Às 3h30 da madrugada, enquanto Brusque ainda dorme, Ademir Petermann já está em movimento. O caminhão de 11 toneladas sai carregado de vidros de conserva com destino a mercados, sacolões, mercearias e instituições públicas da cidade. Quando volta, por volta das seis da manhã, ele troca o volante pela enxada e vai para a roça verificar o desenvolvimento das mudas, corrigir a adubação e planejar a colheita do dia seguinte. É essa rotina que sustenta, há quase três décadas, uma das histórias mais consistentes da agricultura familiar catarinense.
A Conservas Petermann nasceu em 1996, numa área de apenas 50m², quando Anselmo Petermann decidiu abrir a própria fábrica depois que a indústria que comprava seus legumes fechou as portas. Três anos depois, Anselmo faleceu prematuramente, e os filhos Valdecir, hoje com 54 anos, e Ademir, com 60, assumiram a empresa sem hesitar. O que poderia ter sido o fim da história acabou se tornando o começo de uma trajetória que hoje movimenta 25 mil vidros de conserva por mês e abastece 66 escolas municipais de Brusque com chucrute e polpa de maracujá, via Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
A volta da Epagri e o que ela mudou
Por 15 anos, Brusque ficou sem a atuação da Epagri, a empresa de extensão rural e pesquisa agropecuária de Santa Catarina. Quando o trabalho de extensão foi retomado, em 2025, o impacto foi imediato para os Petermann. A parceria viabilizou a regularização ambiental, orientou a produção e abriu caminhos para o fornecimento institucional que a empresa não conseguia acessar sozinha.
“A Epagri fez muita falta aqui para nós. Foi através dos projetos da Epagri que a gente adquiriu trator, legalizou a questão ambiental e ajudou a direcionar a produção de pepino para uma indústria de conservas nos anos 1990”, conta Valdecir Petermann, responsável pela parte administrativa da empresa.
O acesso ao PNAE foi um dos resultados mais concretos dessa retomada. Além das 66 escolas de Brusque, a Conservas Petermann passou a fornecer frutas e suco concentrado de uva para o Instituto Federal Catarinense, que mantém campus na cidade. A empresa também abastece Guabiruba, município vizinho, com hortaliças in natura destinadas tanto à merenda escolar quanto às cestas distribuídas para famílias cadastradas no CadÚnico, pelo Programa de Aquisição de Alimentos do governo federal.
Cinco hectares que sustentam tudo
O que diferencia a Conservas Petermann de boa parte das agroindústrias familiares é o grau de autossuficiência. A maior parte da matéria-prima processada na fábrica vem da própria propriedade, onde cinco hectares são cultivados com brócolis, berinjela, repolho, beterraba, pepino, vagem, cebola para aperitivo, couve-flor e raiz forte. Esse tubérculo picante, semelhante ao wasabi japonês, é mais uma herança gastronômica dos ancestrais alemães que colonizaram a região do Vale do Itajaí.
Apenas alguns produtos fogem dessa lógica: ovos de codorna, palmito e mel são adquiridos de agricultores locais, o que mantém a cadeia produtiva dentro da própria comunidade. A fábrica cresceu de 50m² para 400m² e o portfólio passou das três conservas originais (pepino, beterraba e palmito) para 12 tipos diferentes, incluindo o carro-chefe, o pepino, comercializado inteiro, fatiado e na versão agridoce.
“O pai decidiu abrir a fábrica quando a indústria que comprava os legumes fechou as portas e, para isso, fizemos alguns investimentos, como adquirir um tacho de inox para ferver as conservas”, relembra Valdecir, descrevendo a origem de uma decisão que moldou o futuro da família.
Chucrute na escola e o que isso representa
Colocar o chucrute na merenda escolar vai além de um contrato de fornecimento. É um ato de preservação cultural e nutricional ao mesmo tempo. O repolho fermentado, acompanhamento clássico do marreco recheado que é o prato símbolo da Fenarreco, a festa mais tradicional de Brusque, é também um probiótico natural com comprovado impacto na saúde gastrointestinal. Levar esse alimento para a rotina das crianças da cidade é, de alguma forma, garantir que a próxima geração conheça e valorize o que os imigrantes europeus trouxeram ao Sul do Brasil.
O hábito de conservar alimentos tem raiz prática e histórica. Quando os imigrantes alemães chegaram a Santa Catarina, precisavam prolongar a vida útil do que produziam durante a safra para atravessar os rigorosos meses de inverno. Os vegetais viraram picles, as frutas se transformaram em geleias e sucos concentrados, as pimentas eram guardadas em azeite e vinagre. Nada se desperdiçava. Essa lógica sobreviveu às gerações e hoje se traduz em 12 tipos de conservas produzidas por uma família que nunca abandonou suas raízes.
Sustentabilidade que começa na embalagem
Nem só de tradição vive a empresa. Quem leva o vidro vazio de volta à fábrica, localizada na localidade de Cristalina, em Brusque, garante desconto no próximo produto: R$ 0,50 para o vidro de 300g e R$ 4,00 para o de 1,8 kg. A Conservas Petermann também compra vidros reciclados de terceiros por R$ 0,25 a unidade. É um modelo simples de economia circular que reduz custos, diminui o descarte e cria um vínculo concreto entre consumidor e produtor.
A modernização da logística veio junto. O caminhão de 11 toneladas, adquirido pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf Mais Alimentos), ampliou a capacidade de entrega e permitiu que a empresa atendesse com mais regularidade o volume crescente de contratos institucionais. É a política pública funcionando como alavanca, e não como muleta.
Quem quiser conhecer a propriedade ou adquirir os produtos pode acessar o perfil da empresa no Instagram: @conservas.petermann.
