Colheita de pinhão cai 32% na Serra Catarinense, mas mercado aponta para valorização do produto

Com produção estimada em 3,7 mil toneladas para 2026, a lei da oferta e da demanda deve pressionar os preços para cima e manter a renda dos extrativistas da região serrana

Colheita de pinhão cai 32% na Serra Catarinense, mas mercado aponta para valorização do produto

Foto: Pablo Gomes/Epagri

A partir do dia 1º de abril, Santa Catarina abre mais uma temporada de colheita de pinhão. A Serra Catarinense, coberta por extensas florestas de araucária, concentra a maior produção do Estado e, mais uma vez, está no centro das atenções de quem vive dessa atividade. A expectativa para 2026, porém, é de uma safra significativamente menor: a previsão é de 3,7 mil toneladas, volume 32% abaixo das 5,4 mil toneladas colhidas em 2025 nos 18 municípios da região serrana.

A queda, por si só, é preocupante. Contudo, o comportamento do mercado tende a compensar parte desse recuo, já que a menor oferta deve pressionar os preços para cima ou, ao menos, sustentá-los nos patamares de 2025, quando o quilo pago ao produtor ficou na média de R$ 6,44. Para as 10 mil famílias rurais que dependem do pinhão como parte relevante da composição de renda, essa equação faz toda a diferença no fechamento do balanço anual.

Serra Catarinense concentra produção e famílias dependentes da semente

Das 34 mil famílias rurais cadastradas pelo IBGE em toda a Serra Catarinense, cerca de 30% têm no pinhão uma fonte direta de renda, seja de forma principal ou complementar. Em 2025, a atividade movimentou mais de R$ 32 milhões na região, o que demonstra o peso econômico real da cultura extrativista para os municípios serranos.

Aliás, o pinhão não é apenas um produto comercial — carrega identidade cultural e está diretamente ligado ao modo de vida das populações que habitam o entorno das florestas de araucária. A colheita envolve famílias inteiras, mobiliza comunidades e gera renda num período específico do ano em que outras atividades agropecuárias costumam estar em compasso de espera.

A Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) acompanha de perto os dados da safra junto aos municípios e presta suporte técnico direto aos extrativistas. “Em 2025, a colheita já havia sido menor em relação a 2024. E agora deve cair novamente. Em contrapartida, os valores pagos aos extrativistas deve compensar esta queda. Por isso, a Epagri acompanha os dados juntos aos municípios e oferece apoio técnico aos produtores para que possam aproveitar o máximo possível da safra, com segurança na colheita e qualidade na venda”, afirma José Márcio Lehmann, gerente regional da Epagri em Lages.

Queda consecutiva acende sinal de atenção para a safra

O recuo de 2026 não é um evento isolado. A safra de 2025 já havia registrado volume inferior ao de 2024, o que coloca 2026 como o segundo ano consecutivo de queda na produção. Essa tendência, ainda que influenciada por fatores naturais relacionados ao ciclo produtivo da araucária, exige atenção redobrada na gestão da comercialização e na qualidade do produto entregue ao mercado.

O ciclo de produção da araucária é reconhecidamente irregular. A árvore alterna anos de alta e baixa produção de pinhões, comportamento que os pesquisadores associam a fatores climáticos e à própria biologia da espécie. Consequentemente, os extrativistas já convivem com essa variabilidade, mas dois anos seguidos de queda tornam a organização da venda ainda mais estratégica.

Nesse contexto, a qualidade do pinhão colhido passa a ter peso maior na formação do preço final. Produto bem manejado, colhido no ponto correto e armazenado adequadamente tende a alcançar cotações superiores, especialmente junto a compradores que abastecem mercados urbanos e redes de supermercados fora da região serrana.

Preço como variável de equilíbrio para o produtor

A dinâmica de preços no mercado do pinhão segue, em boa medida, a clássica relação entre oferta e demanda. Com menos produto disponível em 2026, a tendência natural é de que os compradores paguem mais pelo quilo, o que pode preservar ou até elevar a receita total dos extrativistas, mesmo com volume menor para vender.

Além disso, o pinhão tem uma demanda razoavelmente fiel, especialmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, onde o consumo da semente é tradicional e sazonal. Restaurantes, feiras, mercados e consumidores domésticos buscam o produto no período da safra, e a escassez historicamente favorece a valorização do preço no atacado e no varejo.

O suporte técnico oferecido pela Epagri nesse período tem justamente o objetivo de orientar os produtores para que convertam a menor quantidade colhida em maior valor recebido, evitando perdas pós-colheita e qualificando o produto para mercados mais exigentes e mais bem remunerados.

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