Ferrovias com pontes para a fauna: a solução suspensa que reconecta matas fragmentadas no interior de São Paulo

Passagens de dossel instaladas acima dos trilhos já registram travessias de espécies silvestres e devem se expandir com seis novas estruturas em 2026

Ferrovias com pontes para a fauna: a solução suspensa que reconecta matas fragmentadas no interior de São Paulo

Foto: Rumo/Divulgação

Em alguns trechos de ferrovias no interior de São Paulo, os trilhos deixaram de ser uma barreira intransponível para a fauna silvestre. Estruturas suspensas instaladas acima da linha férrea funcionam como corredores aéreos entre fragmentos de mata, permitindo que animais atravessem de um lado ao outro sem descer ao solo, longe dos trens e do risco de atropelamento.

As chamadas pontes de dossel são posicionadas na copa das árvores, exatamente sobre os trilhos, restabelecendo a ligação entre áreas de vegetação que foram cortadas pela infraestrutura ferroviária. A iniciativa é da Rumo, empresa que administra cerca de 14 mil quilômetros de ferrovias de carga no Brasil, e os registros já confirmam o que os pesquisadores esperavam: os animais encontraram o caminho.

Espécies como o macaco-prego, o pato-do-mato e a jacurutu, considerada a maior coruja do Brasil, foram flagradas pelas armadilhas fotográficas instaladas nas passagens. Cada registro funciona como dado científico, verificando quais espécies utilizam as estruturas, com que frequência e em qual trecho da malha.

O efeito barreira e o que ele provoca na fauna

Rodovias e ferrovias compartilham um problema ecológico comum: o chamado efeito barreira. Quando uma infraestrutura linear corta uma área de vegetação, ela não apenas divide a paisagem fisicamente, mas interrompe o fluxo gênico entre populações animais, reduz o território de forrageamento e aumenta exponencialmente o risco de atropelamentos. Para espécies que dependem de grandes territórios ou que vivem em grupos sociais, como os macacos-prego, essa fragmentação compromete diretamente a sobrevivência das populações locais.

“A permeabilidade da paisagem é um dos fatores mais críticos para a conservação da biodiversidade em ambientes fragmentados. Quando isolamos populações, reduzimos a variabilidade genética e aumentamos a vulnerabilidade dessas espécies a perturbações ambientais”, explica o biólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Milton Cezar Ribeiro, referência nacional em ecologia de paisagens e conectividade de habitats.

As pontes de dossel respondem diretamente a esse diagnóstico. Ao criar um corredor aéreo entre as árvores, elas permitem que espécies arborícolas retomem o deslocamento natural sem entrar em contato com a área de risco ao nível do solo.

Onze passagens distribuídas em três malhas

A Rumo conta atualmente com 11 passagens instaladas em diferentes trechos da malha ferroviária. Na Malha Paulista, foram construídas sete estruturas entre 2024 e 2025, concentradas em áreas de vegetação próximas aos municípios de Fernando Prestes e Cotia, além de pontos dentro do Parque Estadual da Serra do Mar, no trecho entre São Vicente e a capital paulista, uma das regiões com maior pressão de fragmentação florestal do estado.

Outras três passagens integram a Malha Norte, instaladas em Cassilândia, no Mato Grosso do Sul, e uma unidade compõe a Malha Central, em São Simão, interior paulista. Os pontos não foram escolhidos aleatoriamente: cada localização foi definida após estudos sobre a paisagem local e o padrão de circulação da fauna na região, levando em conta a presença de vegetação nativa nas margens da ferrovia e o potencial de uso pelos animais.

“A escolha do ponto de instalação é tão importante quanto a estrutura em si. Uma passagem posicionada fora do corredor natural de movimento dos animais simplesmente não será utilizada. O monitoramento contínuo com câmeras-armadilha é o que permite ajustar e validar essas intervenções ao longo do tempo”, aponta a bióloga e pesquisadora em ecologia de estradas Fernanda Zimmermann Teixeira, cujos estudos sobre atropelamentos de fauna em infraestruturas lineares são referência no campo da biologia da conservação.

Expansão prevista para 2026

O sistema deve crescer nos próximos anos. O cronograma da Rumo prevê a instalação de seis novas passagens de dossel em 2026, todas no estado de São Paulo. Três delas estão previstas para Bauru, duas para o Parque Estadual da Serra do Mar e uma para Cotia, reforçando trechos já contemplados na primeira fase do projeto e ampliando a cobertura em um dos corredores ecológicos mais relevantes do estado.

A expansão dentro do Parque Estadual da Serra do Mar é particularmente estratégica. A unidade de conservação abriga uma das maiores extensões contínuas de Mata Atlântica do Brasil, com alta densidade de espécies endêmicas e ameaçadas, muitas delas dependentes de conectividade entre fragmentos para manter populações viáveis. Qualquer estrutura que reduza o isolamento nessa região representa ganho direto para a biodiversidade do bioma.

As armadilhas fotográficas seguem ativas em todos os pontos instalados, alimentando a base de dados da empresa e permitindo o acompanhamento das espécies que utilizam as pontes ao longo das estações do ano. Os registros acumulados orientarão também a definição dos próximos pontos de instalação, consolidando um protocolo técnico que pode servir de referência para outros operadores de infraestrutura linear no país.

  • Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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