A Embrapa e a TIM Brasil anunciaram, durante a COP 30 em Belém, a criação do AgForest Lab, laboratório dedicado ao desenvolvimento de sistemas agroflorestais escaláveis no bioma amazônico. A implementação física do espaço ocorre ao longo de 2025, dentro da Fazenda Felisberto Camargo, área experimental de 213 hectares da Embrapa Amazônia Oriental, no Pará, que até então era voltada à produção animal.
O laboratório vai reunir empresas de diferentes portes, universidades, instituições de pesquisa e produtores rurais dispostos a desenvolver e validar tecnologias voltadas à inovação agroflorestal na região. Entre as espécies que serão estudadas estão açaí, cacau, andiroba, café e cumaru, culturas de alto valor econômico e ecológico, que concentram boa parte do potencial produtivo da bioeconomia amazônica.
Décadas de ciência, agora aplicadas no campo
A Embrapa Amazônia Oriental acumula um dos maiores acervos científicos sobre sistemas agroflorestais tropicais do país. O desafio, até aqui, era transformar esse volume de conhecimento em soluções práticas e escaláveis para produtores e empresas. O AgForest Lab nasce exatamente para encurtar essa distância.
Para Bruno Giovany, chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Amazônia Oriental, o espaço representa uma virada na forma como o conhecimento científico chega ao campo. “O objetivo é transformar esse arcabouço de conhecimentos acumulados em aplicações e desenvolvimento tecnológico em benefício da bioeconomia da Amazônia”, afirmou.
O laboratório vivo permitirá que parceiros acessem não apenas a infraestrutura física, mas toda a base técnica construída ao longo de décadas de pesquisa com espécies nativas, manejo agroflorestal e dinâmica de solos tropicais. Isso significa que as tecnologias desenvolvidas ali já nascem sustentadas por dados reais e metodologias validadas cientificamente, reduzindo o tempo entre pesquisa e adoção produtiva.
Conectividade 5G como infraestrutura de pesquisa
A entrada da TIM Brasil na parceria vai além do fornecimento de sinal. A operadora é responsável por estruturar a conectividade 5G e 4G no campo experimental, viabilizando a instalação de sensores IoT para monitoramento contínuo dos experimentos, coleta de dados meteorológicos, rastreabilidade das culturas e integração digital entre campo e laboratório.
Giovany destaca que essa infraestrutura será decisiva para o funcionamento do AgForest Lab. “A solução de conectividade digital da TIM será fundamental tanto para o monitoramento dos experimentos quanto para o gerenciamento da própria fazenda. Os sensores em campo poderão informar aos laboratórios de pesquisa a incidência de pragas ou doenças nas plantas e dados meteorológicos em tempo real”, explicou.
Dessa forma, o que antes exigia visitas periódicas e coleta manual de dados passa a ser monitorado de forma contínua e remota, aumentando a precisão das análises e a velocidade de resposta diante de qualquer variação produtiva ou sanitária nas parcelas experimentais.
Segunda parceria entre Embrapa e TIM
O AgForest Lab é a segunda iniciativa conjunta entre as duas instituições. Na Agrishow de 2025, Embrapa e TIM Brasil já tinham firmado acordo para levar conectividade 4G à AgNest, fazenda-laboratório instalada em área da Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna, no interior de São Paulo. O espaço foi estruturado para validar soluções tecnológicas de startups e empresas em condições reais de cultivo, e em dezembro do ano passado a Embrapa selecionou as primeiras cinco startups para iniciar os testes em 2025.
A sequência das duas parcerias revela uma estratégia clara da Embrapa de associar conectividade digital à validação tecnológica em campo, consolidando o modelo de farm lab como ferramenta de transferência de tecnologia para o agronegócio brasileiro. No caso amazônico, esse modelo ganha ainda mais relevância, já que as dificuldades logísticas e a baixa cobertura de internet historicamente limitaram a adoção de inovações pelos produtores da região.
Bioeconomia com base científica e escala produtiva
O AgForest Lab chega em um momento em que a bioeconomia amazônica deixa de ser pauta apenas de fóruns ambientais e passa a ocupar espaço nas estratégias de mercado de empresas, investidores e governos. A pressão internacional por cadeias produtivas rastreáveis e de baixo impacto ambiental coloca os sistemas agroflorestais no centro das discussões sobre o futuro da produção na Amazônia.
Contudo, escalar esses sistemas exige mais do que boa vontade ou apelo ecológico. Exige dados confiáveis, tecnologia adaptada às condições do bioma e infraestrutura capaz de suportar a complexidade de múltiplas espécies cultivadas de forma integrada. É justamente esse o vácuo que o laboratório se propõe a preencher, reunindo em 213 hectares os ingredientes que, até agora, estavam dispersos entre centros de pesquisa, startups e produtores rurais sem uma ponte tecnológica comum.
