Espalhados por uma área equivalente ao território da Grã-Bretanha, cerca de 200 milhões de montículos de terra vermelha pontuam a paisagem semiárida do Nordeste brasileiro. À primeira vista, parecem apenas mais um elemento da Caatinga. Datações realizadas por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) revelaram que muitas dessas estruturas têm entre 690 e 3.820 anos, construídas continuamente por uma única espécie de cupim: a Syntermes dirus.
A descoberta, publicada na revista científica Current Biology, reposicionou o Brasil no mapa das grandes engenharias naturais do planeta. O volume total de terra movimentada por esses insetos ao longo de milênios é estimado em 10 bilhões de metros cúbicos, quantidade comparável às pirâmides do Egito multiplicadas por milhares. Contudo, ao contrário do que se imagina, esses montículos não são colônias ativas. São, na verdade, o resíduo acumulado de uma atividade constante de escavação que continua acontecendo sob a superfície.
Os montículos não são ninhos — são descarte de uma cidade invisível
O equívoco mais comum sobre os cupinzeiros do Nordeste é tratá-los como habitações. Os montículos cônicos da Syntermes dirus, com até três metros de altura e nove metros de diâmetro, são formados pelo material escavado durante a construção de um sistema de túneis subterrâneos que se estende horizontalmente por dezenas de metros abaixo do solo. A colônia vive e opera nessa rede invisível, usando os montículos apenas como depósito do excesso de terra.
Essa distinção é fundamental para entender a longevidade das estruturas. Como os montículos não abrigam a rainha nem os ovos, não precisam ser habitados continuamente. A colônia pode se deslocar, dividir ou até desaparecer, e o montículo permanece, compactado e resistente à erosão, acumulando camadas ao longo de séculos. Por isso, uma estrutura com 3.820 anos não significa que a mesma colônia está ativa há quase quatro milênios, mas sim que aquele ponto do solo foi continuamente trabalhado por sucessivas gerações de cupins ao longo de toda essa extensão temporal.
A densidade dessas estruturas no Nordeste é impressionante. Em algumas regiões dos estados do Piauí, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, chegam a ocorrer até 20 montículos por hectare, distribuídos de forma aparentemente aleatória, mas com espaçamento que, visto de cima, lembra um padrão regular, o que levou pesquisadores a investigar se há algum mecanismo de territorialidade envolvido na disposição espacial das colônias.
Como os cupins transformam o solo da Caatinga
A atividade subterrânea da Syntermes dirus produz efeitos diretos e mensuráveis na qualidade física e química do solo. Os túneis horizontais funcionam como canais de infiltração, permitindo que a água da chuva penetre com mais velocidade e profundidade, reduzindo o escoamento superficial e a erosão. Em um bioma onde a chuva é escassa, concentrada em poucos meses e frequentemente intensa, essa capacidade de absorção representa uma diferença significativa no balanço hídrico do terreno.
Além disso, o material trazido à superfície durante a escavação é uma mistura de camadas do solo que normalmente não se comunicam. Ao depositar esse material nos montículos, os cupins promovem uma forma de bioturbação, redistribuindo minerais, matéria orgânica decomposta e microrganismos entre profundidades distintas. Consequentemente, os solos ao redor dos montículos apresentam concentrações maiores de nutrientes como potássio, fósforo e magnésio em comparação com áreas sem a presença das estruturas.
Pesquisas de campo indicam que a vegetação próxima aos cupinzeiros tende a ser mais densa e diversificada. As plantas aproveitam tanto os nutrientes redistribuídos quanto a maior disponibilidade de água, criando pequenos núcleos de maior fertilidade dentro de uma paisagem que, de modo geral, é conhecida pela pobreza dos solos. Dessa forma, os cupins atuam como engenheiros ecossistêmicos, modificando o ambiente físico ao seu redor de maneira que beneficia outras espécies, inclusive plantas de interesse agrícola e forrageiro.
A Caatinga mais velha do que parece
O que as datações dos cupinzeiros revelam vai além da biologia dos insetos. Elas indicam que a Caatinga, frequentemente descrita como um bioma degradado ou secundário, possui uma história ecológica muito mais longa e estável do que os registros superficiais sugeriam. Para que estruturas como essas se acumulem e se preservem por quase quatro milênios, é necessário que o ambiente ao redor permaneça relativamente constante, sem grandes perturbações que destruíssem os montículos ou suprimissem as populações responsáveis por construí-los.
Isso significa que vastas extensões do semiárido nordestino passaram por milênios de ocupação contínua por esses insetos, moldando lentamente as características do solo que os agricultores e pecuaristas encontram hoje. A fertilidade localizada ao redor dos montículos, a estrutura porosa do subsolo, a distribuição de certas espécies vegetais nativas, tudo isso carrega a marca de um processo que começou muito antes da chegada dos primeiros colonizadores europeus.
Por isso, a presença dos cupinzeiros em uma propriedade rural não é, como muitos produtores ainda acreditam, sinal exclusivo de problema. Em solos de Caatinga, ela é, antes de tudo, um registro de continuidade ecológica, indicando que aquela área manteve condições ambientais estáveis o suficiente para sustentar colônias ativas ao longo de gerações.
O que o produtor rural precisa saber sobre cupins e solo
A distinção entre cupins que atacam estruturas de madeira e culturas — problema real e economicamente relevante — e cupins construtores de montículos como a Syntermes dirus é pouco conhecida fora do meio científico. Enquanto espécies como Nasutitermes e Heterotermes são de fato pragas em lavouras e benfeitorias, a Syntermes dirus se alimenta exclusivamente de matéria orgânica seca em decomposição, como folhas e galhos caídos, sem atacar plantas vivas ou madeira de construção.
Portanto, a presença dos montículos característicos dessa espécie em pastagens e áreas de Caatinga nativa indica atividade biológica saudável no solo, não infestação. Eliminar essas estruturas com máquinas pesadas, prática comum em processos de preparo do terreno, destrói os canais de infiltração construídos ao longo de décadas e compacta o subsolo, reduzindo exatamente a permeabilidade que tornava aquele solo mais produtivo.
A recomendação técnica que emerge dos estudos sobre essas estruturas aponta para a manutenção dos montículos em áreas de pastagem extensiva e em sistemas agroflorestais. Integrar os cupinzeiros à paisagem produtiva, ao invés de removê-los, preserva os benefícios da bioturbação e da infiltração hídrica, serviços ecossistêmicos que nenhum insumo agrícola consegue replicar ao custo zero que a natureza oferece, especialmente em um bioma onde água e fertilidade do solo são os recursos mais escassos.




