Os Estados Unidos devem recuperar a posição de maior destino das exportações brasileiras de café ainda neste ano, segundo a avaliação do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). A projeção ganha força com o início da colheita em abril e uma safra que promete ser uma das melhores da última década, tanto em volume quanto em qualidade.
No primeiro trimestre de 2026, contudo, os números ainda refletem o peso das turbulências do ano anterior. Os embarques para os Estados Unidos somaram 936,6 mil sacas entre janeiro e março, uma queda de 48,3% em relação ao mesmo período de 2025. A Alemanha segurou a liderança das importações, com 1,19 milhão de sacas, seguida por Itália, com 885,2 mil sacas, Bélgica, com 527,5 mil sacas, e Japão, com 440,1 mil sacas.
O peso do tarifaço ainda nos números
A retração nos embarques para o mercado americano não é surpresa para quem acompanhou 2025 de perto. A combinação de uma safra brasileira menor com as tarifas de 50% impostas pelo governo americano sobre o café brasileiro provocou uma série de liquidações antecipadas de contratos, alterando o fluxo natural das negociações. Márcio Ferreira, presidente do Cecafé, explica que os efeitos desse movimento ainda estão sendo absorvidos pelo mercado.
“O impacto do tarifaço continua existindo porque no ano passado houve muita liquidação de contratos e os contratos foram adquiridos para a próxima safra. Então, os embarques para os Estados Unidos vão melhorar a partir do segundo semestre”, afirma Ferreira.
Além disso, o cenário logístico global segue pressionando os custos de exportação. As complicações no Estreito de Ormuz, decorrentes dos conflitos no Oriente Médio, encarecem fretes e seguros marítimos, adicionando mais uma camada de cautela nas negociações internacionais. As incertezas sobre a política comercial americana também contribuem para que os compradores mantenham um ritmo mais conservador de aquisições neste início de ano.
Safra recorde muda o patamar da oferta brasileira
O cenário começa a se inverter com a entrada da nova safra. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta produção de 66,19 milhões de sacas para 2026, um crescimento de 17,1% em relação ao ciclo anterior. O café arábica lidera a expansão, com alta prevista de 23,3%, chegando a 44,1 milhões de sacas. O conilon também cresce, com aumento estimado de 6,4%, para 22,1 milhões de sacas.
Para Ferreira, as condições de campo nesta safra são excepcionais. “As condições climáticas foram extremamente favoráveis em todos os aspectos. Há muito tempo não se via uma safra no Brasil em condições tão boas. Por isso a produtividade vai ser muito boa”, avalia o presidente do Cecafé.
Esse volume maior de oferta já começa a pressionar os preços internacionais para baixo. O café arábica na bolsa de Nova York registrou média de US$ 384,48 a saca em março, queda de 23,76% em relação ao mesmo mês de 2025. O robusta em Londres recuou ainda mais, 35,12% no período, para US$ 212,30 por saca. A tendência é de acomodação adicional conforme o volume da safra brasileira chega ao mercado.
Câmbio comprime a receita do produtor
Se por um lado a safra maior fortalece o posicionamento do Brasil no mercado externo, por outro o comportamento do câmbio representa um fator de atenção direta para o produtor. O dólar, que encerrou 2024 cotado a R$ 6,20 e terminou 2025 em torno de R$ 5,50, chegou a R$ 4,98 no momento da análise do Cecafé. A valorização do real reduz diretamente a receita convertida em reais pelo exportador e pelo produtor rural.
“E hoje o dólar chegou a R$ 4,98. No fim de 2024 o dólar era R$ 6,20. No fim do ano passado, era R$ 5,50. Isso gera bastante impacto nos preços recebidos pelo produtor”, destaca Ferreira.
Consequentemente, o produtor que colhe uma safra volumosa e tecnicamente bem executada pode ver parte do ganho de produtividade diluída pela taxa de conversão cambial, o que reforça a importância do planejamento financeiro na comercialização e do uso de instrumentos de proteção de preço disponíveis no mercado.
Segundo semestre como ponto de virada
A convergência entre o volume da nova safra, a liquidação progressiva dos contratos firmados durante o tarifaço e a expectativa de estabilização da política comercial americana cria as condições para que os embarques ao mercado americano se recuperem de forma mais consistente a partir do segundo semestre de 2026. O setor exportador trabalha com essa janela como o momento em que os Estados Unidos devem, de fato, retomar a liderança entre os destinos do café brasileiro, posto que historicamente lhes pertence.



