Santa Catarina resolveu um dos maiores problemas sanitários da pecuária e o restante do Brasil ainda engatinha

Estudo da FMVZ-USP avalia os modelos de destinação de carcaças animais no país e aponta por que soluções integradas são o único caminho viável

Santa Catarina resolveu um dos maiores problemas sanitários da pecuária e o restante do Brasil ainda engatinha

Toda propriedade rural com produção animal enfrenta, cedo ou tarde, a mesma questão: o que fazer com um animal morto. A resposta parece simples, mas esconde um dos pontos mais críticos da biosseguridade no campo. Destinação inadequada de carcaças representa risco sanitário real, passivo ambiental e, em casos extremos, porta de entrada para doenças de notificação obrigatória. É sobre esse problema, ainda sem solução uniforme no Brasil, que se debruça o estudo elaborado pela professora titular emérita de Epidemiologia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, Masaio Mizuno Ishizuka.

O trabalho reúne dados técnicos, experiências práticas e uma avaliação ampla das tecnologias disponíveis no país. O ponto de partida é direto: a gestão de carcaças ainda é tratada de forma improvisada na maioria das granjas brasileiras, e isso tem consequências concretas para a saúde do rebanho, para o ambiente e para a viabilidade econômica da produção.

Compostagem, biodigestão e fragmentação: cada solução tem seu contexto

O estudo não elege uma tecnologia vencedora. O que faz, com rigor técnico, é apresentar as alternativas disponíveis e cruzá-las com as diferentes realidades produtivas do país, reconhecendo que escala, localização e infraestrutura disponível determinam qual modelo é viável em cada caso.

A compostagem aparece como a solução mais acessível e consolidada, especialmente para pequenas e médias propriedades. O processo é relativamente simples, tem baixo custo operacional e já conta com protocolos técnicos bem estabelecidos. Para granjas que não dispõem de grandes estruturas, é a porta de entrada mais realista para uma destinação adequada.

A biodigestão ganha relevância em outro contexto: quando integrada ao manejo de dejetos já existente na propriedade, ela permite aproveitar a carcaça como insumo energético e ainda destinar corretamente os resíduos resultantes. É uma solução com maior complexidade de implantação, mas que oferece retorno duplo, reduzindo passivo ambiental e gerando energia ao mesmo tempo.

Já a fragmentação de carcaças ocupa um lugar intermediário nessa escala. Facilita o manejo físico e acelera processos subsequentes, mas não resolve por si só o problema da destinação, exigindo tratamento complementar. Em propriedades de maior porte, pode ser uma etapa dentro de um fluxo mais amplo de gestão.

A incineração, por sua vez, é tratada no estudo como recurso de exceção. O custo elevado, as exigências ambientais e a complexidade operacional a tornam inviável como solução rotineira. Sua indicação fica restrita a situações de emergência sanitária, particularmente quando há suspeita ou confirmação de doenças de notificação obrigatória, onde a eliminação rápida e segura do material é prioritária.

O modelo catarinense que virou lei federal

Entre os casos analisados, o Projeto Recolha, desenvolvido em Santa Catarina, ocupa posição de destaque no estudo e merece atenção especial. A iniciativa estruturou algo que poucos estados conseguiram construir: uma cadeia completa e integrada de coleta, transporte e processamento de carcaças fora das propriedades rurais, envolvendo produtores, agroindústrias e o poder público em torno de um sistema logístico funcional.

O impacto do modelo catarinense ultrapassou as fronteiras do estado. A experiência acumulada pelo Projeto Recolha foi determinante para a elaboração da Instrução Normativa nº 48/2019, que estabeleceu as primeiras diretrizes nacionais para o recolhimento e a destinação de animais mortos no Brasil. Foi, em termos práticos, a transformação de uma solução regional em política pública nacional.

O problema é que a norma avançou mais rápido do que a capacidade de implementação da maioria dos estados. O levantamento de Ishizuka mostra que, mesmo após a criação da instrução normativa, poucos estados conseguiram replicar o modelo catarinense em larga escala. A gestão interna, muitas vezes improvisada, segue sendo a prática predominante no país, o que evidencia a distância entre o que a regulação prevê e o que de fato acontece no campo.

Por que não existe uma solução única

A conclusão do estudo é objetiva: não há uma resposta universal para o problema da destinação de carcaças, e qualquer abordagem que ignore essa complexidade está condenada a funcionar de forma parcial. A destinação adequada depende de uma articulação real entre três agentes que raramente atuam de forma coordenada: o produtor rural, as agroindústrias vinculadas à cadeia e o poder público responsável por criar infraestrutura e marcos regulatórios.

Sem essa tríade funcionando de forma integrada, as soluções tendem a ser pontuais e frágeis. O produtor isolado não tem escala nem recursos para implantar sistemas complexos. A agroindústria, quando envolvida, pode estruturar logística e processamento, mas precisa de incentivo e regulação para fazer isso de forma sistemática. E o poder público, sem financiamento e planejamento de longo prazo, produz normas que ficam no papel.

O modelo catarinense funcionou justamente porque combinou esses três elementos ao mesmo tempo, em um território com vocação pecuária consolidada e cadeia produtiva organizada. Reproduzir esse resultado em outras regiões exige mais do que vontade política: exige infraestrutura, modelos econômicos sustentáveis e uma cultura de biosseguridade que precisa ser construída de forma contínua no campo brasileiro.

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