No Bar do Dante, em um bairro nobre de Curitiba, uma rã inteira à milanesa com molho especial da casa é um dos pratos mais pedidos da semana. Sucesso há mais de duas décadas no cardápio, a iguaria tem carne branca, macia e sabor suave, que conquista até quem chega sem expectativa. O empresário Dante Luiz Manfron serve o anfíbio desde 2002 e hoje mantém duas opções no menu: a rã inteira e a versão a passarinho, com preços entre R$ 40 e R$ 90 por porção. O custo, porém, pesa. Manfron paga entre R$ 90 e R$ 110 o quilo junto a fornecedores do Paraná e de Santa Catarina.
A cena no restaurante curitibano resume bem a lógica de um mercado que cresce pela demanda, mas ainda tropeça na oferta. Os dados disponíveis sobre a ranicultura brasileira são escassos, mas a Embrapa estima que a produção nacional precisaria crescer cerca de três vezes para atender ao consumo interno. O último levantamento do IBGE, referente a 2017, registrou 129,3 mil toneladas produzidas no país, número que, segundo especialistas do setor, não reflete o potencial real da atividade nem o crescimento observado nos anos seguintes.
Desequilíbrio entre oferta e demanda
Wilson Luiz Cantieri conhece essa equação há 33 anos. Proprietário do Ranário Santa Clara, em Santa Isabel (SP), ele é categórico ao descrever o mercado brasileiro: alta demanda, pouca oferta e estoque que não para. “A gente não fica com produto parado”, afirma. A produção do Santa Clara chega a três toneladas de rãs por mês, volume que, ainda assim, não consegue atender à totalidade dos pedidos que chegam.
Cantieri, porém, não esconde que a criação impõe desafios técnicos relevantes. O manejo varia conforme a fase de crescimento do animal, a qualidade da água exige monitoramento constante e o estresse do confinamento é um fator real. “A rã é pré-histórica, não está acostumada ao confinamento”, diz o produtor, resumindo em uma frase a complexidade do sistema de criação intensiva.
O ciclo produtivo da espécie mais cultivada no Brasil, a rã-touro de origem norte-americana, vai do girino ao abate em até 12 meses. Para chegar ao ponto de comercialização, o animal precisa atingir entre 300 e 500 gramas. No varejo, o produto é encontrado em diferentes formatos: carcaça inteira, coxa de rã ou carne desfiada, o que amplia as possibilidades de uso tanto no foodservice quanto no consumo doméstico.
Novo produtor, nova região
O desequilíbrio entre oferta e demanda já chamou a atenção de quem está fora dos polos tradicionais de produção. Bruno Lotti, de Nova Aurora, no Paraná, cidade conhecida como capital nacional da piscicultura, deu início à criação de rã-touro para abate comercial em um projeto pioneiro na região. A entrada na ranicultura veio da necessidade de diversificar a produção. “Eu buscava uma atividade para diversificar a produção, e a criação de rãs foi uma boa alternativa”, conta Lotti, que investiu R$ 100 mil no projeto.
O sistema exige controle rigoroso das condições ambientais. Para os girinos, a temperatura da água deve ficar entre 24°C e 28°C; para os adultos, pode chegar a 35°C. A produção atual é de 35 mil girinos, com meta de ampliar para 50 mil já no próximo ciclo. Para Lotti, o potencial da atividade justifica o investimento e o aprendizado técnico que a acompanha.
O que a Embrapa projeta para a cadeia
A Embrapa Agroindústria de Alimentos, no Rio de Janeiro, lidera o projeto Ranicultura em Rede, iniciativa que reúne mais de 500 membros entre pesquisadores, produtores e empresários do setor, com o objetivo de estruturar e fortalecer a cadeia produtiva. André Cribb, pesquisador responsável pelo projeto, resume bem o cenário atual: “Há um desequilíbrio mercadológico na cadeia e acreditamos que a ranicultura representa uma grande oportunidade para o produtor”.
Cribb aponta que o Brasil reúne condições naturais favoráveis à criação, especialmente da rã-touro. Além da carne, a atividade gera outros subprodutos com valor comercial: o óleo do animal é utilizado na indústria de cosméticos e a pele tem aplicação em tratamentos para queimaduras. A Embrapa também desenvolveu derivados processados em laboratório, como patês, conservas, salsichas e hambúrguer de carne de rã, produtos que já podem ser encontrados em estabelecimentos especializados e que ampliam as possibilidades de mercado para o produtor.
Do ponto de vista nutricional, pesquisadores que participam da iniciativa destacam o alto teor proteico da carne, combinado a níveis reduzidos de gordura e colesterol, características que posicionam a rã como alternativa interessante dentro de um mercado consumidor cada vez mais atento à qualidade da proteína.
Política pública como alavanca
No plano institucional, o setor aguarda a consolidação do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura, atualmente em consulta pública. André Muniz Afonso, chefe da Divisão de Fomento à Aquicultura no Ministério da Pesca e Aquicultura, vê no documento um marco para a atividade. “A ranicultura é uma das cadeias que participaram ativamente da construção do plano”, afirma Afonso, que também aponta o crescimento da infraestrutura de processamento como sinal positivo: o Brasil conta hoje com oito frigoríficos habilitados para o processamento de carne de rã, com outros em fase de implantação.
A produção brasileira está concentrada nas regiões Sudeste e, em menor escala, no Sul. No cenário internacional, o Brasil ocupa posição de destaque, estimada na quinta colocação mundial. A liderança é da China, com produção anual superior a 1 milhão de toneladas, seguida por Taiwan, Indonésia e Vietnã. A distância entre o Brasil e os países asiáticos líderes não é apenas de volume, mas de organização da cadeia, acesso a crédito e políticas setoriais consistentes.
O caminho para triplicar a produção nacional, como projeta a Embrapa, passa necessariamente por mais produtores dispostos a entrar na atividade, mais frigoríficos aptos a processar o volume e políticas de crédito adequadas à realidade da ranicultura. Quem já está dentro do mercado, como Cantieri e Lotti, sabe que o produto não falta comprador. O que falta, por enquanto, é rã.




