Engenharia genética transforma tabaco em produtor de psilocibina e DMT para proteger espécies ameaçadas

Engenharia genética transforma tabaco em produtor de psilocibina e DMT para proteger espécies ameaçadas

A obtenção de compostos psicoativos para fins científicos sempre esbarrou em dois obstáculos concretos: a complexidade dos processos de extração e a pressão crescente sobre espécies que os produzem naturalmente. Cogumelos do gênero Psilocybe, plantas como a Psychotria viridis e o sapo-do-rio-Colorado (Incilius alvarius) estão entre os organismos mais procurados por pesquisadores e, ao mesmo tempo, entre os mais vulneráveis à superexploração. Esse paradoxo, que freava o avanço das pesquisas sobre uso terapêutico de psicodélicos, ganhou uma resposta promissora publicada na revista Science Advances em abril deste ano.

Um grupo de cientistas conseguiu modificar geneticamente plantas de tabaco da espécie Nicotiana benthamiana para produzirem cinco compostos psicoativos distintos, oriundos de três reinos biológicos diferentes: fungi, plantae e animalia. O estudo, intitulado “Biossíntese completa de triptaminas psicodélicas de três reinos em plantas”, representa um avanço técnico considerável na chamada biossíntese vegetal e abre perspectivas reais para a produção de substâncias que hoje dependem de organismos difíceis de cultivar em escala.

A técnica que transformou o tabaco em biofábrica

O método utilizado no estudo é conhecido como agroinfiltração, uma técnica em que bactérias do gênero Agrobacterium são usadas como vetor para introduzir genes de outros organismos dentro das células vegetais. A planta, a partir daí, passa a expressar as proteínas codificadas por esses genes e, consequentemente, a sintetizar os compostos desejados. O ponto central dessa abordagem é que o DNA introduzido não se incorpora ao genoma permanente da planta, o que significa que o efeito é temporário e controlado.

Com a inserção de nove genes cuidadosamente selecionados, a Nicotiana benthamiana produziu psilocina e psilocibina, normalmente encontradas em cogumelos; DMT, presente em diversas plantas utilizadas em práticas tradicionais; e ainda bufotenina e 5-metoxi-DMT, compostos secretados pelo sapo-do-rio-Colorado. Cada um desses compostos pertence à classe das triptaminas e compartilha uma estrutura química que interage com receptores serotoninérgicos no sistema nervoso central, o que explica o interesse crescente da psiquiatria por essas substâncias.

A escolha da Nicotiana benthamiana não foi aleatória. Essa espécie é amplamente utilizada em biotecnologia vegetal justamente pela sua alta susceptibilidade à agroinfiltração e pela capacidade de expressar proteínas heterólogas com eficiência, tornando-a um modelo consolidado para estudos desse tipo.

Por que a produção sustentável importa para a pesquisa

O interesse científico por psicodélicos cresceu de forma significativa na última década, impulsionado por estudos que investigam seu potencial no tratamento de depressão resistente, transtorno de estresse pós-traumático e dependência química. Contudo, a produção das substâncias necessárias para esses ensaios clínicos ainda enfrenta limitações sérias. Síntese química tradicional é cara, tecnicamente exigente e, em alguns casos, inviável em escala. Já a extração direta de plantas ou animais levanta questões éticas e ambientais que não podem ser ignoradas.

Asaph Aharoni, coautor do estudo e biólogo de plantas do Instituto Weizmann de Ciências, de Israel, ressalta que a opção pela modificação temporária foi uma escolha deliberada e estratégica. “É um pouco complicado se a alteração for hereditária, e aí as pessoas vão pedir sementes”, alertou o pesquisador. A preocupação é legítima: tornar o tabaco capaz de transmitir essa característica às gerações seguintes criaria riscos de uso indevido e dificultaria o controle regulatório sobre substâncias que, em muitos países, seguem classificadas como controladas.

A agroinfiltração contorna esse problema ao garantir que a produção dos compostos seja pontual e rastreável, mantendo o processo dentro de ambientes laboratoriais e sob supervisão técnica.

Fábricas verdes como alternativa escalável

O conceito de “fábrica verde” não é novo na biotecnologia, mas o estudo amplia suas possibilidades de forma concreta. Rupert Fray, pesquisador da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, contextualiza o significado do avanço dentro da farmacologia vegetal. “Se você quer entender algo, precisa ser capaz de construí-lo, então demonstrar que é possível produzi-lo em plantas de tabaco é útil. Como realização técnica, mostrar que você compreende os processos e consegue executá-los tem valor”, afirmou.

Fray também lembra que cerca de 25% dos medicamentos prescritos atualmente são derivados total ou parcialmente de plantas, o que reforça o potencial de cultivar novos compostos em estufas controladas. Nesse modelo, plantas como a Nicotiana benthamiana funcionariam como plataformas biossintéticas, produzindo sob demanda compostos que hoje dependem de organismos raros, sazonais ou protegidos por legislações ambientais.

Além da viabilidade econômica, esse caminho reduz diretamente a pressão sobre populações silvestres. O sapo-do-rio-Colorado, por exemplo, é capturado ilegalmente em diversas regiões do México e dos Estados Unidos para extração da 5-metoxi-DMT, prática que coloca em risco uma espécie já vulnerável. A possibilidade de produzir o mesmo composto em uma planta de tabaco cultivada em laboratório representa, portanto, tanto um avanço científico quanto uma medida de conservação.

O que esse avanço significa para os próximos passos

A produção bem-sucedida de cinco triptaminas distintas em uma única plataforma vegetal confirma que a biossíntese heteróloga em plantas é um caminho viável para compostos de alta complexidade química. O próximo desafio está na escala e na pureza: produzir volumes suficientes para ensaios clínicos e garantir que os extratos vegetais não contenham metabólitos indesejados exige refinamento dos protocolos e avanços nos processos de purificação downstream.

A regulamentação também será determinante. Países com marcos mais avançados para pesquisa com psicodélicos, como os Estados Unidos, Austrália e Brasil, terão papel central na definição de como essa tecnologia poderá ser aplicada dentro de ambientes clínicos e farmacêuticos. O estudo não entrega um medicamento pronto, mas oferece algo igualmente valioso: uma prova de conceito robusta de que a natureza pode ser replicada, com responsabilidade, dentro de uma estufa.

  • Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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