A Epagri acaba de firmar um acordo de cooperação com a empresa japonesa Ogon No Mura para dar início a um estudo inédito de adaptabilidade do limão Yuzu em Santa Catarina. A parceria, assinada em Florianópolis na última quinta-feira (19), coloca o estado na dianteira de um movimento que pode transformar o mapa da citricultura brasileira, ao incluir uma espécie até então sem registro oficial no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e sem qualquer experiência de cultivo comercial no país.
O Yuzu é uma fruta cítrica nativa da China, mas amplamente cultivada e consumida no Japão, onde ocupa posição central na gastronomia e na indústria de bebidas, cosméticos e óleos essenciais. A Ogon No Mura, fabricante de uma linha consolidada de produtos à base da fruta, fatura anualmente US$ 3 milhões e destina 40% da sua produção ao mercado externo, com expansão contínua para França e Estados Unidos. A empresa busca ampliar sua base produtiva para dar conta de uma demanda que cresce mais rápido do que a capacidade atual dos pomares em Tokushima, província japonesa onde a cultura encontra condições climáticas historicamente favoráveis.
Santa Catarina como candidata natural
A escolha por Santa Catarina não é acidental. As regiões de maior altitude do estado apresentam características climáticas que se aproximam das condições de Kito, vila de Tokushima onde se localizam os pomares da Ogon No Mura. As temperaturas locais variam entre -10°C e 40°C, uma amplitude térmica de 50°C que o Yuzu suporta com naturalidade. A Serra Catarinense reproduz esse perfil com fidelidade suficiente para justificar os ensaios de campo.
Outro elemento favorável é a presença de colônias de imigrantes japoneses no estado, com modos de produção que guardam semelhanças com o sistema adotado em Kito. O município de Frei Rogério, no Meio-Oeste Catarinense, será um dos pontos de instalação dos pomares experimentais, na propriedade do agricultor Ernesto Eisaku Onaka, que hoje cultiva alho, pêssego, aspargo e goiaba-serrana em 16 hectares e aguarda a oportunidade de diversificar a produção.
Os ensaios de adaptação serão conduzidos em três localidades: Itajaí, São Joaquim e Frei Rogério, cobrindo desde o litoral até as áreas de altitude, o que permitirá avaliar o comportamento da espécie em diferentes condições de clima e solo.
O que muda para a citricultura catarinense
A pesquisa carrega um significado técnico que vai além da introdução de uma nova variedade. A região serrana de Santa Catarina é historicamente classificada como inapta para a exploração comercial de citros, justamente pela ocorrência de geadas. Laranjas, limões verdadeiros, limas e até tangerinas, que apresentam maior tolerância ao frio do que as demais espécies do grupo, ainda assim não resistem às condições do planalto serrano.
O Yuzu muda esse quadro. A engenheira-agrônoma Luana Castilho Maro, pesquisadora da Estação Experimental da Epagri em Itajaí e coordenadora do estudo, é direta ao avaliar o que isso representa para o setor. “A região serrana é considerada a única inapta para a exploração comercial de citros. O Yuzu, diferentemente da laranja, da lima, dos limões verdadeiros e até mesmo das tangerinas, suporta amplitude térmica de 50°C”, explica a pesquisadora.
Aliás, essa tolerância ao frio intenso é justamente o que abre a possibilidade de explorar áreas que hoje ficam fora do mapa produtivo da citricultura no estado, gerando uma nova fronteira para agricultores familiares da Serra Catarinense.
Da quarentena ao pomar: como o material genético chega ao Brasil
O acordo garante à Epagri acesso direto ao germoplasma de plantas originais dos pomares da Ogon No Mura em Tokushima, o que representa uma vantagem operacional concreta no processo de importação de uma espécie perene. Atualmente, o Yuzu não possui registro no Mapa, o que impede o plantio comercial da espécie em território nacional.
“O acesso direto ao recurso genético e a celeridade no processo de importação de uma espécie perene é o maior benefício do acordo”, destaca Luana Castilho Maro.
O material genético importado do Japão passará por quarentena no Instituto Agronômico de São Paulo (IAC), onde serão realizados os enxertos necessários. Após liberação sanitária, o material será encaminhado à Estação Experimental de Itajaí, onde será integrado ao banco de germoplasma da Epagri, um dos maiores do Brasil. Paralelamente, parte das mudas será distribuída para os três pontos de ensaio. A conclusão do estudo está prevista para um prazo de quatro a cinco anos.
Somente após a confirmação da adaptabilidade e o registro oficial junto ao Mapa é que o setor produtivo poderá iniciar o plantio comercial. Nesse momento, viveiristas também estarão autorizados a comercializar as mudas. “Só depois de confirmarmos a adaptabilidade e termos o registro desse material no Ministério da Agricultura, os produtores que tiverem interesse vão poder produzir comercialmente o Yuzu”, reforça a coordenadora da pesquisa.
Mercado garantido antes do plantio
Um dos pontos que diferencia este estudo de outros processos de introdução de novas culturas no Brasil é a existência de um comprador estruturado antes mesmo do início da produção. A Ogon No Mura não chegou a Santa Catarina em busca de um experimento isolado. O fundador e diretor de expansão da empresa, Koji Kamiyo, estabeleceu metas concretas: implantação inicial de 100 hectares de Yuzu, com ampliação para mil hectares a longo prazo. “Acreditamos muito no potencial deste mercado”, afirmou Kamiyo durante a assinatura do acordo.
Esse encadeamento entre pesquisa, cultivo e comercialização é apontado pelo diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Epagri, Reney Darrow, como o principal diferencial da parceria. “Essa garantia nos dá mais segurança em investir no conhecimento e desenvolvimento deste cultivo. Nosso objetivo é fazer o produtor prosperar”, declarou.
Além do mercado externo já consolidado pela Ogon No Mura, o Yuzu apresenta potencial de aproveitamento industrial amplo. O suco e os óleos essenciais extraídos da fruta têm aplicações em gastronomia, perfumaria e cosméticos, segmentos com demanda crescente tanto no Brasil quanto na Europa e nos Estados Unidos. Para a agricultura familiar catarinense, acostumada a trabalhar com culturas de alto valor agregado em pequenas áreas, essa combinação de produto diferenciado e mercado pré-estabelecido é exatamente o tipo de oportunidade que pode mudar o patamar de renda de uma propriedade.
