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Casca de camarão vira aliada da produção de etanol sustentável

Com potencial antifúngico e biodegradável, a quitosana surge como alternativa ao uso do ácido sulfúrico em biorrefinarias

Revisão: Derick Machado
12 de maio de 2026
in Tecnologia Rural
Casca de camarão vira aliada da produção de etanol sustentável

A solução para tornar a produção de etanol mais segura e ambientalmente responsável pode estar nos oceanos — ou melhor, nos resíduos que vêm deles. Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no campus de Araras (SP), revelou o potencial da quitosana, uma substância extraída do exoesqueleto de crustáceos, como o camarão, para substituir o ácido sulfúrico em processos industriais. Essa descoberta, além de inovadora, propõe uma nova lógica para o uso de resíduos que antes eram descartados e agora ganham protagonismo na bioeconomia.

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A pesquisa, conduzida durante o doutorado de Isabella Carvalho Tanganini e orientada pela professora Sandra Regina Ceccato Antonini, foi pensada inicialmente como resposta a um problema prático enfrentado pelas usinas de etanol no Brasil: a escassez de ácido sulfúrico durante a pandemia. “Esse produto, usado como antimicrobiano nas etapas de fermentação do etanol, tornou-se difícil de encontrar. Foi quando vislumbramos o uso da quitosana, já conhecida na vinificação, como alternativa promissora”, explica Sandra.

Além de cumprir a função antimicrobiana, a quitosana se destaca por ser biodegradável, menos tóxica e não corrosiva, o que representa ganhos tanto em segurança quanto em impacto ambiental. O diferencial da pesquisa da UFSCar está na forma de obtenção da substância: em vez dos métodos químicos tradicionais, as cientistas utilizaram melaço de cana, subproduto da própria cadeia sucroalcooleira, como meio para a fermentação dos resíduos de camarão. Assim, conseguiram extrair a quitina — e, posteriormente, transformá-la em quitosana — de maneira mais sustentável.

Etanol mais limpo e agricultura mais protegida

A quitosana, já utilizada pela indústria farmacêutica e de alimentos, demonstrou na pesquisa eficiência antifúngica contra agentes que afetam a produção agrícola, como Fusarium e Alternaria. Esse achado amplia ainda mais as possibilidades de uso da substância, que pode atuar como biopesticida, oferecendo uma alternativa natural ao controle químico de pragas.

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“Estamos diante de uma molécula extremamente versátil. Além de substituir compostos agressivos nas usinas, a quitosana pode proteger lavouras e melhorar a qualidade do solo”, aponta a pesquisadora Isabella Tanganini. Ela destaca que, em uma fase mais recente da pesquisa, a equipe começou a desenvolver nanopartículas de quitosana, o que deve aumentar ainda mais sua eficácia em diferentes aplicações industriais e agrícolas.

Da bancada ao campo: testes em escala real e potencial industrial

A aceitação da quitosana pelas usinas produtoras de etanol já está em curso. Segundo a professora Sandra Antonini, parcerias com plantas industriais estão sendo formadas para testar a substância em ambientes reais, com as leveduras específicas de cada local. O estado de São Paulo, que responde por até 40% da produção nacional de etanol, desponta como campo fértil para a aplicação da tecnologia.

“Estamos validando a quitosana em condições reais, testando sua eficiência antimicrobiana com as bactérias presentes nas fermentações industriais. O objetivo é converter essa inovação em um produto comercialmente viável”, afirma Sandra.

Além disso, há disponibilidade de resíduos de camarão em larga escala, sobretudo em zonas portuárias como Santos, o que favorece a adoção do modelo em grande escala. “Esses resíduos podem ser obtidos em parceria com indústrias pesqueiras. E caso haja limitações, até as leveduras utilizadas nas fermentações de etanol podem ser fonte de quitina”, completa a pesquisadora.

Via: Fonte: Agro/Estadao
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