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O Brasil importa 75% do fósforo que usa na lavoura — e os porcos podem mudar isso

Pesquisas da Embrapa mostram que fertilizantes feitos a partir de dejetos suínos entregam produtividade equivalente à adubação convencional e ainda reduzem passivos ambientais

Escrito por: Agronamidia Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Agricultura
O Brasil importa 75% do fósforo que usa na lavoura — e os porcos podem mudar isso

Cerca de 75% do fósforo consumido pela agricultura brasileira vem de fora do país. Em um setor que coloca o Brasil entre os maiores produtores de alimentos do mundo, essa dependência representa um ponto de vulnerabilidade real: qualquer oscilação no mercado internacional de fertilizantes — como a vivida em 2022, quando os preços explodiram após a guerra na Ucrânia, se traduz diretamente em custo maior para o produtor e risco para a safra. É nesse contexto que um fertilizante produzido a partir de dejetos de suínos começa a ganhar relevância científica e econômica no Brasil.

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A tecnologia, pesquisada pela Embrapa Agrobiologia, parte de um princípio simples: os dejetos animais são ricos em fósforo, nitrogênio e outros nutrientes que, em vez de serem descartados como problema, podem ser recuperados e reintroduzidos na cadeia produtiva como insumo agrícola. O resultado é um fertilizante que transforma um passivo ambiental em produto de valor agregado e que, nos experimentos realizados até agora, tem apresentado desempenho consistente nas lavouras.

O que os experimentos mostram

Em condições controladas, o fertilizante à base de dejetos suínos foi capaz de suprir até 50% da necessidade de fósforo em lavouras de soja, com produtividade registrada de 3.500 quilos por hectare. Para efeito de comparação, a média nacional de produtividade de soja estimada para 2025 é de 3.560 kg/ha — uma diferença de apenas 60 quilos, praticamente dentro da margem de variação entre talhões de uma mesma fazenda.

O desempenho está diretamente relacionado à forma como o nutriente é liberado. Diferentemente dos fertilizantes fosfatados minerais convencionais, que disponibilizam o fósforo de forma imediata, o fertilizante de origem suína libera os nutrientes de maneira gradual. Em solos tropicais, onde o fósforo tende a ser rapidamente fixado pelas partículas do solo e se torna indisponível para as plantas, essa liberação mais lenta representa uma vantagem real de aproveitamento.

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Além disso, pesquisadores avançam no desenvolvimento de formulações organominerais, que combinam o material de origem animal com nutrientes minerais. Em testes iniciais, essas formulações apresentaram difusão de fósforo até 50% superior nos primeiros 28 dias em comparação ao fertilizante na forma granulada convencional — um resultado que, se confirmado em escala de campo, pode ampliar ainda mais a competitividade do produto.

A escala que o Brasil já tem disponível

Um dos pontos mais relevantes para a viabilidade da tecnologia é que o Brasil já possui a matéria-prima em abundância. Estimativas da Embrapa indicam que propriedades com mais de 5 mil animais teriam capacidade de gerar, juntas, aproximadamente 340 mil toneladas anuais desse fertilizante no país. Isso representa uma base de produção expressiva que ainda não foi convertida em cadeia produtiva organizada.

O fato de a suinocultura estar concentrada em regiões específicas do sul do Brasil também cria uma oportunidade de desenvolvimento regional: a instalação de unidades de recuperação de nutrientes pode gerar empregos, reduzir custos logísticos de insumos importados e ainda resolver um gargalo ambiental crônico dessas regiões. O excesso de nutrientes no solo, causado pela aplicação desordenada de dejetos in natura, é um problema antigo em bacias hidrográficas próximas a grandes concentrações de suínos — e a tecnologia de recuperação ataca justamente essa fonte de contaminação antes que ela chegue ao solo ou à água.

Uma lacuna científica que precisa ser preenchida

Apesar do avanço das pesquisas e do uso consolidado da tecnologia em outros países, com dezenas de unidades produtivas já em operação, o fertilizante de dejeto suíno ainda é relativamente pouco estudado no Brasil nas condições específicas dos solos brasileiros — sobretudo nos solos ácidos e com alta capacidade de fixação de fósforo que dominam grande parte das áreas agricultáveis do Cerrado e do Centro-Oeste.

Essa lacuna é relevante porque o comportamento do fertilizante pode variar significativamente conforme o tipo de solo, o pH, a temperatura e o manejo adotado. Sem dados nacionais suficientes, a recomendação técnica para os produtores ainda é limitada, o que retarda a adoção em larga escala. Ampliar a base científica sobre o tema é, portanto, condição para que a tecnologia saia dos experimentos e entre, de fato, na rotina das fazendas brasileiras.

Alinhamento com a política nacional de fertilizantes

A consolidação desse mercado não depende apenas de pesquisa. O Plano Nacional de Fertilizantes, que busca estimular a produção interna e diversificar as fontes de insumos, cria o ambiente regulatório e de incentivo necessário para que alternativas como essa ganhem tração. Em um cenário de recursos minerais finitos, pressão por sustentabilidade ambiental e alta dependência de fornecedores externos, o aproveitamento de nutrientes presentes em resíduos agropecuários passa a ser muito mais do que uma solução ecológica — é uma estratégia de segurança produtiva para o maior exportador de alimentos do hemisfério sul.

O fertilizante que nasce do dejeto suíno não resolve, sozinho, a equação da dependência brasileira de fósforo. Mas mostra, com dados concretos, que parte da resposta para esse problema já existe dentro das próprias fronteiras do país.

Via: Embrapa
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