O governo americano anunciou uma tarifa global de 15% sobre o café solúvel brasileiro. Se mantida, a medida encerra um capítulo amargo para o setor, que operou os últimos meses sob uma taxa de 50% — o suficiente para derrubar embarques, perder clientes e abrir espaço para o Vietnã avançar no maior mercado consumidor do mundo.
O impacto da barreira anterior foi direto e sem margem para interpretação. No acumulado de 2025, os Estados Unidos continuaram como o principal destino das exportações brasileiras de café solúvel, absorvendo 558.740 sacas. Só que esse número representa uma queda de 28,2% frente ao ano anterior. No recorte mais preciso — entre agosto e dezembro, exatamente o período em que a tarifa de 50% esteve em vigor — a retração chegou a 40%.
O mercado sentiu o golpe.
Novo patamar, campo nivelado
Para Aguinaldo Lima, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), a mudança chega em boa hora. “A situação estava ficando pior a cada mês nas vendas com aquele que é o maior cliente de café solúvel do Brasil. Agora, a gente entra em um novo patamar, seja de 10% ou 15% a tarifa, mas que coloca todos os fornecedores em circunstâncias iguais”, disse o executivo.
O ponto central aqui não é só a redução da taxa. É o realinhamento competitivo. Com a tarifa de 50%, o Brasil operava em desvantagem estrutural em relação a outros fornecedores que chegavam ao mercado americano com taxas menores. Agora, a porteira está aberta em condições mais justas. Isso dá aos exportadores brasileiros a chance de reconquistar compradores que migraram para concorrentes ao longo de 2025 — e que não vão voltar automaticamente.
Aliás, o desempenho geral do setor em 2025 deixa claro o tamanho do estrago. O Brasil embarcou 3,688 milhões de sacas de 60 kg ao exterior no ano passado, queda de 10,6% na comparação com 2024. O mercado americano puxou esse tombo para baixo.
O Vietnã não está esperando
A tarifa reduzida resolve o problema imediato. O problema estrutural segue em aberto.
O Brasil sempre foi o país mais competitivo do mundo no segmento de café solúvel. Esse título está em disputa. O Vietnã avança com uma velocidade que preocupa, amparado por acordos comerciais que o Brasil simplesmente não tem — especialmente na Ásia, região onde o consumo de solúvel mais cresce no mundo. “O Vietnã tem usado muito os acordos, principalmente na Ásia”, apontou Lima.
A lógica é clara: de nada adianta produzir com eficiência se o concorrente chega ao comprador com tarifa zero enquanto o produto brasileiro paga pedágio na alfândega. O mix de produção pode ser superior, a qualidade pode ser melhor, mas a aritmética da precificação final desfaz qualquer vantagem porteira para dentro.
Por isso, para Lima, a agenda de negociações comerciais precisa avançar com urgência. “Também temos que procurar sempre solicitar que o governo brasileiro continue negociando, tendo acordos harmoniosos com os EUA, para não prejudicar nosso comércio”, reforçou o diretor.
A janela existe. O tempo não para
A tarifa de 15% é, nas palavras da própria Abics, “extremamente positiva”. Abre uma janela de recuperação real para os exportadores brasileiros no mercado americano. Contudo, janela aberta não é venda feita. Reconquistar clientes perdidos exige preço competitivo, volume garantido e confiança no fornecimento — e isso leva tempo.
O setor trabalha agora em dois trilhos simultâneos: aproveitar o alívio tarifário para retomar espaço nos EUA e pressionar o governo federal por acordos comerciais que coloquem o Brasil em pé de igualdade com o Vietnã nos mercados asiáticos. Quem vencer essa corrida nos próximos 12 meses vai ditar quem lidera o segmento global de café solúvel até o fim da década.
Fonte: Globo Rural