Dendê no Pará: como um estado passou a responder por 97% da produção nacional e por que isso importa para o agronegócio brasileiro

Estudo da Fapespa revela crescimento de mais de 13 vezes na produção em quatro décadas, com impacto direto na geração de empregos, recuperação de áreas degradadas e sequestro de carbono na Amazônia

Dendê no Pará: como um estado passou a responder por 97% da produção nacional e por que isso importa para o agronegócio brasileiro

A cadeia produtiva do dendê deixou de ser uma promessa do agronegócio brasileiro para se tornar uma realidade consolidada, e o Pará está no centro absoluto dessa transformação. A produção nacional saltou de 242,8 mil toneladas em 1988 para 3,2 milhões de toneladas em 2024, crescimento superior a 13 vezes em quatro décadas, segundo a Nota Técnica “A Conjuntura Econômica e Ambiental do Dendê 2026”, elaborada pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) com base nos dados mais recentes do IBGE.

O ritmo de expansão, já acelerado a partir dos anos 2000, ganhou força adicional após 2018 e não deu sinais de desaceleração. Só entre 2023 e 2024, a produção brasileira cresceu 11,2%, passando de 2,9 milhões para 3,2 milhões de toneladas. Dentro desse avanço, o Pará não acompanhou o crescimento nacional: ele o determinou.

Pará concentra quase a totalidade da produção e do valor gerado

O estado paraense ampliou sua produção de 2,8 milhões para 3,1 milhões de toneladas no último ano, alta de 10,4%, mantendo participação de 97,1% do volume total produzido no país. No que diz respeito ao valor econômico gerado, a concentração é ainda maior: o Pará responde por aproximadamente 98% do valor nacional da dendeicultura em 2024.

Outros estados, como Roraima e Bahia, registram crescimento, mas a participação conjunta ainda não ultrapassa 3% da produção brasileira. Isso significa que qualquer variação climática, logística ou de política agrícola no Pará tem efeito imediato sobre os números nacionais do setor, o que reforça tanto a força quanto a fragilidade dessa concentração territorial.

A escala da especialização se aprofunda no recorte municipal. Apenas dez municípios paraenses respondem por cerca de 90% de todo o volume produzido no Brasil. Tailândia lidera com quase um terço da produção nacional, seguida por Tomé-Açu e Moju, polo histórico da dendeicultura amazônica.

Geração de empregos acompanha a concentração produtiva

A hegemonia paraense na produção se replica diretamente no mercado de trabalho. O estado concentra cerca de 92% dos empregos diretos e indiretos gerados por toda a cadeia do dendê no Brasil, o que posiciona a atividade como um dos principais vetores de renda formal no interior do estado.

“Se o Pará é campeão na produção de dendê, com quase 100% da produção nacional, a geração de empregos é também proporcional, com 92% das vagas diretas e indiretas dessa cadeia produtiva, sendo a locomotiva do país nesse segmento, com o Pará campeão na produção e na geração de empregos no cenário nacional da cultura do dendê”, afirma o professor Márcio Ponte, responsável pelo estudo da Fapespa.

A estrutura da cadeia do dendê exige mão de obra em diferentes etapas, desde o cultivo e colheita dos cachos até o processamento industrial do óleo de palma, o que distribui a geração de renda por municípios que, historicamente, dependiam da extração vegetal ou da pecuária extensiva.

Áreas degradadas dão lugar a florestas de dendê e sequestro de carbono

O crescimento da dendeicultura no Pará não se deu sobre floresta nativa. A trajetória do setor está associada à recuperação de pastagens degradadas e de áreas de uso agropecuário que perderam produtividade ao longo das décadas. Hoje, a área reflorestada com dendê no estado ultrapassa 200 mil hectares, e a capacidade de sequestro de carbono atingiu mais de 13 milhões de toneladas de CO₂ em 2024, volume expressivo dentro das metas brasileiras de descarbonização.

Esse desempenho ambiental coloca a dendeicultura paraense em posição relevante nas discussões sobre biocombustíveis e economia de baixo carbono, especialmente com a COP30 prevista para Belém. O óleo de palma figura entre os insumos com maior potencial para substituição de derivados do petróleo em setores industriais de difícil descarbonização.

“Os biocombustíveis são fundamentais para a redução da pegada de carbono da indústria como um todo, e o óleo de palma se presta muito bem a essa condição. É por isso que é tão importante ver o Pará crescendo de uma maneira significativa nesses últimos anos”, destaca Marcel Botelho, presidente da Fapespa.

Concentração produtiva exige atenção à diversificação regional

A análise espacial do estudo da Fapespa aponta sinais recentes de redistribuição interna entre os principais polos produtores do Pará, o que indica um movimento de expansão dentro do próprio estado. Contudo, a dependência de poucos municípios para sustentar quase toda a produção nacional é um ponto que o setor precisará endereçar nos próximos ciclos, seja por questões fitossanitárias, climáticas ou logísticas.

A diversificação geográfica da dendeicultura para outros estados da região Norte, com vocação climática compatível, pode ser o próximo passo para consolidar o Brasil como produtor global relevante de óleo de palma, reduzindo os riscos sistêmicos da concentração atual e ampliando o impacto social e ambiental da atividade para além das fronteiras paraenses.

  • Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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