A Epagri e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) desenvolvem, na Estação Experimental de Lages, uma pesquisa que coloca o produtor rural no centro do processo de diagnóstico do solo. O método, chamado de avaliação participativa de qualidade do solo, usa os sentidos humanos e indicadores visuais para gerar um retrato fiel das condições do terreno — sem depender de análises laboratoriais para dar o primeiro passo.
Os trabalhos são coordenados pelo pesquisador Lucas Raimundo Rauber, da Epagri, em parceria com Jucinei José Comin, professor dos cursos de Agronomia e Zootecnia da UFSC Florianópolis, que viajou até a Serra Catarinense com um grupo de alunos para conduzir as atividades em campo. A iniciativa reúne ciência aplicada e conhecimento empírico com um objetivo claro: levar informação útil diretamente ao produtor, de forma acessível e imediata.
A trincheira como ponto de partida
O processo começa com uma abertura simples no terreno. Uma trincheira de aproximadamente meio metro de profundidade já é suficiente para expor camadas do solo que revelam muito sobre o seu estado. A partir daí, fragmentos são retirados e analisados coletivamente pelo grupo — agricultores, técnicos e pesquisadores lado a lado — a partir de características como distribuição de raízes, cor, odor, estrutura e presença de minhocas.
Cada indicador recebe uma nota visual, atribuída pelos próprios participantes. Essas notas são transformadas em um gráfico construído ali mesmo, no campo, com cartolinas e pincéis atômicos. O desenho vai se formando à medida que os critérios são avaliados: quanto mais aberto e circular o gráfico, melhores são as notas e mais saudável está o solo.
A dinâmica lembra, em certo sentido, um corpo de jurados — cada integrante contribui com sua leitura, e o resultado final emerge do conjunto dessas percepções.
Sensibilidade próxima à do laboratório
O que torna o método relevante não é apenas a praticidade, mas a confiabilidade dos resultados. “É uma metodologia rápida, de baixo custo, que pode ser feita imediatamente no campo e é de fácil apropriação, podendo ser usada pelos interessados, no caso, os agricultores e técnicos. O sistema traz informações sobre a qualidade do solo e permite avaliar o seu estado e monitorar mudanças, se está se mantendo ou piorando. Também fizemos uma comparação deste método com medidas de laboratório, e já temos várias experiências mostrando que tem uma sensibilidade muito próxima à metodologia do laboratório”, explica o professor Jucinei Comin.
Essa equivalência de sensibilidade é um ponto crítico para a adoção do método em larga escala. Produtores que não têm acesso imediato a laboratórios — ou que precisam de uma leitura rápida antes de tomar decisões de manejo — passam a contar com uma ferramenta confiável, democrática e sem custo elevado.
Do plantio direto às pastagens
A metodologia foi desenvolvida inicialmente para o contexto do plantio direto de hortaliças, mas a pesquisa em Lages expande esse horizonte. A Serra Catarinense, marcada pela pecuária e pela produção em pastagens, representa um novo campo de aplicação para o método — e é justamente esse o foco da parceria entre Epagri e UFSC agora.
“Este método foi proposto, inicialmente, para o plantio direto de hortaliças, e a nossa ideia agora é trazê-lo para o contexto de pastagens. O agricultor, o pecuarista, não só participam da avaliação, como também são protagonistas dela. E nós, da Epagri, estamos muito felizes em receber a equipe da UFSC para realizar este trabalho que se trata de uma pesquisa aplicada que realmente chega lá na ponta, no produtor, que é quem realmente precisa dela”, destaca o pesquisador Lucas Rauber.
A adaptação do método para pastagens responde a uma demanda real de produtores que precisam monitorar a qualidade do solo em áreas de criação extensiva, onde o pisoteio, a compactação e a perda de matéria orgânica são pressões constantes. Identificar esses problemas precocemente — e com autonomia — é o que a pesquisa busca viabilizar.
O produtor como protagonista do diagnóstico
O que diferencia essa abordagem de outros modelos de extensão rural é o papel atribuído ao produtor. Ele não é apenas o destinatário da informação técnica; é parte ativa da geração do conhecimento. Ao atribuir notas, observar o solo com orientação técnica e construir o gráfico com as próprias mãos, o agricultor desenvolve uma leitura crítica da sua propriedade que não desaparece após a visita do pesquisador.
Essa capacidade de monitoramento contínuo é, no fundo, o maior ganho do método. O produtor passa a observar o solo com outros olhos — e a reconhecer, safra após safra, se as práticas de manejo estão preservando ou comprometendo a base produtiva da propriedade.



