Natureza
Extinção silenciosa avança nos recifes: corais-de-fogo brasileiros perdem cobertura viva após onda de calor
Pesquisadores indicam que espécies endêmicas podem desaparecer nos próximos anos sem redução das emissões
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8 horas atrásem
Por
Claudio P. Filla
Os recifes brasileiros podem estar perdendo, quase sem alarde, parte de sua biodiversidade mais singular. Os chamados corais-de-fogo, organismos fundamentais para a estrutura dos ecossistemas marinhos, apresentam sinais preocupantes após sucessivas ondas de calor que atingiram o litoral do país. Dados recentes indicam que algumas espécies endêmicas sofreram níveis extremos de branqueamento, levantando o temor de uma possível extinção silenciosa.
O alerta surge a partir de monitoramentos conduzidos pelo Instituto Coral Vivo, com apoio da Petrobras, após o primeiro grande evento de branqueamento registrado no Brasil em 2019. A pesquisa, apoiada pela FAPESP e publicada na revista Coral Reefs, acompanhou os corais antes, durante e depois da onda de calor registrada no início de 2024, associada ao fenômeno El Niño-Oscilação Sul.
O branqueamento ocorre quando a temperatura do mar se eleva além do tolerável para os corais. Nessas condições, as zooxantelas — microalgas responsáveis por fornecer energia aos organismos — passam a produzir compostos nocivos e são expulsas. Como consequência, os corais perdem sua coloração e, sobretudo, sua principal fonte de nutrição, o que pode levar à morte das colônias.
Espécie exclusiva do Brasil perde 100% da cobertura viva
Entre os resultados mais alarmantes está a situação da espécie Millepora braziliensis, encontrada apenas no Brasil. No município de Tamandaré, em Pernambuco, todas as colônias monitoradas apresentaram branqueamento total, seguido da perda integral de cobertura viva. A espécie já é classificada como criticamente ameaçada tanto pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade quanto pela União Internacional para a Conservação da Natureza.
Outra espécie endêmica, Millepora nitida, registrou branqueamento em 40% das colônias avaliadas, embora sem perdas estruturais significativas. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que a recorrência de eventos extremos pode comprometer a resiliência desses organismos ao longo dos próximos anos.
“Os resultados reforçam a necessidade de medidas de conservação para proteger os corais, principalmente as populações de M. braziliensis, que enfrentam risco elevado de extinção por conta de ondas de calor provocadas por fenômenos como a fase quente do El Niño-Oscilação Sul, em convergência com o aquecimento global ocasionado pela emissão de gases de efeito estufa”, explica Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e um dos coordenadores do estudo.
Além de coordenar o levantamento atual, Mies também lidera um projeto que investiga o histórico global dos impactos das mudanças climáticas sobre recifes, analisando a importância de possíveis refúgios naturais e atributos oceanográficos capazes de mitigar danos.
Ecossistema ameaçado além do óbvio
Embora frequentemente menos monitorados do que os chamados corais verdadeiros, os corais-de-fogo exercem papel ecológico semelhante na construção e manutenção da complexidade dos recifes. Eles oferecem abrigo, áreas de reprodução e esconderijo para inúmeras espécies marinhas, funcionando como pilares estruturais do ambiente costeiro.
“No entanto, os corais-de-fogo possuem importância ecológica comparável aos corais verdadeiros, uma vez que contribuem para a complexidade do ecossistema, oferecendo abrigo e esconderijo para outras espécies animais”, ressalta Mies, que também atua como diretor científico do Instituto Coral Vivo.
O problema é que parte dessas espécies ocorre em áreas de difícil acesso ou apresenta baixa abundância, o que historicamente reduziu o volume de dados disponíveis sobre seu estado de conservação. É o caso de Millepora laboreli, restrita ao Parcel do Manuel Luís, no Maranhão. As informações mais recentes, de 2022, indicavam poucas colônias vivas na região.
“As últimas notícias que tivemos, de um grupo que esteve ali em 2022, é que havia poucas colônias vivas. A situação pode ter piorado após a onda de calor de 2023-2024. Porém, não temos dados suficientes para afirmar com precisão”, relata o pesquisador.
O impacto das ondas de calor nos recifes brasileiros
O evento global de branqueamento registrado entre 2023 e 2024 foi o quarto da história moderna e atingiu 84% dos recifes do planeta. No Brasil, os efeitos também foram severos. Em Maragogi, Alagoas, o branqueamento chegou a 96%, enquanto em Porto de Galinhas, Pernambuco, alcançou 84%, conforme apontado por outro estudo do mesmo grupo publicado em 2025.
Diante desse cenário, os cientistas avaliam que novos episódios são praticamente inevitáveis caso não haja redução significativa das emissões de gases de efeito estufa. Iniciativas de restauração, como o cultivo de corais em laboratório para posterior reintrodução na natureza, ainda apresentam limitações técnicas e financeiras, além de vulnerabilidade a novos ciclos de branqueamento.
Por outro lado, há indícios de que áreas oficialmente protegidas oferecem maior resistência aos impactos térmicos, o que reforça a importância de ampliar e fortalecer unidades de conservação marinha.
“Diferentemente do branqueamento de 2019, em que não estávamos preparados, o que está ocorrendo agora está sendo bem documentado, a fim de subsidiar políticas públicas. Precisamos fortalecer as ações de conservação e aumentar a conscientização sobre a importância de conter as mudanças climáticas”, conclui Miguel Mies.
Entre ondas de calor cada vez mais frequentes e lacunas históricas de monitoramento, os corais-de-fogo brasileiros tornam-se símbolo de um processo silencioso, porém acelerado. A perda dessas espécies não representa apenas um impacto ecológico, mas também um alerta sobre a fragilidade dos ecossistemas marinhos diante das mudanças climáticas em curso.
Fonte: André Julião | Agência FAPESP

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