rastreabilidade integral do processo produtivo, do preparo do solo ao engarrafamento, tornando-se uma das primeiras cachaçarias do Brasil a implementar o sistema. A decisão abriu portas em feiras e exposições internacionais e consolidou a reputação da marca. Em 2025, a Weber Haus produziu 480.000 litros de destilados, com o mercado externo — liderado pelos Estados Unidos — respondendo por 28% das vendas.

Toda a cana utilizada pela empresa vem de duas lavouras próprias: uma de 48 hectares em Presidente Lucena e outra de 18 hectares em Ivoti, ambas cultivadas em sistema orgânico, sem agrotóxicos ou fertilizantes sintéticos. A produtividade média chega a 105 toneladas por hectare, acima da média nacional de 75 toneladas, com picos de até 170 toneladas em anos favoráveis.

A empresa está em franca expansão. Um investimento de R$ 80 milhões está sendo aplicado na construção de uma nova fábrica em Presidente Lucena, com mais de 7.000 metros quadrados. A planta, prevista para entrar em operação no fim de 2027, será até dez vezes maior que a atual e deve ampliar em 15 vezes a capacidade produtiva, contando ainda com biorrefinaria própria e aproveitamento integral de resíduos.

O avanço da soja e o espaço que ainda existe

Apesar do vigor das histórias individuais, a área total de cana no Rio Grande do Sul encolheu 40,5% entre 2015 e 2024, passando de 19.508 para 11.605 hectares. O avanço da soja responde por grande parte desse recuo, atraindo produtores com cotações agressivas — embora com custo de produção proporcionalmente mais alto do que o da cana para quem opera com agroindústria própria.

Os trabalhos de pesquisa da Embrapa e da Emater seguem como antídoto a essa tendência, desenvolvendo cultivares mais produtivas e resistentes, e levando resultados concretos aos produtores rurais do estado. O campo experimental de Machadinho é um exemplo desse esforço contínuo: as variedades testadas ali já demonstram produtividade 33% a 50% acima da média regional, e as mudas estão sendo multiplicadas nas propriedades da região.

A cana gaúcha não compete em escala com o Centro-Sul do país. Mas, no território que ocupa, gera renda onde outros cultivos não alcançam, sustenta famílias que de outra forma migrariam para atividades menos lucrativas e produz, às vezes a 230 quilômetros da fronteira com o Uruguai, bebidas que chegam a gôndolas de mais de 30 países.

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